Vórtices e engrenagens

quinta-feira, 12 de março de 2009

Certa vez eu estava meditando com um pouco de sono, e quando fechei os olhos tive um brevíssimo sonho. Nada de mais, só um sonho. Nesse sonho eu vi diversos vórtices, girando uns contra os outros. Esses vórtices eram como pequenos furacões, eram vórtices fluidos. O movimento de cada vórtice influenciava o outro. A fronteira dos vórtices não era muita definida, eles se misturavam. Às vezes um vórtice engolia o outro, uns desapareciam, outros surgiam. O movimento de um vórtice movia o outro, que movia o outro, que movia de volta o vórtice anterior. Assim todos os vórtices eram interligados.

Depois desse sonho espontâneo, eu infelizmente tratei de interpretá-lo com a minha mente analítica de engenheiro. Logo substituí os vórtices fluidos por engrenagens girando. É claro que a imagem é bem mais pobre, mas talvez seja mais fácil de entender:


Surgem algumas dúvidas:

- Qual engrenagem move qual (ou qual engrenagem se moveu primeiro)?
Eu posso tentar responder essa. O movimento de uma engrenagem influencia todas as outras. E o movimento de todas as outras engrenagens influencia cada engrenagem individual. Não dá pra dizer qual se moveu primeiro, e nem isso parece importar muito: elas todas simplesmente se movem, simultaneamente.

- Qual a significância de uma engrenagem sozinha e isolada?
Uma engrenagem sozinha e isolada parece não ter significância nenhuma. Ela fica parada, ou mesmo se ela girasse, ela giraria tolamente em torno de coisa nenhuma. Ela só faz sentido em conjunto com as outras, girando em relação às demais, exercendo a sua função própria de engrenagem.

- O que acontece com o conjunto se eu tirar uma engrenagem dele?
Depende do arranjo da engrenagens ou situação das engrenagens considerada, eu diria. Quando as engrenagens estão totalmente interligadas umas às outras, tirar uma engrenagem não acarreta absolutamente nada: as demais engrenagens continuam a girar normalmente, como se nada tivesse acontecido. Eu diria que a engrenagem que foi removida continua implícita no conjunto. Nessa interpretação cada engrenagem não tem uma importância individual inerente, pois ela está representada implicitamente no conjunto de todas as demais.

Porém numa outra situação (num conjunto parcial de poucas engrenagens por exemplo), ou numa outra interpretação diferente, estando as engrenagens fracamente interligadas, a remoção de uma única engrenagem pode parar todo o carretel. Nesse ponto de vista, a importância da engrenagem individual é total, pois do movimento ou da simples presença dela como transmissora de movimentos depende o movimento de todas as demais engrenagens.

- A engrenagem pode girar no sentido contrário às demais, ou levemente fora do eixo?
Ela pode até tentar, mas não vai conseguir e vai se desgastar desnecessariamente. O melhor é ajudar as outras engrenagens a girar corretamente, harmoniosamente, sem atritos.

4 comentários:

Jorge Luiz R. Furtado disse...

Sobre "vórtices", veja estes links, acho que você pode gostar!

http://www.seeingthroughthenet.net/files/eng/books/other/nibbana_and_the_fire_simile.pdf

http://www.seeingthroughthenet.net/files/eng/books/ms/nibbana_the_mind_stilled_I.pdf

Abraço!

João Jōken disse...

Li o primeiro sermão. Excelente. A Símile do Oceano já era minha favorita, pois foi a que despertou a minha fé em Buddha, mas eu não tinha captado toda a profundidade e extensão da mesma.

Obrigado!

João Jōken disse...

Também achei interessantíssima a exposição do mais profundo ensinamento de Buddha, da originação interdependente, sendo apresentada por um professor Theravada como idêntica à interdependência da consciência com nome-e-forma, ou seja, exatamente da mesma forma que é exposta no Sutra do Coração, Mahayana. Também fiquei boquiaberto com o tal do "Nantariko Samadhi".

Jorge Luiz R. Furtado disse...

Que bom que voce gostou! Eu estou bastante impressionado com e grato a este bikkhu. Com relacao as similaridades entre o canone pali e o sutra do coracao, procure por The Concept of Emptiness in Pali Literature - Ven. Medawachchiye Dhammajothi Thero. Deste, infelizmente, nao conheco link.