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Devadatta

terça-feira, 2 de março de 2010

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Devadatta era primo de Buddha, e tornou-se um de seus discípulos, até ter se corrompido pelo próprio orgulho.

Devadatta é o grande "malvadão" das escrituras buddhistas. Cometeu três das mais graves ofensas possíveis no buddhismo: tentou matar o Buddha, causou um cisma na Sangha e incintou alguém a matar o próprio pai. Devido a essas e outras ofensas ele teria ido parar no pior dos infernos da cosmologia buddhista devido à lei da causa-e-efeito.

Interessante como a história de Devadatta foi preservada até hoje. Não foi escondida como algo incoveniente. Pelo contrário, serve de ensinamento. Isso faz dele uma espécie de "Buddha ao contrário", o que talvez seja tão efetivo em termos de exemplo quanto um "Buddha do lado certo".

Assim, Devadatta é, talvez da maneira inversa que teria se imaginado, um professor disfarçado, que ajuda inúmeros seres no Caminho. Um verdadeiro amigo.

Não é à toa que no Sutra de Lótus, Buddha Shakyamuni afirma que Devadatta será um Buddha no futuro. E que foi até seu professor em uma vida passada, tendo sido um bom amigo que o ajudou a encontrar o Caminho.

Anotação aleatória (XLII)

domingo, 15 de novembro de 2009

Se disséssemos que há diferença entre eu e você, estaríamos enganados. Se disséssemos que não há diferença entre eu e você, estaríamos perdendo algo. Um abraço seria apropriado.

Meditação sobre um campo florido

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nada importante, infinitamente importante.

Mesmo depois que eu morrer, nada irá mudar.
O sol continuará nascendo, as primaveras virão.
As flores brotarão, os pássaros voarão no céu.
Os filhos de meus amigos brincarão nos gramados.

Certamente, daqui a mil anos, ninguém sentirá a minha falta.
Não sou nada importante.

Quando eu morrer, nada irá mudar. É verdade, pessoas próximas deverão sentir muito a minha falta. Nos separar daqueles que amamos é sofrimento, inevitável. Será muito triste, certamente muito triste.

Pensando bem, acho que eu sentiria falta até mesmo de sentir uma dorzinha no joelho. Até mesmo dos meus espirros.

Pensando melhor, quem haverá para sentir falta dessas coisas?

Só agora sinto falta por antecipação. Depois, não haverá ninguém para sentir falta disso.

É uma pena. É verdadeiramente muito triste. Mas acho que se pudesse, até mesmo da tristeza eu sentiria falta.

Dizer adeus a tudo, parece que será muito difícil. No entanto, também parece que tudo estará no seu devido lugar.

Talvez daqui a mil anos, alguém venha a ler esse exto. Talvez entenda o que eu quero dizer com ele. Talvez não. Mesmo se eu estivesse diante dele, será que ainda assim nos entenderíamos?

Biologicamente vivo ou morto, será que há mesmo muita diferença quando eu falo com alguém?

Quando eu falo com alguém, será que a pessoa me ouve mesmo? Quando alguém fala comigo, será que eu ouço a pessoa mesmo?

Às vezes sim, às vezes não. Às vezes parece que eu só falo comigo mesmo.

Mesmo sem que eu perceba, certamente há mil vozes de mil anos atrás escondidas nesse silêncio de agora.

Será que daqui a mil anos, alguém conseguirá nos ouvir no silêncio de um campo florido?

Poema da fuga sem significado

sábado, 19 de setembro de 2009

Eu posso tentar fugir, mas eles irão me alcançar
Não há onde me esconder.

Eu posso tentar me enganar,
Mas no fim eles abrirão meus olhos.

Eu posso ir até a montanha mais alta do planeta
Eles estarão lá.

Mesmo no fundo do oceano,
Não tenho como escapar.

Ainda que eu esteja completamente sozinho,
A presença deles será refulgente.

Quando eu finalmente cansar de minha fuga sem sentido,
Inevitavelmente irei conhecê-los.

Todos os boddhisatvas, mahasatvas
Não há nada que esteja além de seu alcance.

Seus votos são irrevogáveis.
Pode a ilusão ser superada com a ajuda de outra ilusão?

Para um amigo conhecido ou desconhecido

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O que eu faria sem você, meu amigo?
Para quem eu escreveria? Com quem eu conversaria?
Quem seria eu, se não tivesse amigos?
Ananda sugeriu a Buddha que bons amigos seriam metade da vida espiritual,
Buddha corrigiu Ananda: Bons amigos são toda a vida espiritual.
Bons amigos caminham juntos,
Bons amigos caminham separados também.
Uma boa amizade começa desde o primeiro momento,
Uma boa amizade não é afetada com a distância.
Uma boa amizade não termina nem mesmo com a morte.
Uma boa amizade não começa nem termina: ela ocorre a todo instante.
Por que eu iria querer ter inimigos?
Melhor é que todos sejam meus amigos.
Mesmo que não me considerem como amigo, que eu lhes considere como amigos,
Um amigo verdadeiro não pede nada em troca pela sua amizade.
Conhecidos ou desconhecidos, que todos sejam meus amigos.

Jôshin-san

terça-feira, 9 de junho de 2009

Hoje faz exatamente um ano que eu vi meu amigo Flávio (Jôshin) pela última vez. Foi no dia seguinte ao do meu casamento (na foto acima eu estou à esquerda e ele à direita). Lembro-me bem pois encontrei-o na Comunidade Zen Budista de Florianópolis, um dia antes de eu retornar ao Rio de Janeiro. No mês seguinte ele veio a falecer.

Naquela ocasião por sorte pude agradecê-lo pelo presente que ganhamos dele e de seu irmão Felipe, uma imagem de Buddha, em cor branca, muito bonita, que tenho como o presente mais precioso que ganhei no casamento. Assim que tiver uma oportunidade postarei uma foto dessa estátua de Buddha.

Todas as pessoas que conheceram Jôshin sabem de sua generosidade. Os exemplos dessa generosidade são muitos, certamente a grande maioria desconhecida de mim, mas posso dar meu próprio testemunho com facilidade. Sendo eu muito iniciante, Flávio me ajudou bastante pelo seu exemplo. Sendo sua estatura imensa, era impossível não notar seus movimentos e aprender com eles.

Pude participar com Flávio em dois sesshins (retiros). Apesar do voto de silêncio, nos sesshins as pessoas ficam muito próximas e amigas. Mesmo em silêncio, Flávio era sempre gentil e paciente, indicando o caminho e os passos para os iniciantes. Em uma dessas ocasiões tive a sorte de sentar a seu lado durante o oryoki (refeição formal na tradição zen). Sendo os movimentos da refeição formal muito complicados, Jôshin me ajudava fazendo seus próprios movimentos lentamente para que eu pudesse copiá-los. Ele fazia isso sem fazer eu me sentir mal por não saber realizar os movimentos, nem expressando o menor orgulho por saber realizá-los.

Eu nunca poderei retribuir Flávio pelo que ele me ensinou, e tenho certeza que ele nem esperava nada em troca pela sua generosidade. Eu não terei outra escolha senão tentar retribuir o mundo da melhor forma que eu puder pela oportunidade de ter conhecido Jôshin-san. Se eu conseguir levar adiante um pouco dessa generosidade, uma parte dele continuará sempre viva no mundo. E tenho certeza que ele continua vivo em muitos outros.

Bons amigos (II)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Trecho do excelente livro "Gestos de Equilíbrio", de Tarthang Tulku Rinpoche:

"O caminho espiritual tem muitos obstáculos, tais como os nossos diálogos interiores, as nossas emoções, os nossos medos e até os nossos amigos ou famílias. Daí que as boas influências sejam cruciais. Desde que estejamos interessados no caminho espiritual, a associação com os que têm uma natureza semelhante pode ajudar a suportar e a proteger-nos, e pode criar menos confusão para nós. O principiante tem muitos problemas, e por isso lhe é difícil focalizar o caminho sem esse tipo de ajuda. Será ótimo podemos tomar conta de nós mesmos mas, enquanto não o pudermos fazer, é importante escolher um ambiente espiritual e harmonioso que nos apóie. Isso não significa que devemos evitar o mundo - senão que devemos proteger-nos até certo ponto. À proporção que desenvolvermos nossa força interior, seremos talvez capazes de cuidar dos outros assim como de nós mesmos."

Amigos do Dharma

segunda-feira, 2 de março de 2009


Eu sinto como se eu os conhecesse há um longo, longo tempo. Sinto falta deles. É uma pena não ter participado do Sesshin.

Veja mais fotos do Sesshin de Carnaval 2009 em Florianópolis aqui.

Bons amigos

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O que é um bom amigo? Será a definição de bom amigo aquele sempre pronto para me acompanhar em festas, jogos, qualquer diversão ou lazer? Aquele que sempre concorda com tudo que eu falo e penso? Ou aquele que gosta de tudo que eu gosto e não gosta de tudo que eu não gosto? Uma das definições mais antigas de um falso amigo é a do amigo de Jó: Na alegria ele aparece, na tristeza ele some.

Eu acho que a definição de um bom amigo é aquele que é um bom amigo, independente do que aconteça. É um bom amigo, simplesmente por ser. Lhe ajuda, não esperando absolutamente nada em troca. Ele lhe oferece ajuda nos momentos difíceis, é o mesmo na alegria e na tristeza, dá bons conselhos, é compassivo. Ele lhe acolhe nos momentos difíceis, o refreia de fazer coisas erradas (que possam causar seu próprio mal ou de outros), lhe encoraja a fazer o bem.

O engraçado é que muitas pessoas não buscam a amizade de verdadeiros bons amigos, e até se afastam deles - muitas vezes, por motivos bobos. Um bom e verdadeiro amigo pode não gostar muito de festas, pode nos dar conselhos dos quais não gostemos muito (por contrariar nossa vontade), pode não gostar do mesmo tipo de música, pode não corresponder às nossas expectativas sociais.

Agora, como posso eu mesmo ser um bom amigo? - Agindo da mesma forma, ou seja, sem condições, sem esperar nada em troca, sem ser interesseiro. Posso até mesmo retribuir a um bom amigo, sendo um bom amigo dele, não por ele esperar algo de mim, ou por eu esperar algo dele - simplesmente por ser um bom amigo.

Na verdade um excelente amigo, uma pessoa verdadeiramente admirável, é um bom amigo de qualquer pessoa, de todas as pessoas, sem distinção. É amigo até mesmo de seu inimigo. Ele não espera nada em troca para ser um bom amigo, absolutamente nada em troca, nem mesmo reconhecimento, nem ganho espiritual - age verdadeiramente incondicionalmente, a todo momento, em todos os lugares.

Ananda disse ao Buddha:
“Venerável senhor, isto é metade da vida espiritual, ter pessoas admiráveis como bons amigos.”
Respondeu-lhe o Buddha:
“Não diga isso, Ananda. Não diga isso, Ananda. Isso é toda a vida espiritual, Ananda, isto é, ter pessoas admiráveis como bons amigos."