Efeitos colaterais

domingo, 29 de novembro de 2009

Kodo Sawaki Roshi em zazen. "Zazen não serve para nada."

Para que serve o zazen?

A maioria dos professores, pelo menos aqueles que eu ouvi ou li, irá dizer algo como "não serve para nada", ou "zazen é sem objetivo, e deve ser praticado sem objetivo" ou até rebater com alguma pergunta "quem é esse que quer que o zazen sirva para alguma coisa?" ou algo como "zazen é por si só o objetivo".

Minha intuição é que essas respostas são inteiramente corretas.

Porém, ao menos me parece, o zazen causa alguns efeitos colaterais*. Talvez, mais propriamente, não seja o zazen que cause efeitos colaterais, e sim o que eu deixo de fazer durante o zazen é que causa (ou não-causa/deixa de causar) efeitos colaterais.** A correlação de causa e efeito me parece pertinente pois ela ocorre quando pratico zazen diligentemente por um certo período de dias seguidos, e ela deixa de ocorrer quando eu não pratico zazen diligentemente.

Pessoas são diferentes uma das outras. Logo esse tipo de efeito pode diferir de pessoa para pessoa. Uma breve lista desses efeitos colaterais, que parecem ocorrer ao menos comigo, quando eu pratico zazen diligentemente, segue:

- Fico menos suscetível à irritação. Não que eu me torne imune à ela, mas certamente menos suscetível, e ela passa a ter uma duração mais curta.

- Fico mais atento ao que ocorre ao meu redor, especialmente como minhas ações afetam outras pessoas e como as pessoas reagem a elas.

- Fico mais tolerante ao erro dos outros e aos meus próprios erros (talvez até enfraquecendo a noção de erro e acerto).

- De maneira geral fico mais paciente.

- Meus joelhos e meus ombros passam a doer mais (por ficar sentado em zazen?***), ou pelo menos fico mais atento a essa dor :)



* Essa imagem de efeitos colaterais saiu muito provavelmente do livro Sempre Zen, de Charlotte Joko Beck.

** Notar como nessa noção está implícita simultâneamente a causa-e-efeito (seqüência condicionada) e a não-causa-e-efeito (seqüência incondicionada). Vou tentar elaborar em um texto futuro aquilo que eu deixo de fazer durante o zazen, que eu suspeito que possa causar esses e outros efeitos colaterais.

*** Dizer ficar sentado em zazen é como dizer subir para cima, pois zazen é "meditação sentada".

Haiku VII

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pequeno haiku -
tão poucas palavras, tão
pouco a dizer.

Anotação aleatória (XLIII)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Às vezes não há nada a falar. Então é melhor permanecer em silêncio do que falar (mais) tolices.

Anotação aleatória (XLII)

domingo, 15 de novembro de 2009

Se disséssemos que há diferença entre eu e você, estaríamos enganados. Se disséssemos que não há diferença entre eu e você, estaríamos perdendo algo. Um abraço seria apropriado.

Não-Livre

sábado, 14 de novembro de 2009

Não-Livre
Condicionado
Prisioneiro de si mesmo
Amarrado a conceitos
Imerso em ilusão
Cheio de pré-concepções

Anotação aleatória (XLI)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Optar pela não-liberdade pode ser também um exercício da liberdade.

Anotação aleatória (XL)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entre as possibilidades de ações incondicionadas, existem ações idênticas às possíveis ações condicionadas. Assim, ações aparentemente condicionadas podem ser também, sob certo ponto de vista, incondicionadas.

Qual é o Buddha?

sábado, 7 de novembro de 2009


Se os dois bonecos acima fossem duas pessoas sentadas em meditação, e eu soubesse (de uma maneira qualquer) que ao menos um deles é um Buddha perfeitamente consumado, como eu saberia qual é o Buddha?

Digamos que eu não conheça nenhum dos dois. Ambos estão sentados perfeitamente imóveis, na mesma posição. Não conheço seus pensamentos. Não posso atrapalhar a meditação deles.

Qual dos dois é o Buddha?

Os dois estão exatamente na mesma posição. Os dois estão fazendo exatamente a mesma coisa (apenas sentados, em meditação). Não há absolutamente nada que distingua um do outro naquele momento.

O que resta? Na mente deles, pode haver alguma diferença... Mas qual diferença? Um pode pensar que é um Buddha, outro pode pensar que não é um Buddha (o que não garante nada, pois ambos podem até estar enganados), ou podem até não pensar nada - de qualquer forma eu não sei, e se soubesse, poderia estar até enganado. Será que importa mesmo o que eles estejam pensando ou não estejam pensando?

Não me resta nenhuma alternativa senão aceitar, que naquele momento, para mim, ambos são igualmente e verdadeiramente Buddha.

Mini-estudo sobre as possíveis ações de uma pessoa livre das amarras de seu próprio ego


Uma pessoa que não é amarrada aos desmandos de seu próprio ego dificilmente irá roubar / tomar o que não lhe é dado. Isso porque a ação "roubar" geralmente é causada por uma motivação egóica (eu quero isso, eu quero aquilo, preciso de dinheiro para comprar aquilo para mim, etc.)

Porém, é possível que a pessoa não roube por uma motivação egóica. Por exemplo, ela não rouba para obter alguma vantagem divina.

De fato, tecnicamente para a pessoa livre de amarras, "roubar" não existe, pois esse é um conceito totalmente artificial, baseado em relações de posse virtuais, de egos virtuais. A ação de cometer o roubo, no entanto, é altamente improvável, visto que não há qualquer motivação para a mesma.

Pelo contrário, há a motivação contrária ao roubo: se roubar, outras pessoas poderão sofrer (pois elas são apegadas aos conceitos "roubo, posse"), e além disso a pessoa que rouba com razoável probabilidade irá sofrer punições desnecessárias pelo roubo.

Não sendo amarrada ao próprio ego, a pessoa percebe que ferir outra pessoa é equivalente a ferir a si mesma. Assim, ela evita o que causa sofrimento a si ou aos outros.

Similarmente, uma pessoa que não é amarrada aos desmandos de seu próprio ego dificilmente irá mentir, ou prestar falso testemunho, ou falar algo que cause sofrimento a alguém. Isso porque essas ações geralmente são cometidas visando alguma vantagem para si mesmo, coisa que uma pessoa não amarrada ao ego dificilmente faria.

Também, uma pessoa livre das amarras de seu próprio ego dificilmente irá assassinar outra pessoa ou outro animal. Isso porque na quase totalidade das vezes essa ação é cometida por algum motivo egóico (como vingança, paixão, obtenção de vantagens, livrar-se de um incômido, gana alimentar e até autodefesa).

Estendendo esse raciocínio, quase todas as ações consideradas não-virtuosas pelo budismo e também por outras religiões tem sua origem em motivos egóicos, ou seja, motivos ilusórios.

Ações consideradas virtuosas, também surgem naturalmente da inexistência de amarras ao próprio ego. Por exemplo, a pessoa não amarrada ao próprio ego não têm dificuldade alguma em ser generosa, já que para ela não há diferença alguma se o dinheiro ou qualquer outra coisa estiver com ela ou com outra pessoa.

Uma pessoa sem amarras ao próprio ego não é influenciada por suas próprias preferências, ou até, não tem preferências. Assim, não discrimina uma pessoa da outra, não favorece uma pessoa em relação à outra, seja qual for o motivo: ela ajuda a quem precisa de ajuda, não importando o que possa ter acontecido no passado, ou a aparência da outra pessoa, ou seja o que for.

De alguns desses e de outros exemplos, e examinando minhas ações cotidianas, eu concluo que sou uma pessoa muito amarrada ao meu próprio ego, e portanto um prisioneiro de mim mesmo.

Vide também: Amarras