Haiku VII

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pequeno haiku -
tão poucas palavras, tão
pouco a dizer.

Anotação aleatória (XLIII)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Às vezes não há nada a falar. Então é melhor permanecer em silêncio do que falar (mais) tolices.

Anotação aleatória (XLII)

domingo, 15 de novembro de 2009

Se disséssemos que há diferença entre eu e você, estaríamos enganados. Se disséssemos que não há diferença entre eu e você, estaríamos perdendo algo. Um abraço seria apropriado.

Não-Livre

sábado, 14 de novembro de 2009

Não-Livre
Condicionado
Prisioneiro de si mesmo
Amarrado a conceitos
Imerso em ilusão
Cheio de pré-concepções

Anotação aleatória (XLI)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Optar pela não-liberdade pode ser também um exercício da liberdade.

Anotação aleatória (XL)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entre as possibilidades de ações incondicionadas, existem ações idênticas às possíveis ações condicionadas. Assim, ações aparentemente condicionadas podem ser também, sob certo ponto de vista, incondicionadas.

Qual é o Buddha?

sábado, 7 de novembro de 2009


Se os dois bonecos acima fossem duas pessoas sentadas em meditação, e eu soubesse (de uma maneira qualquer) que ao menos um deles é um Buddha perfeitamente consumado, como eu saberia qual é o Buddha?

Digamos que eu não conheça nenhum dos dois. Ambos estão sentados perfeitamente imóveis, na mesma posição. Não conheço seus pensamentos. Não posso atrapalhar a meditação deles.

Qual dos dois é o Buddha?

Os dois estão exatamente na mesma posição. Os dois estão fazendo exatamente a mesma coisa (apenas sentados, em meditação). Não há absolutamente nada que distingua um do outro naquele momento.

O que resta? Na mente deles, pode haver alguma diferença... Mas qual diferença? Um pode pensar que é um Buddha, outro pode pensar que não é um Buddha (o que não garante nada, pois ambos podem até estar enganados), ou podem até não pensar nada - de qualquer forma eu não sei, e se soubesse, poderia estar até enganado. Será que importa mesmo o que eles estejam pensando ou não estejam pensando?

Não me resta nenhuma alternativa senão aceitar, que naquele momento, para mim, ambos são igualmente e verdadeiramente Buddha.

Mini-estudo sobre as possíveis ações de uma pessoa livre das amarras de seu próprio ego


Uma pessoa que não é amarrada aos desmandos de seu próprio ego dificilmente irá roubar / tomar o que não lhe é dado. Isso porque a ação "roubar" geralmente é causada por uma motivação egóica (eu quero isso, eu quero aquilo, preciso de dinheiro para comprar aquilo para mim, etc.)

Porém, é possível que a pessoa não roube por uma motivação egóica. Por exemplo, ela não rouba para obter alguma vantagem divina.

De fato, tecnicamente para a pessoa livre de amarras, "roubar" não existe, pois esse é um conceito totalmente artificial, baseado em relações de posse virtuais, de egos virtuais. A ação de cometer o roubo, no entanto, é altamente improvável, visto que não há qualquer motivação para a mesma.

Pelo contrário, há a motivação contrária ao roubo: se roubar, outras pessoas poderão sofrer (pois elas são apegadas aos conceitos "roubo, posse"), e além disso a pessoa que rouba com razoável probabilidade irá sofrer punições desnecessárias pelo roubo.

Não sendo amarrada ao próprio ego, a pessoa percebe que ferir outra pessoa é equivalente a ferir a si mesma. Assim, ela evita o que causa sofrimento a si ou aos outros.

Similarmente, uma pessoa que não é amarrada aos desmandos de seu próprio ego dificilmente irá mentir, ou prestar falso testemunho, ou falar algo que cause sofrimento a alguém. Isso porque essas ações geralmente são cometidas visando alguma vantagem para si mesmo, coisa que uma pessoa não amarrada ao ego dificilmente faria.

Também, uma pessoa livre das amarras de seu próprio ego dificilmente irá assassinar outra pessoa ou outro animal. Isso porque na quase totalidade das vezes essa ação é cometida por algum motivo egóico (como vingança, paixão, obtenção de vantagens, livrar-se de um incômido, gana alimentar e até autodefesa).

Estendendo esse raciocínio, quase todas as ações consideradas não-virtuosas pelo budismo e também por outras religiões tem sua origem em motivos egóicos, ou seja, motivos ilusórios.

Ações consideradas virtuosas, também surgem naturalmente da inexistência de amarras ao próprio ego. Por exemplo, a pessoa não amarrada ao próprio ego não têm dificuldade alguma em ser generosa, já que para ela não há diferença alguma se o dinheiro ou qualquer outra coisa estiver com ela ou com outra pessoa.

Uma pessoa sem amarras ao próprio ego não é influenciada por suas próprias preferências, ou até, não tem preferências. Assim, não discrimina uma pessoa da outra, não favorece uma pessoa em relação à outra, seja qual for o motivo: ela ajuda a quem precisa de ajuda, não importando o que possa ter acontecido no passado, ou a aparência da outra pessoa, ou seja o que for.

De alguns desses e de outros exemplos, e examinando minhas ações cotidianas, eu concluo que sou uma pessoa muito amarrada ao meu próprio ego, e portanto um prisioneiro de mim mesmo.

Vide também: Amarras

Sobre acreditar na Mente

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]

Baseado na tradução de D.T.Suzuki


O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.

Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade

[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.

Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.

Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?

E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.

Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.

Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.

Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.

Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.

O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.

Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.

O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.

Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?

O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.

O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.

Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.

Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.

Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?

O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.

Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.

Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.

O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.

Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".

Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.

Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.

Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.

O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.

Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!

Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.



Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.

Meditação sobre um campo florido

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nada importante, infinitamente importante.

Mesmo depois que eu morrer, nada irá mudar.
O sol continuará nascendo, as primaveras virão.
As flores brotarão, os pássaros voarão no céu.
Os filhos de meus amigos brincarão nos gramados.

Certamente, daqui a mil anos, ninguém sentirá a minha falta.
Não sou nada importante.

Quando eu morrer, nada irá mudar. É verdade, pessoas próximas deverão sentir muito a minha falta. Nos separar daqueles que amamos é sofrimento, inevitável. Será muito triste, certamente muito triste.

Pensando bem, acho que eu sentiria falta até mesmo de sentir uma dorzinha no joelho. Até mesmo dos meus espirros.

Pensando melhor, quem haverá para sentir falta dessas coisas?

Só agora sinto falta por antecipação. Depois, não haverá ninguém para sentir falta disso.

É uma pena. É verdadeiramente muito triste. Mas acho que se pudesse, até mesmo da tristeza eu sentiria falta.

Dizer adeus a tudo, parece que será muito difícil. No entanto, também parece que tudo estará no seu devido lugar.

Talvez daqui a mil anos, alguém venha a ler esse exto. Talvez entenda o que eu quero dizer com ele. Talvez não. Mesmo se eu estivesse diante dele, será que ainda assim nos entenderíamos?

Biologicamente vivo ou morto, será que há mesmo muita diferença quando eu falo com alguém?

Quando eu falo com alguém, será que a pessoa me ouve mesmo? Quando alguém fala comigo, será que eu ouço a pessoa mesmo?

Às vezes sim, às vezes não. Às vezes parece que eu só falo comigo mesmo.

Mesmo sem que eu perceba, certamente há mil vozes de mil anos atrás escondidas nesse silêncio de agora.

Será que daqui a mil anos, alguém conseguirá nos ouvir no silêncio de um campo florido?

Nota importante

terça-feira, 20 de outubro de 2009

De agora em diante (embora sempre o fosse, e há algum tempo viesse mais fortemente sendo), esse espaço será somente e tão somente um caderno de anotações pessoais, ou seja, as coisas anotadas aqui são intencionalmente pertinentes somente a mim mesmo.


Eu poderia anotar as mesmas coisas em um caderno particular, porém acredito que algumas coisas aqui possam ser partilhadas "a quem possa interessar", ou seja, escrevo coisas que hipoteticamente possam ser pertinentes/úteis/interessantes para alguém, porém sem a intenção ou pretensão que elas sejam realmente pertinentes/úteis/interessantes.

Escrevo isso para deixar claro o que eu parcialmente já vinha fazendo antes, mas que por descuido não havia explicitado claramente.

No entanto comentários serão sempre bem-vindos.

Anotação aleatória (XXXIX)

"A" é "A" ?
Resposta 1: É.
Resposta 2: É também.

Tudo é ilusão; tudo é passageiro

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Eclesiastes 1 (Tudo é ilusão)

(1) O autor deste livro é Salomão, rei em Jerusalém, filho do rei David, conhecido como o pregador.

(2) Na minha opinião tudo é ilusão; tudo é passageiro.

(3) O que é que uma pessoa ganha com todo o duro trabalho que tem?

(4) As gerações vão passando, umas após outras, sem que haja alteração nisso.

(5) O Sol nasce, e põe-se, mas volta sempre ao lugar onde nasceu;

(6) o vento sopra ora do sul, ora do norte, duma banda doutra, circulando na atmosfera, mas para não chegar a sítio nenhum.

(7) Os rios correm para o mar, mas este nunca chega a ficar cheio, e essa água por fim retorna aos rios, para correr novamente para o mar.

[...]

(12-13) Eu, o pregador, fui rei de Israel, vivendo em Jerusalém; e apliquei-me a procurar entender tudo no universo.

(14) Descobri então que a sorte do ser humano, que Deus lhe destinou, não é nada boa. É tudo loucura, é tudo andar a correr atrás do vento.

(15) O que está mal não pode ser corrigido; e também não vale a pena reflectir sobre como as coisas poderiam ter sido doutra forma.

(16) Disse assim para comigo: Afinal, sou mais instruído do que qualquer dos reis que me precederam em Jerusalém. Tenho uma melhor bagagem de sabedoria e de conhecimentos.

(17) É porque me esforcei grandemente por ser sábio, e não ignorante; no entanto dou-me conta agora de que até isto foi também como correr atrás de nada.

(18) Porque quanto maior era a minha sabedoria, maiores eram as minhas preocupações; aumentar os conhecimentos apenas traz consigo aumento de aflições.

[...]

Eclesiastes 3 (Tudo tem um tempo próprio)

(1) Existe um tempo próprio para tudo, e há uma época para cada coisa debaixo do céu:

(2) um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou;

(3) um tempo para matar, um tempo para curar as feridas; um tempo para destruir e outro para reconstruir;

(4) um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para se lamentar e outro para dançar de alegria;

(5) um tempo para espalhar pedras, um tempo para as juntar; um tempo para abraçar, um tempo para afastar quem se chega a nós;

(6) um tempo para andar à procura e outro para perder; um tempo para armazenar e um para distribuir;

(7) um tempo para rasgar e outro para coser; um tempo para estar calado e outro tempo para falar;

(8) um tempo para amar, um tempo para odiar; um tempo para a guerra, e um tempo para a paz.

(9) O que é que uma pessoa realmente obtém com o seu esforço?

[...]

(19) Pois tanto estes como aqueles, ambos respiram o mesmo ar, ambos morrem. É assim que a humanidade não tem vantagens reais sobre os animais. Eis outra coisa absurda!

(20) Tudo vai ter ao mesmo lugar - todos são pó e ao pó voltarão.

(21) Quem pode provar que o fôlego do homem vai para cima e o dos animais fica no pó da terra?

(22) É dessa forma que eu constatei que não há nada melhor para o homem do que ser feliz no seu trabalho; é esse o seu quinhão na terra; ninguém o fará voltar à vida para ver o que acontecerá depois dele; por isso, que disfrute do presente!

Algumas notas sobre minha prática pessoal

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Esse texto está em ordem crescente, mas repetidamente me vejo logo no começo novamente. Na verdade, passo muito mais tempo no começo do que no "final".
{Shikantaza-Começo}
No começo, eu não tenho nem idéia que minha ações possam trazer sofrimento para mim e para os outros. Ajo em total ignorância, sem distinguir o certo e o errado, de modo confuso.
{Shikantaza-Ignorância}
Depois, até consigo ver o que seria o certo (ou menos errado), mas não consigo agir da maneira correta. Então fico inventando desculpas para explicar meus próprios erros e tento arranjar culpados quando só eu mesmo sou o culpado.
{Shikantaza-Ego}
De repente, eu até começo a conseguir fazer algumas coisas corretamente, mas fico com orgulho disso, e passo a julgar os outros que não fazem as coisas "corretamente" como eu.
{Shikantaza-Virtude}
Então, eu começo a ver que essas pessoas na verdade não sabem exatamente o que elas estão fazendo (exatamente como eu no começo), passando então a entender porque elas fazem coisas "erradas", não mais me julgando melhor que elas. Esse entendimento pode ser uma parte do que se chama de "compaixão".
{Shikantaza-Compaixão}
Finalmente, eu não vejo muitas coisas certas e erradas, nem em mim nem nos outros. Porém não é como no começo. Não é algo confuso, e sim algo claro. Tudo parece estar onde deveria estar.
{Shikantaza}
Depois... - eu não sei. Será que é só isso?
{Shikantaza?}
Hora de começar tudo de novo.
{Shikantaza}

O mercador de Tabriz

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O mercador de tapete. Autor: Addison Thomas Millar

Um mercador de Tabriz vendia magníficos tapetes persas por 14 peças de ouro, obtendo um lucro de 4 peças de ouro em cada peça. Certo dia um comprador aproximou-se de sua tenda no mercado lhe oferecendo um negócio:

- As'salaam Aleikum, akh. Vejo que o senhor vende esses fomidáveis tapetes por 14 peças de ouro. No entanto, há um novo comerciante na parte baixa do mercado que vende tapetes de qualidade equivalente por somente 13 peças de ouro, uma verdadeira barganha. O senhor não me venderia um de seus tapetes por 12 peças de ouro?

Assim acabaram fechando negócio por 12 peças de ouro.

Caso 1:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Maldito dia. Esse comprador acaba de me fazer perder 2 peças de ouro.

Caso 2:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Que dia maravilhoso! Esse comprador acaba de me fazer lucrar 2 peças de ouro!

Caso 3:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Ouvi falar que poderemos ter ótimas tâmaras na próxima estação de colheita. Insha'Allah!

Caso 4:

Conte o seu caso!

Mula madhyamaka karika (Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio) - Capítulo 25

domingo, 4 de outubro de 2009

A quem possa interessar. Uma tradução de tradução pessoal do capítulo 25 do Mulamadhyamakakarika, um pouco truncada, com alguns comentários meus, para estudo pessoal.

Traduzido de http://www.stephenbatchelor.org/verses2.htm


Capítulo 25. Investigação do Nirvana

1. Se tudo fosse vazio, então não haveria originação e cessação. Do abandono de que e da cessação de que alguém poderia referenciar o Nirvana?

[Comentário meu: Nirvana é definido como a cessação de duhkha. Se não houvesse duhkha, tampouco poderia haver Nirvana. O mesmo se aplica a Nirvana e Samsara.]

2. Se tudo não fosse vazio, não haveria originação e cessação. Do abandono de que e da cessação de que alguém poderia referenciar o Nirvana?
[Comentário meu: vazio = sem existência independente/inerente.]

3. Nenhum abandono, nenhum alcançar, nenhuma aniquilação, nenhuma permanência, nenhuma cessação, nenhum nascimento: assim é dito do nirvana.

4. Nirvana não é uma coisa. Se fosse, teria características de envelhecimento e morte. Não existe nenhuma coisa que seja sem envelhecimento e morte.

5. Se Nirvana fosse uma coisa, Nirvana seria um fenômeno condicionado. Não existe nenhuma coisa em nenhum lugar que não seja um fenômeno condicionado.

6. Se Nirvana fosse uma coisa, como poderia o Nirvana não ser dependente? Não existe absolutamente nenhuma coisa que não seja dependente.

7. Se Nirvana não fosse uma coisa, como poderia possivelmente ser uma não-coisa? Para aquele que o Nirvana não é uma coisa, para ele o Nirvana tampouco é não-coisa.

[Comentário meu: Estou traduzindo thing como coisa e nothing como não-coisa, ao invés de nada. Se Nirvana não for definido como uma coisa, tampouco pode ser definido como uma não-coisa, pois coisa e não-coisa são definidos simultâneamente, e um depende do outro. Estou tentando evitar ao máximo possível a palavra nada pois ela confunde muito a lógica - que de qualquer modo logo vai ficar confusa.]

8. Se Nirvana não fosse não-coisa, como poderia o Nirvana ser possivelmente não-dependente? Não existe nenhuma não-coisa que seja não-dependente.

[Comentário meu: De novo traduzindo nothing como não-coisa, ao invés de nada. Isso para tentar deixar um pouco mais claro no verso que não-coisa não pode independente/não-dependente (se coisa é dependente, não-coisa também é, pois uma é definida a partir da outra.)]

9. Quaisquer coisas que venham ou vão são dependentes ou causadas. Não ser dependente e não ser causado é ensinado como sendo o Nirvana.
[Comentário: Nirvana = Incondicionado.]

10. O professor ensinou [que o Nirvana é] abandonar a originação e a cessação. Assim, é correto dizer que o Nirvana não é uma coisa ou uma não-coisa.

11. Se Nirvana fosse ambas coisa e não-coisa, consequentemente seria uma coisa e não-coisa. Isso é incorreto.

12. Se Nirvana fosse ambas coisa e não-coisa, Nirvana não seria não-dependente, pois dependeria dessas duas.

13. Como poderia o Nirvana ser ambos uma coisa e uma não-coisa? Nirvana é incondicionado; coisas e não-coisas são condicionadas.

14. Como poderia o Nirvana existir como ambas coisa e não-coisa? Essas duas não existem como uma. Elas são como claro e escuro.

15. A apresentação de nem coisa nem não-coisa como sendo o nirvana seria estável apenas se coisa e não-coisa fossem estáveis.
[Comentário meu: Nem coisa nem não-coisa são definidas a partir de coisa e não-coisa, portanto também são dependentes de coisa e não-coisa, e portanto, não-estáveis.]

16. Se Nirvana é nem uma coisa nem não-coisa, por quem "nem coisa nem não-coisa" seria percebida?

17. Depois que o Abençoado entra no Nirvana, alguém não pode percebê-lo como "existindo" ou como "não existindo" ou como "ambos existindo e não existindo" ou "nem existindo nem não existindo".
[Comentário meu: Abençoado = Buddha, Nirvana = Parinirvana, ou seja, após a morte do Buddha. São as quatro negações além do pensamento conceitual, ou que simplesmente não se aplicam ao pensamento conceitual.]

18. Mesmo enquanto o Abençoado está vivo, alguém não pode percebê-lo como "existindo" ou como "não existindo" ou como "ambos existindo e não existindo" ou "nem existindo nem não existindo".

19. Samsara não é minimamente distinto de Nirvana. Nirvana não é minimamente distinto de Samsara.

20. Qualquer que seja o fim do Nirvana, é o fim de Samsara. Não há nem mesmo uma mínima muito sutil distinção entre Nirvana e Samsara.

21. Visões sobre morte, fim, e permanência são contingentes a partir do Nirvana e fins posteriores e fins anteriores.
[Meu comentário: Não entendi.]

22. Sendo todas as coisas vazias, o que tem fim? O que não tem fim? O que é simultaneamente com fim e sem fim? O que nem tem fim nem não tem fim?

23. Há isso? Há aquilo? Há permanência? Há simultaneamente permanência e impermanência? Há nem permanência nem impermanência?

24. Pacificar totalmente todos os referenciais e pacificar totalmente todas as fixações é paz. O Buddha em nenhum lugar ensinou nenhum dharma a ninguém.
[Comentário meu: Uma possível apresentação 'positiva'- Como o Buddha poderia ensinar alguém, se ele não é separado de ninguém? Como o Buddha poderia estar em algum lugar específico, se ele está em todo lugar? Como poderia ensinar algum dharma, se não há nada que não seja dharma?]

Avisos

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Atenção, por favor:

O presente blog pode apresentar erros graves, e os textos contidos nele representam somente e tão somente a mera opinião do autor (eu mesmo), como conseqüência até mesmo o entendimento incorreto do autor. Quando estiver escrito "Tal coisa" entenda "Na opinião do autor tal coisa" ou "Até onde o autor aprendeu de alguma fonte, não necessariamente correta, tal coisa". Na melhor das hipóteses, "na experiência limitada do autor, tal coisa". Muitas vezes são citados outros textos, entenda somente que o autor julgou o texto pertinente ao assunto, porém esses textos, mesmo que sejam consagrados podem ser distorcidos fora do contexto, ou mesmo não serem tão válidos assim. Nenhuma opinião ou declaração contida nesse blog deve ser tomada como verdade por nenhuma pessoa. Tentarei dentro do possível deixar isso o mais claro o possível nos textos, e corrigir qualquer erro que seja apontado, mas isso não exime de forma alguma a possibilidade de erros, nem a responsabilidade do autor (eu mesmo) pelos equívocos cometidos. O blog é meramente um exercício do autor, que por hora o considera pertinente para si próprio, e não deve ser entendido de nenhuma outra forma.

Muitos dos textos nesse blog pretendem ter algum fundamento buddhista, porém alguns ou até todos eles podem não ter nenhuma compatibilidade verdadeira com o buddhismo, especialmente se forem julgados sob um critério tradicional e/ou ortodoxo, por um professor ou mestre qualificado e realizado. Eu não tenho nenhuma autorização especial para escrever os textos aqui, de nenhum professor ou escola buddhista, e não me considero apto a ter qualquer autorização desse tipo. Escrevo os textos por minha própria conta e risco, até com uma certa ousadia, e portanto peço aos eventuais leitores que entendam os potenciais riscos de ler os textos escritos aqui.

Atenção também à nota de rodapé do blog: Os textos contidos neste site são de autoria de um praticante com pouca experiência, exceto quando de outra forma indicado, e não devem ser tomados como ensino de Dharma formal ou informal. Para receber ensinamentos do Dharma apropriadamente, procure um Centro Buddhista ou professor do Dharma qualificado e reconhecido.

Portanto caso você não se julgue maduro o suficiente para não se deixar levar por meras opiniões, o melhor talvez seja nem ler este blog. Aliás, existem infinitas coisas comprovadamente melhores para fazer do que ler esse blog; notáveis exemplos são praticar zazen ou procurar um centro buddhista. Mas agradeço de qualquer forma a sua visita.

Os 33 sinônimos de Nibbana (Nirvana)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

(Sinônimos que aparecem no Cânone em Pali)

1. O Incondicionado
2. A destruição da cobiça, da raiva, da ilusão
3. O não-influenciado
4. O não-contaminado
5. A verdade
6. A outra margem
7. O sutil
8. O muito difícil de ver
9. O que não envelhece
10. O estável
11. O não-desintegrável
12. O não-manifesto
13. O não-proliferado
14. O pacífico
15. O imortal
16. O sublime
17. O auspicioso
18. O seguro
19. A destruição do desejo
20. O maravilhoso
21. O magnífico
22. O não-sofrimento
23. O estado de não-sofrimento
24. O não-aflito
25. Desapego
26. Pureza
27. Liberdade
28. O não-apego
29. A ilha
30. A concha
31. O asilo
32. O refúgio
33. O destino e o caminho que leva ao destino.


“Portanto, discípulos, eu ensinei para vocês o incondicionado e o caminho que conduz ao incondicionado. Aquilo que por compaixão um mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, eu fiz por vocês. Ali estão as raízes das árvores; ali as cabanas vazias. Meditem, discípulos, não adiem, ou então se arrependerão mais tarde. Essa é a minha instrução a vocês." Buddha (SN 43:1)

A estranha linha entre o aprendizado e o ensino (II)

domingo, 27 de setembro de 2009

Estou escrevendo esse texto pois reli A estranha linha entre o aprendizado e o ensino, e achei que aquele pode possivelmente ser interpretado de algumas formas que eu não havia intencionado. Gostaria de tentar minimizar possíveis interpretações não intencionadas.


Primeiro, aquele texto não quer dizer que não há importância na relação professor-aluno / mestre-discípulo. Pelo contrário, gostaria de mostrar (talvez hesitante e tortuosamente) como é importante e sutil essa relação.

Segundo, o conteúdo daquele texto jamais deverá servir de pretexto para que um aluno não respeite o professor. Pelo contrário, o melhor é que o aluno sempre tenha o máximo respeito pelo professor. Se o aluno for orgulhoso o suficiente para não respeitar o professor, certamente será orgulhoso demais para aprender qualquer coisa.

Como eu sou somente um aluno, tenho muito pouco entendimento sobre o que um professor deve ensinar. Aquele texto tenta somente elaborar um pouco o que o aluno deve aprender.

Já li em algum lugar uma citação atribuída a Boddhidharma, que diz que somente uma pessoa em um milhão têm as condições necessárias para alcançar a iluminação sem um professor. A não ser que se queira jogar numa loteria de vida ou morte, o melhor a fazer é encontrar um professor o mais rapidamente o possível.

Quando eu digo que de certa forma nem o professor ensina, nem o aluno aprende, não quero dizer que não há trabalho da parte dos dois. Pelo contrário, o trabalho é ainda mais árduo por causa disso. O que eu quero dizer é que o aluno tem diversas visões errôneas, pré-concepções e pré-conceitos, muito difíceis de desfazer (desaprender). O trabalho do professor é ensinar técnicas e métodos para que o aluno possa desfazer esses nós. O trabalho do professor não é nem um pouco fácil. Isso porque diferentes alunos podem ter diferentes e complicados nós para desatar. O trabalho do aluno é desfazer os nós ele mesmo, pois os nós ficam dentro dele, onde o professor não pode alcançá-los.

Não basta ao aluno aprender a técnica de desatar os nós. Ele tem que aplicar a técnica com sucesso, desatando os nós, isso é o mais difícil. Depois disso ele poderia até jogar a técnica fora. Mas aí pode chegar a hora de um trabalho ainda mais nobre (e interminável): ensinar a técnica para outros.

Que extraordinário!

No grande esquema das coisas,

do ordenado movimento gravitacional dos corpos celestiais,

ao aleatório movimento quântico dos corpos infinitesimais,

bem no meio - cá estamos.

Que extraordinário!

Exatamente entre o céu e a terra - há escolha.

Nem aleatório nem ordenado,

o movimento necessário é simples e sutil.

Harmonizando o aleatório e o ordenado,

o céu e a terra agradecem.

As folhas caem no pátio varrido,

um ponto sai desalinhado na costura do retalho,

o tornozelo dói após a caminhada,

a nuvem passa lentamente no céu.