Os 33 sinônimos de Nibbana (Nirvana)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

(Sinônimos que aparecem no Cânone em Pali)

1. O Incondicionado
2. A destruição da cobiça, da raiva, da ilusão
3. O não-influenciado
4. O não-contaminado
5. A verdade
6. A outra margem
7. O sutil
8. O muito difícil de ver
9. O que não envelhece
10. O estável
11. O não-desintegrável
12. O não-manifesto
13. O não-proliferado
14. O pacífico
15. O imortal
16. O sublime
17. O auspicioso
18. O seguro
19. A destruição do desejo
20. O maravilhoso
21. O magnífico
22. O não-sofrimento
23. O estado de não-sofrimento
24. O não-aflito
25. Desapego
26. Pureza
27. Liberdade
28. O não-apego
29. A ilha
30. A concha
31. O asilo
32. O refúgio
33. O destino e o caminho que leva ao destino.


“Portanto, discípulos, eu ensinei para vocês o incondicionado e o caminho que conduz ao incondicionado. Aquilo que por compaixão um mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, eu fiz por vocês. Ali estão as raízes das árvores; ali as cabanas vazias. Meditem, discípulos, não adiem, ou então se arrependerão mais tarde. Essa é a minha instrução a vocês." Buddha (SN 43:1)

A estranha linha entre o aprendizado e o ensino (II)

domingo, 27 de setembro de 2009

Estou escrevendo esse texto pois reli A estranha linha entre o aprendizado e o ensino, e achei que aquele pode possivelmente ser interpretado de algumas formas que eu não havia intencionado. Gostaria de tentar minimizar possíveis interpretações não intencionadas.


Primeiro, aquele texto não quer dizer que não há importância na relação professor-aluno / mestre-discípulo. Pelo contrário, gostaria de mostrar (talvez hesitante e tortuosamente) como é importante e sutil essa relação.

Segundo, o conteúdo daquele texto jamais deverá servir de pretexto para que um aluno não respeite o professor. Pelo contrário, o melhor é que o aluno sempre tenha o máximo respeito pelo professor. Se o aluno for orgulhoso o suficiente para não respeitar o professor, certamente será orgulhoso demais para aprender qualquer coisa.

Como eu sou somente um aluno, tenho muito pouco entendimento sobre o que um professor deve ensinar. Aquele texto tenta somente elaborar um pouco o que o aluno deve aprender.

Já li em algum lugar uma citação atribuída a Boddhidharma, que diz que somente uma pessoa em um milhão têm as condições necessárias para alcançar a iluminação sem um professor. A não ser que se queira jogar numa loteria de vida ou morte, o melhor a fazer é encontrar um professor o mais rapidamente o possível.

Quando eu digo que de certa forma nem o professor ensina, nem o aluno aprende, não quero dizer que não há trabalho da parte dos dois. Pelo contrário, o trabalho é ainda mais árduo por causa disso. O que eu quero dizer é que o aluno tem diversas visões errôneas, pré-concepções e pré-conceitos, muito difíceis de desfazer (desaprender). O trabalho do professor é ensinar técnicas e métodos para que o aluno possa desfazer esses nós. O trabalho do professor não é nem um pouco fácil. Isso porque diferentes alunos podem ter diferentes e complicados nós para desatar. O trabalho do aluno é desfazer os nós ele mesmo, pois os nós ficam dentro dele, onde o professor não pode alcançá-los.

Não basta ao aluno aprender a técnica de desatar os nós. Ele tem que aplicar a técnica com sucesso, desatando os nós, isso é o mais difícil. Depois disso ele poderia até jogar a técnica fora. Mas aí pode chegar a hora de um trabalho ainda mais nobre (e interminável): ensinar a técnica para outros.

Que extraordinário!

No grande esquema das coisas,

do ordenado movimento gravitacional dos corpos celestiais,

ao aleatório movimento quântico dos corpos infinitesimais,

bem no meio - cá estamos.

Que extraordinário!

Exatamente entre o céu e a terra - há escolha.

Nem aleatório nem ordenado,

o movimento necessário é simples e sutil.

Harmonizando o aleatório e o ordenado,

o céu e a terra agradecem.

As folhas caem no pátio varrido,

um ponto sai desalinhado na costura do retalho,

o tornozelo dói após a caminhada,

a nuvem passa lentamente no céu.

Princípios da Não-Ação

sábado, 26 de setembro de 2009


- Ação não é independente de não-ação. Não-ação não é independente de ação.

- Quando você não interfere em algo, você interfere por não interferir.

- Quando você não faz nada, você age em tudo. Isso porque você poderia ter optado em mexer em várias coisas diferentes. Como você não mexe, está mexendo nas coisas em relação ao que poderia ter sido. Conseqüentemente, quando não mexe em nada, está mexendo em tudo.

- Quando você mexe um objeto para a esquerda, está deixando de mexê-lo para a direita, e está deixando de não-mexer. Quando não mexe, está deixando de mexê-lo para a esquerda e para a direita. Ou melhor, quando não-mexe, está deixando de mexê-lo em todas as direções: esquerda, direita, para cima, para baixo, para frente, para trás. Assim, deixar de mexer também é mexer.

- Quando você levanta o braço, o mundo inteiro se move. Quando você fica imóvel, o mundo inteiro se move.

- A terra composta de pó age por não-agir. Se agisse de outra maneira, modificaria tudo. Porém todos esperam que a terra se comporte não-agindo. Assim ela cumpre seu papel exato por não-agir.

- [Conselho para mim mesmo: Porém não espere que os outros ajam como você quer. Pelo contrário, aja como os outros querem que você aja, ou aja como você gostaria que os outros agissem. Assim estará cumprindo seu papel. Mas não se preocupe demasiadamente com erros ou acertos: entre dois limites pode haver mais de uma possibilidade.]

- Talvez seja por isso que é dito que o sábio vive eternamente. Quando seu corpo virar pó, ele agirá como pó.

O Grande Novelo sem Explicação

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Figura 1. Exemplo de forma (geométrica).

A Figura 1 mostra uma forma. Porém podemos chamar de formas não somente formas geométricas, como também quaisquer conceitos, tais como:

- Conceitos abstratos (justiça, amor);
- Sensações (frio, calor, cores, sons);;
- Percepções estéticas (belo, feio);
- Julgamentos (certo, errado);
- Opiniões (bom, ruim);
- Qualquer coisa que possa ser descrita ou nomeada. De fato, nomear ou descrever é uma maneira de 'criar' uma forma complexa.

A principal característica da forma é que ela não têm uma existência independente, própria, inerente. Mudando a área colorida da forma que foi dada como exemplo, vemos que ao definirmos a forma, definimos também a não-forma (Figura 2):

Figura 2. Exemplo de não-forma (geométrica).

Assim, dizemos que a forma não é independente, não tem existência independente/inerente, já que ela depende da não-forma. Similarmente, a não-forma não é independente da forma. Poderíamos inclusive inverter os nomes, e chamar a forma de não-forma e a não-forma de forma. Isso pode ser feito trocando a Figura 1 com a Figura 2.

Vejamos outro exemplo que não seja uma forma geométrica, digamos, uma cor. Ao definirmos o vermelho, definimos também o não-vermelho. O não-vermelho inclui todas as cores que não são o vermelho: preto, amarelo, azul, rosa, branco, verde, marrom, etc. Quando vemos a cor amarela, automaticamente sabemos: não é o vermelho. É não-vermelho. Assim o conceito de vermelho depende de todas as outras cores, e o conceito de todas as outras cores depende do vermelho.

Outra peculiaridade da forma é que ela é dependente de uma mente que 'enxergue', 'crie', nomeie a forma. Ou seja, a forma não é independente da mente. No entanto, a relação entre a mente e a forma é muito parecida com a da forma e a da não-forma. Ou seja, uma é dependente da outra - a mente é dependente da forma, e a forma é dependente da mente.

A característica ou atributo das formas é de não terem existência independente, inerente. Essa característica é chamada frequentemente de vazio, ou vacuidade (sunyata).

Porém, a relação entre a forma e o vazio é muito parecida com a relação entre a forma e a não-forma. Isto é, a forma não é independente do vazio, e o vazio não é independente da forma. Ou, forma é em si, vazio; e vazio é em si, forma. Forma é vazio e vazio é forma.

A partir desse momento fica muito difícil continuar tentando explicar qualquer coisa conceitualmente (é receita certa de falar uma tolice atrás da outra - mas continuemos mais um pouco). Dizer que a forma não é independente do vazio (e vice-e-versa) significa dizer algo como

"a independência não é independente da dependência",
ou
"a dependência é dependente da independência",
ou diretamente
"dependência é independência", "independência é dependência".

Por isso é dito que a compreensão clara, verdadeira e profunda da vacuidade não pode ser conceitual, mas deverá ser experimental. Isso por que é impossível ou inútil conceitualizar propriamente a vacuidade e as suas relações entre a forma, a não-forma, a mente e a não-mente - chamo isso de "o grande novelo sem explicação".



Segue, a quem possa interessar, o Caso 29 do Mumonkan - A bandeira de Eno:

O vento estava tremulando a bandeira do templo, e dois monges estavam discutindo sobre ela. Um dizia:
- A bandeira está movendo.
O outro dizia:
- O vento está movendo.
Eles não conseguiam chega a um acordo, não importando o quão duramente debatessem. O sexto patriarca, Eno, passou coincidentemente por ali e disse:
- Nem o vento, nem a bandeira. É a mente que está movendo!
Os monges ficaram abismados.


Comentário de Mumon:

Não é o vento que move, não é a bandeira que move, não é a mente que move. Como devemos entender o sexto patriarca? Se você obtiver uma compreensão íntima desse significado, você verá por que os dois monges, querendo comprar ferro, obtiveram ouro. O patriarca não conseguiu refrear sua compaixão pelos dois monges, então tivemos essa cena lamentável.

O vento move, a bandeira move e a mente move,
Todos igualmente culpados.
Só sabe que a boca abriu,
Não sabe que o discurso saiu errado.

A estranha linha entre o aprendizado e o ensino

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

(Do lado do aprendizado:)

Eu não posso aprender nada se eu pensar que já aprendi tudo.

Se alguém me diz uma coisa, mas eu já tenho opinião formada, não serei capaz de ouvir o que o outro está falando.

Eu não irei verdadeiramente entender se achar que já entendi tudo.

Assim, as pré-concepções dificultam o entendimento.

Mas o que o aluno deve aprender?


(Do lado do ensino:)

Por outro lado, dificilmente eu consigo ensinar algo a alguém. Isso porque qualquer coisa que eu queira transmitir, irá esbarrar nas pré-concepções da outra pessoa.

De fato a outra pessoa irá aprender por ela mesma, quando derrubar suas pré-concepções (ou deixá-las enfraquecerem naturalmente).

Não é possível empurrar goela abaixo um ensinamento qualquer. Simplesmente, alguns entenderão e outros não. Mesmo o melhor professor de todo o mundo não conseguiria ensinar qualquer coisa a alguém que não queira ouvir, ou tenha uma opinião fechada sobre um assunto.

Mas o que o professor deve ensinar?


(No limite:)

Porém, aprender é de certa forma criar concepções. Para aprender algo é preciso fechar as portas para alguns entendimentos.

Assim, parece que para poder integralmente e continuamente aprender, o aluno deve na verdade desaprender. Livre de pré-concepções, ele pode verdadeiramente compreender. Provavelmente o professor ficará muito satisfeito com esse desaprendizado do aluno.

Assim, de certa forma, nem o professor ensina, nem o aluno aprende.


(Peço desculpas ao eventual leitor pela confusão em excesso. Na verdade, eu não entendi muito bem o que eu escrevi!)

Poema da fuga sem significado

sábado, 19 de setembro de 2009

Eu posso tentar fugir, mas eles irão me alcançar
Não há onde me esconder.

Eu posso tentar me enganar,
Mas no fim eles abrirão meus olhos.

Eu posso ir até a montanha mais alta do planeta
Eles estarão lá.

Mesmo no fundo do oceano,
Não tenho como escapar.

Ainda que eu esteja completamente sozinho,
A presença deles será refulgente.

Quando eu finalmente cansar de minha fuga sem sentido,
Inevitavelmente irei conhecê-los.

Todos os boddhisatvas, mahasatvas
Não há nada que esteja além de seu alcance.

Seus votos são irrevogáveis.
Pode a ilusão ser superada com a ajuda de outra ilusão?

Um conto

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Eu olho para a pedra,
E a pedra olha para mim.

Eu penso:
"Quão preciosa é a vida."

E a pedra pensa:
"Quão frágil é a vida."

Avisos ao navegante eventual

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Prezados amigos,

Os textos nesse blog muito dificilmente ajudarão alguém na prática do budismo! Algumas vezes temo que possa prejudicar a prática de alguém, e até a minha própria. Por favor, peço encarecidamente, caso seja vosso desejo sincero praticar o budismo, que procure orientação de um professor do Dharma ou centro budista mais próximo.

Muito obrigado pela atenção.

Anotação aleatória (XXXVIII)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Querer ser um corredor não torna ninguém um corredor. Somente correr faz de alguém um corredor.

Sesshin Em Florianópolis (Informação repassada)

sábado, 12 de setembro de 2009

O Sesshin, retiro zen tradicional, é uma prática de introspecção e observação profunda
Num retiro zen budista, tentamos criar as condições exteriores e interiores que nos permitem afastar a agitação e dispersão da nossa mente. Num ambiente envolvente, observamos e praticamos o silêncio, procurando falar somente o indispensável durante as atividades coletivas. A rotina de um sesshin envolve períodos de zazen (meditar sentado), intercalados com períodos de kinhin (meditar caminhando), teisho (palestras formais), oryoki (refeição em plena atenção), samu (atividades de limpeza do dojô), caminhadas meditativas e de leitura de sutras.

Um retiro oferece à oportunidade de experienciar a vida de uma forma mais leve e receptiva. Ao estarmos mais atentos e conscientes de tudo, das nossas relações de interdependência com os outros, refinamos a nossa habilidade de vivermos no "aqui e no agora".

Local: Sede Baha'i - Cachoeira do Bom Jesus - norte da Ilha de Florianópolis

Data: 16, 17 e 18 de outubro

Início: às 19hs do dia 16/10

Término: 13hs do dia 18/10

Valores: 120,00 - membros / 140,00 - contribuintes / 160,00 - não contribuintes

Inscrições e informações com Juliana: juliana@chalegre.com.br - 9971.1323 ou 3225.8896

O Coração do Sutra Prajna Paramita - Versão muda (hanzi/kanji)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em japonês)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009



Kanji zai bosatsu. Gyojin hannya haramita ji. Shoken go onkaku. Do i issaï ku yaku.

Sharishi. Shiki fu i kû. Kû fu i shiki. Shiki soku zékû. Kû soku zé shiki. Jusô gyo shiki. Yakubu nyozé.

Sharishi. Zécho hokû sô. Fushô fumetsu. Fuku fujô. Fuzô fugen. Zékokû chû. Mu shiki mu ju sô gyo shiki.

Mugen ni bi zesshin. Mu shiki shokô mi soku ho. Mugen kai nai shimu i shiki kai. Mu mu myô yaku mu mu myô jin. Naishi murô shiyaku murô shinjin. Muku shû metsu dô. Muchi yaku mu toku. I mushotoku ko.

Bodai sat ta. E hannya haramita ko. Shinmu kégému kégéko. Mu û ku fu. On ri issaï tendô musô. Kugyô néhan. Sanzé shobutsu. E hannya haramitako. Toku a nokuta rasan myaku san bodaï. Kochi Hannya haramita. Zédai jin shû. Zédai myô shû. Zému jô shû. Zému todo shû. Nojo issaï ku. Shin jitsu fu. Koko ketsu hannya haramita shû. Soku setsu shû watsu.

Gyatei, gyatei, hara gyatei, hara sô gyatei, Boji sowaka. Hannya shingyô

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em Sânscrito)

terça-feira, 8 de setembro de 2009



Aryavalokitesvara 'Bodhisatva. Gharnbhiram Prajna-Paramita Caryaym Caramano,

Vyavalokiti Smaa Panca-skanda Asatta Sca Svabhaba Sunyam Pasyati Smaa

Iha Sariputra, Rupam Sunyam Sunyata iva Rupam.

Rupa Na. Vrtta Sunyata, 'Sunyataya Na Vrtta Sa Rupam Yad Rupam-Sa-sunyata, Yad Sunyata Sa-rupam Evam Eva. Vedana, Samjna Sam-skara Vijnanam

Iha Sariputra Sarva Dharma Sunyata-Laksana Anutpanna Aniruddha, Amala A-vimala, Anuna A-paripurna

Tasmat Sariputra Sunyatayam Na Rupam, Na Vedana, Na Samjna, Na Samskara, Na Vihnanam. Na Caksu Srotra Ghrana Jihva Kaya Manasa, Na Rupam Sabda Gandha Rasa Sparstavya Dharma

Na Cakso-dhatu Yavat Na Manovijnam-dhatu Na Avidya, Na Avidya Kasayo. Yavat Na Jara-maranam, Na Jara Marana Ksayo. Na Dukha Samudaya, Nirodha, Marga

Na Jnana, Na Prapti, Na Abhi-samaya, Tasmat Na Prapti Tva Bodhisattvanam, Prajna-paramitam Asritya Viharatya Citta Avarana, Citta Avarana Na Shitva Na Trasto, Vi-paryasa Ati Kranta Nistha Nirvanam.

Try-adhva Vyavasthita sarva, Buddha Prajna-paramitam A-sritya Anuttara-samyak-sambodhim Abhi-sambuddha.

Tasmat Jnatavyam Prajna Paramita Maha-mantra, Maha-vidhya Mantra, Anuttara Mantra, Asama-samati Mantra. Sarva Dukha Pra-samana Satyam Amithyatva

Prajna-paramita Mukha Mantra Tadyatha,

Gate Gate Para-gate Para-samgate Bodhi Svaha

A Pizza e o Zen

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Alguns dos maiores "segredos" do universo podem ser explicados com uma metáfora muito simples: uma pizza e um cortador.

A pizza inteira é o Mundo (o conjunto de todas as coisas, Tudo, todos os fenômenos, o Universo, ou como você quiser chamar). O cortador é a mente (e de fato o cortador não é separado da pizza, mas façamos uma licença poética, senão não haveria como pretender explicar qualquer coisa).

Usualmente o cortador faz aquilo que ele gosta de fazer: corta a pizza em pedaços (virtuais). A um dos pedaços (com o qual o cortador insiste em se identificar), ele chama de Eu. Assim ele começa dividindo a pizza entre o pedaço Eu (sujeito) e o outro pedaço (objeto). Porém ele não pára por aí: ele divide a pizza em uma miríade de outros pedaços, objetos, fenômenos e todas as dez mil coisas (alegoria chinesa para a infinita diversidade das coisas e fenômenos).

A metáfora é um pouco pobre pois de fato a pizza não é estática: ela é algo dinâmico, que muda o tempo todo (uma metamorfose ambulante, diria o Raul). Assim, para um certo desespero do cortador (a mente), as fatias também mudam o tempo todo, se transformam. Por exemplo, o que antes eram as fatias semente, gás carbônico, água, luz solar e nutrientes do solo, agora é uma fatia árvore. O que antes era uma fatia árvore, agora é uma fatia lenha. O que antes era uma fatia lenha, agora é a fatia carvão queimando na lareira, virando fatia gás carbônico, fatia vapor d'água e fatia luz novamente. E assim por diante.

Se a pizza é Um, as fatias são frações (como aprendemos no primário). Logo, as multiplicidades nada mais são do que frações do Um, ou Unicidade, cortadas pelo cortador (a mente). Toda multiplicidade começa com uma dualidade. Assim a maioria das coisas são dualidades de dualidades de dualidades... que para complicar um pouco mais, às vezes se sobrepõem umas às outras, em diversas camadas (como pizzas fatiadas em tamanhos diversos empilhadas umas sobre as outras).

Porém o cortador não precisa necessariamente continuar cortando tudo que vê pela frente, mantendo seus hábitos e pré-concepções. Através de um treinamento adequado, o cortador pode fazer algo diferente: Cortar em Um (mesmo nome do blog de meu amigo Seigaku - uma alusão à Manjusri, o boddhisatva da sabedoria, cuja espada corta em um). Cortar em Um é o próprio Zen (palavra japonesa), que vêm do chinês Chan, que por sua vez vem do sânscrito Dhyana, ou pali Jnana - que significa simplesmente meditação. Dhyana por sua vez nada mais é (também não escapa da Unicidade) que Prajna, ou Sabedoria (acho que essa é de Hui Neng).

Assim, "aprender o que é a Sabedoria" significa estar livre de pré-concepções: "estar livre de pré-concepções" é o que "estudar a Sabedoria" é - Dogen Zenji (Shobogenzo, capítulo 2 - Makahannya-haramitsu).


Estranhamente, ainda insisto em me ver e agir como uma fatia de pizza. Assim, lamento pela falta de informações adicionais.



P.S.: Desculpe pelo excesso de parênteses nos textos. É mania de programador.

P.S.S.: O "pára" do segundo parágrafo ficou com acento de propósito. Apesar de meu português ser ruim, me recuso a aceitar a reforma ortográfica, ainda mais ao ler livros antigos e constatar que o português era muito mais bonito antigamente, antes de várias reformas.