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Karma

domingo, 27 de novembro de 2011


Se eu coloco fogo na floresta a minha frente, terei uma floresta queimada por todos os lados.
Se eu não lavar a louça à noite, amanhã a louça estará por lavar.
Se eu for rude com uma pessoa, ela ficará chateada comigo.
Se eu for a Paris, Paris virá até mim.
Parece mágica, mas não é. É natural.
Qualquer coisa que eu faça no mundo, ficará marcada.
Eu mesmo serei herdeiro disso.

Não há como fugir do resultado de minhas ações.

O mundo é um espelho da mente ou é a própria mente?

Caminhando a Noite

sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Caminhando a noite
Sinto o ar fresco na pele
Que maravilha!

Somente com a roupa no corpo
Vendo as pessoas contentes
Indo do trabalho para casa
É sexta-feira

Como um monge somente com sua tigela e manto
Livre, completamente livre
Vou para onde quiser
Quem irá me deter?

Lembro-me de meu Mestre e Shakyamuni Buddha
Mais do que me recordo,
A presença deles é gritante

O que há para temer?
Mesmo a morte não parece tão temível
Quem escapará dela?

Essa mente flexível
Como a água
Parece invencível

O Caminho da Tranqüilidade

sábado, 28 de agosto de 2010



O ensinamento abaixo faz parte do texto "O Despertar da Fé Mahayana", atribuído tradicionalmente a Ashvaghosha (Anabotei Dai-Oshô na linhagem Zen). A versão existente mais antiga é a chinesa, datada do ano 553, tradução do sânscrito para o chinês de Paramartha (tradutor também para o chinês do Compêndio do Abhidharma, de Vasubandhu - Bashubanzu Dai-Oshô). O texto tem  vários séculos, mas essencialmente é a mesma instrução que é dada atualmente para os praticantes de zazen-shikantaza, quanto à atitude mental durante o zazen.

"Aqueles que irão praticar o 'aquietamento' devem se retirar a um lugar tranqüilo, e lá, sentando de modo ereto, sinceramente procurar tranqüilizar e concentrar a mente. A princípio pode-se pensar na própria respiração, mas não é sábio continuar essa prática por muito tempo, nem deixar a mente descansar em qualquer aparência particular, ou visões, ou concepções, surgidas dos sentidos, tais como os elementos primários terra, água, fogo e éter, nem deixá-la descansar em qualquer das percepções da mente, particularizações, discriminações, humores ou emoções. Todos os tipos de idealizações devem ser descartados tão logo que surjam; até mesmo as noções de controlar e descartar devem ser abandonadas. A mente deve ser como um espelho, refletindo as coisas, mas sem julgá-las ou retê-las. As concepções por elas mesmas não têm substância, deixe-as surgirem e irem embora livremente. Concepções surgidas dos sentidos e da mente inferior não tomarão forma por elas mesmas, a não ser que sejam agarradas pela atenção; se forem ignoradas, não haverá nem aparecimento nem desaparecimento. O mesmo é verdade para condições fora da mente; não se deve permitir que elas capturem a atenção e atrapalhem a prática. A mente não pode ficar absolutamente vazia, e como os pensamentos surgidos dos sentidos e da mente inferior são descartados e ignorados, devem ser substituídos pela mentalização correta. Surge então a pergunta: O que é mentalização correta? A resposta é: mentalização correta é a realização da própria mente, da sua Natureza* pura e não-diferenciada.  Quando a mente está fixada em sua Natureza pura, não deve restar nenhuma noção persistente de eu, nem de eu no ato de realizar, nem de realização como fenômeno... "

Ashvaghosha - O Despertar da Fé Mahayana (in: The Perennial Philosophy, por Aldous Huxley)



* Optei na tradução pela palavra Natureza ao invés da palavra "Essência" já que esta parece ser atualmente evitada por tradutores budistas por confundir-se com outros conceitos pré-estabelecidos de essência na  filosofia ocidental.

Castelos no céu

terça-feira, 24 de agosto de 2010

René Magrite - Le Château des Pyrénées

Idéias
Construções mentais
Conceitos arbitrários
São meramente idéias
Como castelos no céu

Anotação aleatória (LIV)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Curiosamente,
a mente toma a exata forma do mundo
a cada momento.

Kannon de Mil Braços

terça-feira, 27 de abril de 2010


"Considere Kannon de mil braços, que tem mil braços saindo de um só corpo. Se a mente se fixar no braço que segura um arco, os demais novecentos e noventa e nove braços serão perfeitamente inúteis. É porque a mente não se detém em um determinado lugar que todos os braços são úteis. Quanto a Kannon, por que ela tem mil braços ligados a um só corpo? Essa figura foi criada com a intenção de revelar aos homens que, mesmo que um corpo tenha mil braços, cada um deles será útil se a sua sabedoria for libertada."
Takuan Sôhô (A mente liberta: escritos de um mestre Zen a um mestre da espada / The Unfettered Mind)

Intimidade com o Caminho

domingo, 7 de fevereiro de 2010

"O Caminho é realizado através da mente ou através do corpo? As escolas do Dharma dizem que, já que o corpo e a mente são idênticos, é realizado através do corpo. Apesar disso, já que elas dizem que o corpo e a mente são idênticos, não é dito explicitamente que o Caminho é realizado pelo corpo. No Zen o Caminho é realizado com ambos corpo e mente. Se você contemplar o Budismo com a mente apenas, nem por dez mil kalpas ou mil vidas você realizará o Caminho. Mas se você deixar a mente ir e colocar de lado o conhecimento e entendimento intelectual, você realizará o Caminho. Aqueles que realizaram a iluminação vendo a florescência ou ouvindo sons a realizaram através do corpo. Portanto, se você deixar de lado completamente os pensamentos e conceitos da mente e se concentrar apenas no zazen, você obterá intimidade com o Caminho. A realização do caminho é verdadeiramente consumada com o corpo. Por essa razão, eu lhes peço para se concentrarem no zazen."

Shobogengo Zuimonki, capítulo 2-26, por Dogen Zenji

Vindo do Zen - The Possible Way

Meu comentário: Quando a mente esquece o corpo, é só fantasia. Quando o corpo esquece a mente, pode ser mais verdadeiro. Quando ambos se esquecem, aí eu não sei.

Nascimento

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Escuridão nascida de escuridão. O início de todo o entendimento (Tao Te Ching Cap. 1)

(Mudra cósmico de Sawaki Kodo Roshi)

Fiat lux (Genêsis 1:3)

(Ensô)

(Samsara)

Anotação aleatória (XLVI)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Eu não deveria nunca pensar "as pessoas devem me ajudar de tal forma." Eu deveria sempre pensar "como eu posso ajudar as pessoas?"

As partes e o Todo (ou: Relação entre as mentes)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nota de observação: O texto a seguir, bem como demais textos desse blog, corresponde somente ao entendimento atual do autor. Esse entendimento não é definitivo e absoluto, sendo pelo contrário, relativo, e podendo ser alterado com o tempo. Dessa forma, qualquer coisa aqui escrita não deve ser tomada como certa ou como verdade por ninguém.


- Você e eu, como seres sencientes, experenciamos, nesse exato momento, uma parte da Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes.

- Uma experiência inclui/exclui todas as outras (pois na experiência do gosto da laranja está implícita a não-experiência do gosto da maçã, experiência que inclusive poderia ser simultânea).

- Aquilo que eu sou nesse exato momento é indiscernível da experiência desse exato momento.

- Assim os seres sencientes são tão inúmeráveis quanto as diferentes variações de experiências que existem, e são indistintos delas.

- Portanto a Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes não é senão o próprio conjunto de Seres Sencientes.

- Quem disse que "este ser" é separado da Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes?

- Assim, quem disse que "este ser" é separado dos demais Seres Sencientes?

- Mesmo que a minha experiência desse exato momento seja parcialmente diferente da sua experiência nesse exato momento, a minha experiência somada à minha não-experiência é indiscernível da sua experiência somada à sua não-experiência.

- Essa experiência somada à não-experiência a cada momento corresponde exatamente à própria Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes.

- Assim, não seria absurdo alguém momentaneamente perceber, ao experimentar um doce, que todos os seres do mundo experimentam o doce com ele. Isso porém necessitaria que esse alguém momentaneamente esquecesse de ser alguém separado, que esquecesse de si mesmo.

- Portanto também não seria absurdo dizer que quando alguém senta em zazen, todos os seres do mundo sentam em zazen com ele. E a experiência de "apenas sentar" é indiscernível da prática de Buddha, sendo portanto indiscernível do próprio Buddha e da própria Iluminação.

Postura do Zazen

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Vídeo: Taisen Deshimaru Roshi explicando a postura do Zazen

"Não deve inclinar-se para os lados, nem para a frente, nem para trás. Deve ficar sentado bem reto, como se estivesse sustentando o céu sobre a cabeça. Isto não é apenas postura ou respiração. Isto expressa o ponto chave do buddhismo. E uma expressão perfeita da sua própria natureza búddhica. Se você busca a verdadeira compreensão do buddhismo, tem de praticar deste modo. Estas formas não são meios para obter um estado mental correto. Assumir a postura já é, em si, o propósito da nossa prática. Ao se colocar nessa postura, sua mente fica naturalmente em estado correto; portanto, não há necessidade de buscar um estado especial da mente."

A Prática Correta
por Shunryu Suzuki

Texto completo em Daissen - Portal Zen

Nuvens em movimento

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Qual é o Buddha?

sábado, 7 de novembro de 2009


Se os dois bonecos acima fossem duas pessoas sentadas em meditação, e eu soubesse (de uma maneira qualquer) que ao menos um deles é um Buddha perfeitamente consumado, como eu saberia qual é o Buddha?

Digamos que eu não conheça nenhum dos dois. Ambos estão sentados perfeitamente imóveis, na mesma posição. Não conheço seus pensamentos. Não posso atrapalhar a meditação deles.

Qual dos dois é o Buddha?

Os dois estão exatamente na mesma posição. Os dois estão fazendo exatamente a mesma coisa (apenas sentados, em meditação). Não há absolutamente nada que distingua um do outro naquele momento.

O que resta? Na mente deles, pode haver alguma diferença... Mas qual diferença? Um pode pensar que é um Buddha, outro pode pensar que não é um Buddha (o que não garante nada, pois ambos podem até estar enganados), ou podem até não pensar nada - de qualquer forma eu não sei, e se soubesse, poderia estar até enganado. Será que importa mesmo o que eles estejam pensando ou não estejam pensando?

Não me resta nenhuma alternativa senão aceitar, que naquele momento, para mim, ambos são igualmente e verdadeiramente Buddha.

Sobre acreditar na Mente

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]

Baseado na tradução de D.T.Suzuki


O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.

Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade

[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.

Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.

Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?

E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.

Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.

Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.

Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.

Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.

O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.

Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.

O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.

Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?

O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.

O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.

Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.

Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.

Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?

O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.

Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.

Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.

O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.

Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".

Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.

Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.

Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.

O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.

Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!

Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.



Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.

O Grande Novelo sem Explicação

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Figura 1. Exemplo de forma (geométrica).

A Figura 1 mostra uma forma. Porém podemos chamar de formas não somente formas geométricas, como também quaisquer conceitos, tais como:

- Conceitos abstratos (justiça, amor);
- Sensações (frio, calor, cores, sons);;
- Percepções estéticas (belo, feio);
- Julgamentos (certo, errado);
- Opiniões (bom, ruim);
- Qualquer coisa que possa ser descrita ou nomeada. De fato, nomear ou descrever é uma maneira de 'criar' uma forma complexa.

A principal característica da forma é que ela não têm uma existência independente, própria, inerente. Mudando a área colorida da forma que foi dada como exemplo, vemos que ao definirmos a forma, definimos também a não-forma (Figura 2):

Figura 2. Exemplo de não-forma (geométrica).

Assim, dizemos que a forma não é independente, não tem existência independente/inerente, já que ela depende da não-forma. Similarmente, a não-forma não é independente da forma. Poderíamos inclusive inverter os nomes, e chamar a forma de não-forma e a não-forma de forma. Isso pode ser feito trocando a Figura 1 com a Figura 2.

Vejamos outro exemplo que não seja uma forma geométrica, digamos, uma cor. Ao definirmos o vermelho, definimos também o não-vermelho. O não-vermelho inclui todas as cores que não são o vermelho: preto, amarelo, azul, rosa, branco, verde, marrom, etc. Quando vemos a cor amarela, automaticamente sabemos: não é o vermelho. É não-vermelho. Assim o conceito de vermelho depende de todas as outras cores, e o conceito de todas as outras cores depende do vermelho.

Outra peculiaridade da forma é que ela é dependente de uma mente que 'enxergue', 'crie', nomeie a forma. Ou seja, a forma não é independente da mente. No entanto, a relação entre a mente e a forma é muito parecida com a da forma e a da não-forma. Ou seja, uma é dependente da outra - a mente é dependente da forma, e a forma é dependente da mente.

A característica ou atributo das formas é de não terem existência independente, inerente. Essa característica é chamada frequentemente de vazio, ou vacuidade (sunyata).

Porém, a relação entre a forma e o vazio é muito parecida com a relação entre a forma e a não-forma. Isto é, a forma não é independente do vazio, e o vazio não é independente da forma. Ou, forma é em si, vazio; e vazio é em si, forma. Forma é vazio e vazio é forma.

A partir desse momento fica muito difícil continuar tentando explicar qualquer coisa conceitualmente (é receita certa de falar uma tolice atrás da outra - mas continuemos mais um pouco). Dizer que a forma não é independente do vazio (e vice-e-versa) significa dizer algo como

"a independência não é independente da dependência",
ou
"a dependência é dependente da independência",
ou diretamente
"dependência é independência", "independência é dependência".

Por isso é dito que a compreensão clara, verdadeira e profunda da vacuidade não pode ser conceitual, mas deverá ser experimental. Isso por que é impossível ou inútil conceitualizar propriamente a vacuidade e as suas relações entre a forma, a não-forma, a mente e a não-mente - chamo isso de "o grande novelo sem explicação".



Segue, a quem possa interessar, o Caso 29 do Mumonkan - A bandeira de Eno:

O vento estava tremulando a bandeira do templo, e dois monges estavam discutindo sobre ela. Um dizia:
- A bandeira está movendo.
O outro dizia:
- O vento está movendo.
Eles não conseguiam chega a um acordo, não importando o quão duramente debatessem. O sexto patriarca, Eno, passou coincidentemente por ali e disse:
- Nem o vento, nem a bandeira. É a mente que está movendo!
Os monges ficaram abismados.


Comentário de Mumon:

Não é o vento que move, não é a bandeira que move, não é a mente que move. Como devemos entender o sexto patriarca? Se você obtiver uma compreensão íntima desse significado, você verá por que os dois monges, querendo comprar ferro, obtiveram ouro. O patriarca não conseguiu refrear sua compaixão pelos dois monges, então tivemos essa cena lamentável.

O vento move, a bandeira move e a mente move,
Todos igualmente culpados.
Só sabe que a boca abriu,
Não sabe que o discurso saiu errado.

Um conto

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Eu olho para a pedra,
E a pedra olha para mim.

Eu penso:
"Quão preciosa é a vida."

E a pedra pensa:
"Quão frágil é a vida."

O Coração do Sutra Prajna Paramita - Versão muda (hanzi/kanji)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em japonês)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009



Kanji zai bosatsu. Gyojin hannya haramita ji. Shoken go onkaku. Do i issaï ku yaku.

Sharishi. Shiki fu i kû. Kû fu i shiki. Shiki soku zékû. Kû soku zé shiki. Jusô gyo shiki. Yakubu nyozé.

Sharishi. Zécho hokû sô. Fushô fumetsu. Fuku fujô. Fuzô fugen. Zékokû chû. Mu shiki mu ju sô gyo shiki.

Mugen ni bi zesshin. Mu shiki shokô mi soku ho. Mugen kai nai shimu i shiki kai. Mu mu myô yaku mu mu myô jin. Naishi murô shiyaku murô shinjin. Muku shû metsu dô. Muchi yaku mu toku. I mushotoku ko.

Bodai sat ta. E hannya haramita ko. Shinmu kégému kégéko. Mu û ku fu. On ri issaï tendô musô. Kugyô néhan. Sanzé shobutsu. E hannya haramitako. Toku a nokuta rasan myaku san bodaï. Kochi Hannya haramita. Zédai jin shû. Zédai myô shû. Zému jô shû. Zému todo shû. Nojo issaï ku. Shin jitsu fu. Koko ketsu hannya haramita shû. Soku setsu shû watsu.

Gyatei, gyatei, hara gyatei, hara sô gyatei, Boji sowaka. Hannya shingyô

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em Sânscrito)

terça-feira, 8 de setembro de 2009



Aryavalokitesvara 'Bodhisatva. Gharnbhiram Prajna-Paramita Caryaym Caramano,

Vyavalokiti Smaa Panca-skanda Asatta Sca Svabhaba Sunyam Pasyati Smaa

Iha Sariputra, Rupam Sunyam Sunyata iva Rupam.

Rupa Na. Vrtta Sunyata, 'Sunyataya Na Vrtta Sa Rupam Yad Rupam-Sa-sunyata, Yad Sunyata Sa-rupam Evam Eva. Vedana, Samjna Sam-skara Vijnanam

Iha Sariputra Sarva Dharma Sunyata-Laksana Anutpanna Aniruddha, Amala A-vimala, Anuna A-paripurna

Tasmat Sariputra Sunyatayam Na Rupam, Na Vedana, Na Samjna, Na Samskara, Na Vihnanam. Na Caksu Srotra Ghrana Jihva Kaya Manasa, Na Rupam Sabda Gandha Rasa Sparstavya Dharma

Na Cakso-dhatu Yavat Na Manovijnam-dhatu Na Avidya, Na Avidya Kasayo. Yavat Na Jara-maranam, Na Jara Marana Ksayo. Na Dukha Samudaya, Nirodha, Marga

Na Jnana, Na Prapti, Na Abhi-samaya, Tasmat Na Prapti Tva Bodhisattvanam, Prajna-paramitam Asritya Viharatya Citta Avarana, Citta Avarana Na Shitva Na Trasto, Vi-paryasa Ati Kranta Nistha Nirvanam.

Try-adhva Vyavasthita sarva, Buddha Prajna-paramitam A-sritya Anuttara-samyak-sambodhim Abhi-sambuddha.

Tasmat Jnatavyam Prajna Paramita Maha-mantra, Maha-vidhya Mantra, Anuttara Mantra, Asama-samati Mantra. Sarva Dukha Pra-samana Satyam Amithyatva

Prajna-paramita Mukha Mantra Tadyatha,

Gate Gate Para-gate Para-samgate Bodhi Svaha

A Pizza e o Zen

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Alguns dos maiores "segredos" do universo podem ser explicados com uma metáfora muito simples: uma pizza e um cortador.

A pizza inteira é o Mundo (o conjunto de todas as coisas, Tudo, todos os fenômenos, o Universo, ou como você quiser chamar). O cortador é a mente (e de fato o cortador não é separado da pizza, mas façamos uma licença poética, senão não haveria como pretender explicar qualquer coisa).

Usualmente o cortador faz aquilo que ele gosta de fazer: corta a pizza em pedaços (virtuais). A um dos pedaços (com o qual o cortador insiste em se identificar), ele chama de Eu. Assim ele começa dividindo a pizza entre o pedaço Eu (sujeito) e o outro pedaço (objeto). Porém ele não pára por aí: ele divide a pizza em uma miríade de outros pedaços, objetos, fenômenos e todas as dez mil coisas (alegoria chinesa para a infinita diversidade das coisas e fenômenos).

A metáfora é um pouco pobre pois de fato a pizza não é estática: ela é algo dinâmico, que muda o tempo todo (uma metamorfose ambulante, diria o Raul). Assim, para um certo desespero do cortador (a mente), as fatias também mudam o tempo todo, se transformam. Por exemplo, o que antes eram as fatias semente, gás carbônico, água, luz solar e nutrientes do solo, agora é uma fatia árvore. O que antes era uma fatia árvore, agora é uma fatia lenha. O que antes era uma fatia lenha, agora é a fatia carvão queimando na lareira, virando fatia gás carbônico, fatia vapor d'água e fatia luz novamente. E assim por diante.

Se a pizza é Um, as fatias são frações (como aprendemos no primário). Logo, as multiplicidades nada mais são do que frações do Um, ou Unicidade, cortadas pelo cortador (a mente). Toda multiplicidade começa com uma dualidade. Assim a maioria das coisas são dualidades de dualidades de dualidades... que para complicar um pouco mais, às vezes se sobrepõem umas às outras, em diversas camadas (como pizzas fatiadas em tamanhos diversos empilhadas umas sobre as outras).

Porém o cortador não precisa necessariamente continuar cortando tudo que vê pela frente, mantendo seus hábitos e pré-concepções. Através de um treinamento adequado, o cortador pode fazer algo diferente: Cortar em Um (mesmo nome do blog de meu amigo Seigaku - uma alusão à Manjusri, o boddhisatva da sabedoria, cuja espada corta em um). Cortar em Um é o próprio Zen (palavra japonesa), que vêm do chinês Chan, que por sua vez vem do sânscrito Dhyana, ou pali Jnana - que significa simplesmente meditação. Dhyana por sua vez nada mais é (também não escapa da Unicidade) que Prajna, ou Sabedoria (acho que essa é de Hui Neng).

Assim, "aprender o que é a Sabedoria" significa estar livre de pré-concepções: "estar livre de pré-concepções" é o que "estudar a Sabedoria" é - Dogen Zenji (Shobogenzo, capítulo 2 - Makahannya-haramitsu).


Estranhamente, ainda insisto em me ver e agir como uma fatia de pizza. Assim, lamento pela falta de informações adicionais.



P.S.: Desculpe pelo excesso de parênteses nos textos. É mania de programador.

P.S.S.: O "pára" do segundo parágrafo ficou com acento de propósito. Apesar de meu português ser ruim, me recuso a aceitar a reforma ortográfica, ainda mais ao ler livros antigos e constatar que o português era muito mais bonito antigamente, antes de várias reformas.