Anotação aleatória (LVI)
terça-feira, 24 de janeiro de 2012Todos os dias eu acordo um pouco mais velho, tendo esquecido um pouco dos dias anteriores. E se algum dia eu acordar bem mais novo, tendo esquecido quase tudo dos dias anteriores?
Postado por Jōken às 23:35 0 comentários
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Todos os dias
terça-feira, 3 de janeiro de 2012Em certa ocasião eu perguntei ao Roshi:
- Quem inventou essa Grande Prática do Sesshin?
O Roshi respondeu:
- Eu não sei. Mas talvez no tempo de Shakyamuni Buddha eles tenham praticado assim, todos os dias.
Postado por Jōken às 10:51 0 comentários
O Giro da Roda do Dharma
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011Em uma palestra do Monge Genshô no Rio de Janeiro, um dos presentes lhe fez uma pergunta mais ou menos assim:
"Não é contraditório que existam essas regras e hierarquia no Zen?"
Ele provavelmente fez essa pergunta em função da abordagem não-conceitual no Zen (como sugerido no título do livro de D.T. Suzuki, "A doutrina zen da não-mente"), e talvez influenciado por alguma escola não-buddhista que pregue a ausência de regras e hierarquia.
Monge Genshô lhe respondeu que não, pelo contrário, e que o treinamento Zen era principalmente um treinamento de "forma", ou de regras bem definidas. Ele inclusive contou que um de seus professores no templo de Yokoji baseava o treinamento principalmente nisso: forma, forma, forma até a exaustão. Também que a necessidade e o sentido dessas regras, muitas vezes incompreendidas a princípio, acabavam por revelarem-se pouco a pouco com a prática.
Não me lembro exatamente toda a explicação, mas provavelmente apontou até que, se não houvesse um método de treinamento (que por definição precisa de regras), provavelmente não sobraria muita coisa que pudesse ser chamada de Zen. O que remete ao dito "com esforço não se consegue nada, mas sem esforço aí mesmo é que não se vai a lugar algum", o que poderia ser adaptado para algo como "com treinamento não se consegue nada, mas sem treinamento não se vai a lugar algum".
Isso talvez cause confusão em algumas pessoas, é um tanto paradoxal, e confesso, provavelmente me falte clareza o suficiente para explicar a compatibilidade entre "a doutrina zen da não-mente" e as inúmeras regras de treinamento no Zen.
Mas um interessante "causo" do mundo da informática talvez ponha um pouco de luz à essa questão. Os personagens são Marvin Minsky, um dos pioneiros na área de inteligência artificial e redes neurais, pesquisador e professor do MIT, e seu então aluno, Gerald Sussman, atualmente também pesquisador e professor na mesma área.
"Então Sussman começou a trabalhar em um programa. Não muito tempo depois, um cara meio esquisito e careca apareceu. Sussman imaginou que o cara iria expulsá-lo da sala, mas ao invés disso o homem sentou-se, perguntando - Ei, o que você está fazendo? Sussman conversou sobre o programa com o homem, Marvin Minsky. Em certo ponto da discussão, Sussman disse a Minsky que ele estava usando uma certa técnica de randomização em seu programa porque ele não queria que a máquina tivesse noções pré-concebidas. Minsky lhe disse: - Bem, ela as tem [noções pré-concebidas], a diferença é que você não sabe quais elas são. Foi a coisa mais profunda que Gerry Sussman jamais havia ouvido. E Minsky continuou, dizendo a ele que o mundo é feito de certa forma, e que a coisa mais importante que podemos fazer com o mundo é evitar a aleatoriedade, e imaginar maneiras pelas quais as coisas possam ser planejadas. Sabedoria como aquela teve forte efeito no calouro de dezessete anos, e dali então Sussman estava capturado."
Marvin Minsky talvez seja um dos seres humanos vivos mais inteligentes, e fica claro na história acima que ele não estava falando somente de programas de computador, mas de mentes humanas também. O ponto que ele levanta é muitíssimo interessante.
Sabe-se que no Budismo, não somente o fim do sofrimento pessoal é importante - infinitamente mais importante é o fim do sofrimento de todos os seres. Ainda que uma pessoa tenha a imensurável boa sorte (ou melhor, as inúmeras condições apropriadas) de conseguir eliminar todo o sofrimento na primeira vez que sente em meditação, é necessário um esforço imensamente maior e mais elaborado para eliminar o sofrimento de todos os seres nas dez direções, de seus respectivos pontos de vista relativos. E é claro, para aqueles que como eu que não conseguiram tal façanha, é preciso um esforço e método continuados de prática, que por sua vez é proporcionado por um grande número de amigos que nos ajudam nessa empreitada.
Quem já participou de sesshins já pode ter percebido que trata-se de uma estratégia cuidadosamente planejada para criar o máximo de condições propícias para levar os participantes a uma experiência de esclarecimento, ou em outras palavras, ao início do fim do sofrimento. Essa estratégia é composta por um grande número de regras, cada uma com sua importância, que aos poucos vamos compreendendo. E é claro, a estratégia é executada por atores, que somos nós, os praticantes.
E quem foi o grande estrategista que ensinou o Caminho e criou as inúmeras regras monásticas e leigas iniciais que resultaram nas diversas escolas e métodos budistas que temos hoje? Ninguém menos que Shakyamuni Buddha. A esse grande e maravilhoso impulso chamamos de "O Giro da Roda do Dharma".
(Nesse texto, "Zen" refere-se às escolas Zen Budistas tradicionais, e provavelmente à maioria das escolas Budistas.)
Os Três Giros da Roda do Dharma: http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=42
Os Três Giros da Roda do Dharma: http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=42
Postado por Jōken às 23:32 1 comentários
Zazen para todos
quarta-feira, 30 de novembro de 2011Cena do filme "Zen": A vida de Dogen
O sofrimento é causado pela ignorância.
Ignorância é a ilusão do "eu".
A ilusão do eu é alimentada pelo desejo de que as coisas sejam diferentes do que são nesse exato momento.
A raiva ocorre quando algo não é como eu quero.
A cobiça ocorre quando eu quero algo que não tenho.
"Isso eu quero", "isso eu não quero", essas são as origens do sofrimento.
Zazen é a imediata cessação do sofrimento e das causas do sofrimento.
"Deixe vir, deixe ir", essa é a regra do Zazen. Deixar ser tal como é.
Buddha é aquele que é tal como é. Zazen é a prática de Buddha.
Sentando sem nada querer e sem nada buscar, experimenta-se pela primeira vez o gosto da liberdade.
Cada coisa tem seu lugar no contexto de todas as coisas.
Querer algo diferente daquilo que é nesse exato momento é criar a ilusão do eu, desequilibrar o que estava equilibrado, a origem do sofrimento.
Ser tal como é nesse exato momento é estar no lugar correto no contexto de todas as coisas. É unir-se com todas as coisas.
Postado por Jōken às 01:37 0 comentários
Karma
domingo, 27 de novembro de 2011Se eu coloco fogo na floresta a minha frente, terei uma floresta queimada por todos os lados.
Se eu não lavar a louça à noite, amanhã a louça estará por lavar.
Se eu for rude com uma pessoa, ela ficará chateada comigo.
Se eu for a Paris, Paris virá até mim.
Parece mágica, mas não é. É natural.
Qualquer coisa que eu faça no mundo, ficará marcada.
Eu mesmo serei herdeiro disso.
Não há como fugir do resultado de minhas ações.
O mundo é um espelho da mente ou é a própria mente?
Postado por Jōken às 18:07 0 comentários
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