Sobre aquilo que é meu e aquilo que não é meu

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

(Esse texto é uma outra forma de dizer: Nada disso sou Eu, ou Nada disso é Meu.)

O que é meu, de fato? O que me pertence? Pensando bem, nada é meu. Assim que eu morrer, tudo aquilo que eu achava que era meu vai pertencer a outro (ou melhor dizendo, alguém vai achar que aquilo lhe pertence, como eu achava antes!).

Alguém pode até achar que algo lhe pertença, ainda que temporariamente, mas até isso é uma ilusão. Digamos que uma pessoa rica tenha dez fazendas. Ela até pode dizer: "Eu tenho dez fazendas, dez fazendas são minhas". Isso pode estar registrado em cartório, em leis, em promulgações reais, seja o que for. Mas as fazendas são realmente dessa pessoa? Enquanto ela está em uma fazenda, nove outras fazendas estão com outras pessoas e animais, que nelas trabalham, vivem, e a usam para diversas coisas. Até na própria fazenda em que a pessoa está, ela não pode tê-la toda ao mesmo tempo. Em um lado da fazenda uma vaca é ordenhada pelo capataz. No outro canto um rio corre vagarosamente, peixes nadam. As árvores crescem, os pássaros cantam. O fazendeiro pode até pensar: "O canto do pássaro também me pertence", enquanto o filho do capataz pensa consigo "Que canto bonito!"

O sentimento de posse ocorre pras mais diversas coisas, desde amores, idéias, até mesmo a própria condição física. Eu posso pensar: esse corpo é meu, essa condição física é minha. Mas nada que eu faça irá evitar que o meu corpo envelheça. Até mesmo o maior atleta do mundo pode ter uma doença que abale sua condição física. Nem o cofre mais seguro do mundo pode impedir que alguém use a "minha" idéia, ou mesmo que tenha a mesma idéia que eu tive!

Em resumo, nada é meu.

Mas nada impede o filho do capataz de dizer: "O mundo todo é meu!" - e, de certa forma, ele não está errado!

Haiku 6

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Dia de chuva -
sapatos deslizam
no chão liso.

Anotação aleatória (XXXVI)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Que todas as minhas ações sejam como o gesto de presentear uma flor.


A Queda de Adão

domingo, 16 de agosto de 2009

(Atenção! O texto a seguir é potencialmente inapropriado, vide algumas ressalvas em Avisos.)


A Queda de Adão, ou A Queda do Homem, ou simplesmente 'a Queda' é talvez o símbolo e o ponto fundamental da Bíblia. Muitos levam a história de Adão e Eva ao pé da letra, outros a descartam como mitologia inventada arbitrariamente, ou pura historinha de criança. Eu já gosto de interpretá-la simbolicamente, o que é somente meu ponto de vista. De um certo modo, todos estão certos. De outro certo modo, todos estão errados.

Minha interpretação particular é de que a Queda do Homem simboliza simplesmente a separação do homem de Deus, ou separação de sua Natureza Original, ou em outras palavras, a dualidade inicial. Na Bíblia isso ocorre quando Adão e Eva comem da fruta da 'Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal'. Mais genericamente, poderia-se dizer que é a Árvore do Conhecimento de todas as dualidades e diferenciações: Bem e Mal, Sujeito e Objeto, Dentro e Fora, Eu e Não-Eu, Grande e Pequeno, Longe e Perto, etc. Poderia-se dizer que essas dualidades, ou separações, são a origem do sofrimento. (Desculpem-me pela fuga da interpretação tradicional de "pecado original", mas no momento estou querendo generalizar o máximo o possível.)

A Árvore é 'do Conhecimento' simplesmente porque essas diferenciações são meramente interpretativas/cogniscíveis, isto é, não são reais de um ponto de vista universal/absoluto, no máximo aparentemente reais de um ponto de vista particular/relativo, ou a partir de definições arbitrárias/axiomáticas.

Até onde sei, quase todas as religiões falam de algo parecido com a Queda de Adão de uma forma ou de outra.

No Taoísmo, eu diria que a Queda de Adão dá-se a partir da dualidade inicial, ou Yin e Yang. Antes da dualidade, há a Unicidade fundamental, ou Taiji. E antes da Unicidade, há o Nada fundamental ou Wuji.

No Budismo, a dualidade inicial é a Forma-Vazio. Mas diz o Sutra do Coração: forma é vazio, vazio é forma. A forma em si é vazio, o vazio em si é forma. Ou seja, ambos forma e vazio não possuem existência independente/inerente. Quando o Boddhisatva Avalokitesvara "viu" claramente que todos os agregados são vazios de existência independente/inerente, ele se libertou de todo o sofrimento.

O caso 23 da coleção de koans Mumonkan segue assim:

Eno, o Sexto Patriarca do C'han (Zen) Chinês, estava sendo perseguido pelo monge Emyo até Daiyurei. O patriarca, vendo que Emyo estava chegando, soltou o manto e a tigela em uma pedra, e disse a ele:
- Esse manto representa a fé. Por acaso ele deve ser disputado pela força? Você pode tomá-los agora.
Emyo foi até a tigela e o manto porém eles eram tão pesados quanto montanhas. Ele não conseguia movê-los. Hesitando e tremendo, ele perguntou ao Patriarca:
- Eu vim pelo ensinamento, não pelo manto. Por favor, me desperte!
O patriarca lhe perguntou:
- O que é primordialmente Emyo (isto é, sua Face Original), se você não pensar 'isto é o bem' nem pensar 'isto é o mal'?
Naquele momento, Emyo teve um grande despertar.


Meu comentário: O grande despertar de Emyo parece com a Queda de Adão, ao contrário.



P.S.:

Alguém pode dizer que eu estou forçando a barra, querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. E ele está certo, realmente eu estou forçando a barra, e estou querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. De qualquer forma é tudo uma questão de simbologia. Ou seja, tanto faz eu dizer que o gato está subindo na mesa, ou o cachorro descendo da mesa. Nesse caso, eu quero dizer que o cachorro é o gato e descer é subir. A mesa é mesa mesmo, para não complicar muito. Ou seja, o importante é estarmos falando da mesma coisa. Ou a mesma lua sendo apontada pelo dedo. Meditadores, programadores e linguistas talvez me entendam mais facilmente.

Koans e Frases de sabedoria

sábado, 15 de agosto de 2009

Alguns koans e "frases de sabedoria" no vídeo abaixo (em inglês). Mesmo para quem não saiba inglês, não há problema, pois a música e as imagens são tão excelentes quanto as frases!

Sobre o que é possível mudar (Nossas próprias ações)

sábado, 8 de agosto de 2009


Eu tive uma conversa interessante com colegas do trabalho recentemente. Elas estavam reclamando que as pessoas não agiam como elas gostariam que as outras agissem com elas (numa maneira que elas consideravam mais adequada e justa num determinado contexto). Eu disse a elas que, talvez, ao invés de querer que as pessoas agissem como gostaríamos que elas agissem, deveríamos nós mesmos agir como gostaríamos que elas agissem conosco.

A princípio elas não entenderam muito bem o que eu quis dizer, com razão, pois os dois pontos de vista são discursivamente semelhantes o suficiente para causar alguma confusão. Ambos os pontos de vista falam de "como 'gostaríamos' que as pessoas agissem". Mas do ponto de vista prático são totalmente diferentes. No primeiro ponto de vista, queremos que as pessoas ajam de determinada forma. No segundo ponto de vista, agimos (nós mesmos) daquela determinada forma. Eu me expliquei melhor com um exemplo, que foi mais facilmente entendido:

A maioria das pessoas gostam de receber um cumprimento de "bom dia!" ao chegar em algum lugar pela manhã. Logo, 'gostaríamos' que as pessoas nos desejassem sempre um "bom dia". No primeiro ponto de vista (da minhas colegas), queremos que as outras pessoas nos deem um "bom dia", e se não o recebemos, nos decepcionamos. No segundo ponto de vista (que propus), nós mesmos damos imediatamente o "bom dia" que 'gostaríamos' de receber, porém sem necessariamente esperar receber literalmente um "bom dia" em troca.

Ao compreender melhor o que eu quis dizer, elas imediatamente concordaram que há diferença entre esses pontos de vista. De fato não temos controle nenhum sobre as ações das outras pessoas. Temos controle (mesmo que limitado) apenas sobre nossas próprias ações. Logo, se quisermos que algo aconteça, nós mesmo temos que fazer algo naquele sentido.

Querer que outras pessoas literalmente ajam de determinada maneira, é um convite certo para muitas vezes nos decepcionarmos. Porém querer "teoricamente" que as pessoas ajam de determinada maneira pode ser um guia para direcionarmos as nossas próprias ações, e somente nossas próprias ações, já que as ações dos outros não podemos controlar.

(...)

Anotação aleatória (XXXV)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Aquele que nada quer tem tudo,
Aquele que tudo quer não tem nada.
(Embora ambos no fundo tenham a mesma coisa!)

Para um amigo conhecido ou desconhecido

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O que eu faria sem você, meu amigo?
Para quem eu escreveria? Com quem eu conversaria?
Quem seria eu, se não tivesse amigos?
Ananda sugeriu a Buddha que bons amigos seriam metade da vida espiritual,
Buddha corrigiu Ananda: Bons amigos são toda a vida espiritual.
Bons amigos caminham juntos,
Bons amigos caminham separados também.
Uma boa amizade começa desde o primeiro momento,
Uma boa amizade não é afetada com a distância.
Uma boa amizade não termina nem mesmo com a morte.
Uma boa amizade não começa nem termina: ela ocorre a todo instante.
Por que eu iria querer ter inimigos?
Melhor é que todos sejam meus amigos.
Mesmo que não me considerem como amigo, que eu lhes considere como amigos,
Um amigo verdadeiro não pede nada em troca pela sua amizade.
Conhecidos ou desconhecidos, que todos sejam meus amigos.

Sesshins no Templo Busshinji

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Informação do blog Sangha Margha.

Sesshin da Primavera
16, 17, 18, 19 nov 2009
Colaboração: R$ 150,00

Sesshin da Iluminação
13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20 dez 2009
Colaboração: R$ 200,00


Inscrições no local ou por telefone.

O retiro será coordenado pela equipe de monges do Templo Busshinji, tendo como responsável o Mestre Saikawa Roshi.

O Templo Busshinji fica na Rua São Joaquim, 285. Bairro da Liberdade, São Paulo - SP. Tels: (0xx11) 3208-4345/4515


Vide também: Calendário de Eventos - Soto Zen