Como eu deveria praticar

sábado, 28 de fevereiro de 2009

(essa figura deve ser entendida como apontando para o autor, e não para o leitor)

Não é de minha competência julgar se outra pessoa fez algo errado ou não. Eu não posso esperar que as pessoas ajam como eu gostaria que elas agissem, isso é bobagem. Eu não tenho a menor autoridade moral para julgar os outros, e mesmo se tivesse, a perderia ao julgá-los. Nem mesmo Jesus Cristo reinvindicou ou autorizou esse direito (João 8:15, Mateus 7), quem seria eu para fazê-lo?

Na verdade eu devo partir do princípio que tudo que as outras pessoas fazem já está correto, o que eu mesmo faço é que deve ser cuidado, como um aspirante a praticante. Cuidar das próprias ações talvez seja a diferença entre um praticante e um não-praticante. Isso certamente não significa que o praticante é melhor que o não-praticante. Enquanto alguém for um não-praticante, não faz sentido ele praticar, já que ele é justamente um não-praticante. Ele está praticando o não-praticar, agindo exatamente conforme sua natureza temporária de não-praticante. Já um suposto praticante que não pratica está só enganando a si mesmo. Para ele ser um verdadeiro praticante, ele deve somente cumprir o seu papel: praticar o tempo todo.

Avaliando a mim mesmo, vejo que eu sou um não-praticante 99,9% do tempo. Talvez 100% do tempo. Isso não é motivo de vergonha, muito menos de orgulho, mas certamente é motivo para eu me esforçar mais. Especialmente na prática de zazen.

Divagações possivelmente inúteis

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009


Qual a relevância de eu acumular um monte de conhecimento inútil? É totalmente inútil que eu saiba de algo a mais que os outros saibam. Certamente todo esse conhecimento se esvairá quando eu morrer e meu cérebro virar pó. De fato, toda a acumulação de coisas para mim mesmo terá sido inútil, pois a morte é certa e inevitável.

A única maneira de preservar qualquer coisa é usá-la para algo bom ou dá-la a alguém que possa fazer um bom uso dela. A única maneira de preservar um conhecimento é ensiná-lo para alguém. Qualquer coisa além disso é acumular pilhas e pilhas de poeira morta.

Estoicismo e Budismo (II)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009



Além de Marco Aurélio, outros filósofos estóicos importantes foram Zeno de Citium (o primeiro estóico), Epictetus e Sêneca.

"O homem não é perturbado pelas coisas, mas pelas concepções que ele cria delas."
Epictetus

Atualmente, a antiga filosofia estóica é bastante incompreendida, e de forma bem semelhante à maneira como o budismo foi (e em alguns círculos ainda parece ser) incompreendido no Ocidente. A palavra estóico hoje em dia significa alguém desprovido de emoções ou indiferente à dor (os Estóicos ensinavam a liberdade das angústias e dos desejos pela sua filosofia). Mas os Estóicos não buscavam extinguir as emoções, e sim transformá-las por uma prática resoluta que permitia a pessoa desenvolver claro discernimento e calma interior mesmo durante os altos e baixos da vida.

Também muito semelhantemente ao budismo, os estóicos surgiram inseridos em um ambiente cultural riquíssimo, no auge da Civilização Grega, e a filosofia estóica emergiu diretamente de uma tradição filosófica que pregava o ascetismo, a dos Cínicos (analogamente, as primeiras tentativas do Buddha na busca por uma solução ao problema da insatisfação humana foi junto à tradição ascética hindu). Um dos Cínicos mais famosos foi Diógenes de Sínope. Reza a tradição que Alexandre da Macedônia, o futuro conquistador do ocidente, estava viajando pela Grécia e fez uma visita a Diógenes (que na ocasião estava morando em um barril). Alexandre ficou tão impressionado com as idéias do filósofo que lhe ofereceu qualquer presente que estivesse ao seu alcance. Diógenes lhe pediu como presente que Alexandre desse um passo ao lado para que ele não mais tapasse o sol. Vendo mais tarde seus homens zombando de Diógenes, Alexandre lhes disse: "Se eu não fosse Alexandre, seria Diógenes."

Seguindo idéias propostas originalmente por Sócrates, os Estóicos afirmavam que a infelicidade e o mal são resultados da ignorância (outra semelhança com o budismo). Se alguém é cruel, é porque está inconsciente de sua própria razão universal. Se alguém está infeliz, é porque ele "esqueceu" como sua verdadeira natureza realmente opera (esses conceitos me parecem muito semelhantes à Natureza de Buddha, que pertence a todos os seres vivos, mas muitas vezes está em um estado latente). A solução para o mal e a infelicidade então, de acordo com a prática da filosofia Estóica, é examinar seu próprio comportamento e julgamentos para avaliar se eles desviaram da razão universal da natureza. Os Estóicos focavam portanto em promover uma vida em harmonia com o universo. A Virtude estóica consiste em um comportamento em concordância com a Natureza. Esse princípio também se aplica aos comportamentos interpessoais, como ser livre da raiva, inveja e ciúmes. Tudo isso parece quase integralmente compatível com os ensinamentos budistas.

A filosofia para um Estóico não é apenas uma série de crenças ou afirmações éticas, mas sim um modo de vida envolvendo prática constante e treinamento (novamente muito parecido com o Buddhismo). As práticas espirituais estóicas incluem a lógica, o diálogo socrático ou auto-diálogo, a contemplação da morte (prática usual em algumas escolas budistas), treinamento da atenção para permanecer no momento presente (prática presente em praticamente todas as escolas budistas), a reflexão nos problemas do dia-a-dia e possíveis soluções, práticas de memorização, entre outras.

"Diga para você mesmo toda manhã: hoje eu devo conhecer homens ingratos, violentos, traiçoeiros, invejosos, não-caridosos. Todas essas coisas surgiram neles pela ignorância do que é verdadeiramente bom e ruim... Eu não posso ser afetado por nenhum deles, pois nenhum homem me fará agir incorretamente, nem eu posso ficar com raiva de meus companheiros ou odiá-los; pois viemos a este mundo para trabalhar juntos..."
Marco Aurélio

(Alguns trechos foram adaptados do artigo Stoicism da Wikipedia em inglês)

Estoicismo e Budismo

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009


Recentemente me deparei com uma antiga (mas atualmente pouco valorizada) tradição filosófica ocidental que me pareceu bastante próxima ao buddhismo, ao menos quanto aos aspectos filosóficos e comportamentais mais simples.

A frase que inicialmente me chamou a atenção foi a seguinte:

"A felicidade daqueles que querem ser populares depende dos outros; a felicidade daqueles que buscam prazer flutua com humores fora do seu controle; mas a felicidade do sábio nasce dos seus próprios atos livres."
Marcus Aurelius Antoninus

Sim, quem falou isso foi o imperador romano Marco Aurélio (121-180), que por acaso é considerado um dos filósofos estóicos mais importantes. Muitas outras outras frases de Marco Aurélio me chamaram a atenção pela semelhança com os ensinamentos buddhistas:

"Antes de cada ação pense: eu não teria nenhuma razão para me arrepender depois?" (Semelhança com a avaliação da Ação Correta no Nobre Caminho Óctuplo.)

"Quando contrariado, recue e considere se às vezes você não é culpado exatamente pela mesma coisa." (Não julgar)

"Nada no passado ou no futuro pode afetá-lo, apenas o que está no presente." (Atenção no agora)

"Ou é a sua reputação que está lhe incomodando? Mas olhe quão cedo seremos todos esquecidos. O abismo do tempo infinito que engole tudo. O vazio daquelas mãos aplaudindo. As pessoas que nos aplaudem; quão caprichosas elas são; quão arbitrárias. E essa minúscula região onde isso acontece. Toda a terra, um ponto no espaço - e a maior parte dele desabitado." (Impermanência; Insignificância de assuntos fúteis como a busca de fama e reconhecimento)

"Pouco importa aonde você vive pois o mundo é um só lugar." (Irrelevância da localidade para a prática).

"Raiva e indignação contra coisas que atravessam seu caminho não lhe trarão nada além de lhe tornar motivo de risada." (Raiva como uma artificialidade da mente)

"A virtude e a maldade existem, não como emoções e pensamentos, mas como ações." (O bem e o mal podem ser relativos, mas as ações e suas conseqüências são reais)

"As coisas que nos afetam estão fora de nós. Mude sua atitude e então, como um navio entrando num porto seguro, você encontrará a calma." (O controle da mente modifica a maneira como percebemos o mundo)

"Não fique deitado na cama, levante-se e faça aquilo que você está aqui para fazer." (Não perder tempo; fazer o que se tem que fazer)

Elogios e Críticas (II)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Quanto às críticas, eu observo que, mais frequentemente, elas golpeiam o meu orgulho (num bom sentido) ao invés de alimentá-lo. Quanto mais respeito eu tenho pela pessoa de quem recebo a crítica, tanto mais forte o golpe. Às vezes minha sensação é de ter recebido um soco no estômago. Pode doer naquele momento, mas sinto que aprendo muito com esses golpes no meu orgulho. No fim, eu acabo percebendo que eles são uma benção ao invés de duras pancadas.

Porém as críticas, se forem recebidas com orgulho excessivo da minha parte, ou como uma ofensa pessoal, acabam tendo um efeito negativo (por minha culpa). Nesse caso eu crio uma rejeição, uma separação que novamente estimula o meu ego orgulhoso. Mas ainda nesse caso há a possibilidade de arrependimento, aceitando a crítica posteriormente.

Elogios e Críticas

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


Quase todas as pessoas gostam de receber elogios, mas muitas não gostam de receber críticas.

Na minha própria experiência pessoal (no meu caso), as críticas acabam sendo mais proveitosas que os elogios. Tenho certeza que as pessoas que me elogiam o fazem com sinceridade e boa intenção, o problema está comigo mesmo. Quando sou elogiado, o orgulho surge com força, fortalecendo o meu ego. Posso até tentar não externalizar esse orgulho, o silenciando o máximo possível, ou disfarçando-o com modéstia (o que cria uma mentira, piorando as coisas).

Certamente os elogios podem ser proveitosos, incentivando-me a continuar me esforçando. Mas eu tenho que tomar extremo cuidado para que eles não se tornem um alimento para o meu ego - o que é muito difícil, na verdade, não sei bem como evitar isso, além de simplemente perceber imediatamente que isso ocorre, o que parece frear um pouco a expansão do orgulho. Outro perigo é que eu passe a fazer as coisas em busca de elogios e reconhecimento, e não porque elas tenham que ser feitas.

Conselhos de Meditação

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Texto reproduzido do blog A Inteligência do Lótus (também postado no blog Meditar), citando Bokar Rinponche. Essas instruções são de um lama budista tibetano, mas coincidem bastante com as instruções usuais de zazen no budismo Zen, quanto à atitude mental durante a meditação.


"Inúmeras pessoas crêem que a meditação deve necessariamente ser um estado desprovido de todos os pensamentos. Ora, quando elas meditam, pensamentos aparecem e elas concluem disso que são incapazes de meditar, que a meditação é um exercício completamente fora de seu alcance. Esse a priori é um erro: meditar não é apagar todo pensamento. Como abordar o problema dos pensamentos? É preciso, antes de tudo, evitar dois erros:

1 - O primeiro é não tomar consciência de que os pensamentos se produzem [ou] segui-los maquinalmente.


2 - O segundo é procurar detê-los.

A atitude justa será, ao contrário, estar consciente da produção dos pensamentos, mas sem segui-los nem procurar pará-los, mas simplesmente não ocupar-se deles. Se não nos ocupamos dos pensamentos, os pensamentos não tem força. Enquanto não conhecemos a natureza de nossa mente, esta produz pensamentos, que tanto podem ser positivos como negativos, dotados de uma grande força sobre nós mesmos, pois eles são apreendidos como reais. Sem esta apreensão, os pensamentos não tem nenhuma força. Quando deixamos a mente relaxada, vem de início um momento em que ela permanece sem pensamentos. Esse estado estável é como um mar sem ondas. Nessa estabilidade, surge em seguida um pensamento. Este é como uma onda que se forma na superfície do mar. Na medida em que deixamos este pensamento sem nos ocuparmos dele, sem o "deter", ele esvanece-se por si mesmo na mente de onde emanou. É como a onda que se desfaz de novo no mar de onde surgiu. O mar e a onda, se não refletimos sobre isso, podem aparecer como duas realidades separadas. De fato, elas são indiferenciadas em essência, pois a essência da onda é a água, bem como a essência do mar também o é. Não podemos dizer que ambos sejam entidades diferentes. Ondas sobem à superfície do mar, mas nada podem fazer alem de fundir-se de novo no mar. No entanto, não podemos dizer que o mar estaria de início diminuído ou que estaria em seguida aumentado. Da mesma maneira, quando deixamos acontecer o movimento dos pensamentos sem nos ocuparmos deles, nossa mente não se encontra deteriorada quando os pensamentos se produzem, e ela não se encontra melhorada quando é desprovida de pensamentos. Enquanto não tivermos compreendido o que é a mente, somos um pouco como aquele que estando na praia pensasse que o mar deve absolutamente ser desprovido de ondas. Quando uma onda vem em sua direção, ele desejaria agarrá-la e jogá-la para um lado, depois, agarrar a seguinte e jogá-la do outro lado. E mesmo quando, independentemente de seus esforços, o mar se acalmasse por instantes, seria inevitável que ondas se formassem de novo ali. Aquele que esperasse estabelecer um mar definitivamente desprovido de ondas só poderia estar constantemente decepcionado. Querer, durante a meditação, eliminar os pensamentos, é colocar-se na mesma situação. Quando ondas surgem do mar, elas recaem no mar. Na realidade, o mar e as ondas não são diferentes. Se compreendemos isso, permanecemos sentados na praia, relaxados: não há então nem fadiga nem dificuldade. Do mesmo modo, quando observamos a essência de nossa própria mente, que existam pensamentos ou não, é sem importância; permanecemos simplesmente relaxados."

De "Meditação - Conselhos ao Principiante" de Bokar Rinpoche.

Ciclos

domingo, 8 de fevereiro de 2009



Crédito do vídeo: Greenpeace


Inspirando, ah, expirando.

Sol nasce, Sol brilha, Sol se põe.

Filho, Pai, Avô.

Pé levanta, passo a frente, pé desce.

Maré sobe, cheia, maré desce.

Chave entra, chave gira, chave sai.

Lua crescente, Lua cheia, Lua minguante.

Nascimento, vida, morte.

Om, ah, hum.

Planta cresce, dá fruto, murcha.

Brahma, Vishnu, Shiva.

Pensamento surge, se mostra, desaparece.

Inspirando, ah, expirando.

Buddhadharma

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



"Minha doutrina é semelhante ao oceano.

O oceano é minha doutrina, ambos pouco a pouco vão se tornando cada vez mais profundos.

Ambos em todas as suas mudanças conservam a unidade. Ambos devolvem cadáveres à praia.

Assim como os rios, lançando-se no mar, perdem seu nome e, a partir de então, ficam fazendo parte do grande oceano, assim também os homens de toda casta, entrando para a comunidade, tornam-se irmãos e passam a ser contados como filhos do Buda.

O oceano é o reservatório de todos os cursos d’água e da chuva das nuvens e, no entanto, não transborda, nem seca, nunca. Assim, também minha doutrina é compreendida por milhões de pessoas, e no entanto não aumenta nem diminui.

Assim como o grande oceano está impregnado de um só sabor - o do sal -, assim também minha doutrina está impregnada de um só sabor, o da libertação.


O oceano e minha doutrina, ambos estão cheios de pedras preciosas, tesouros e pérolas, e ambos servem de morada a toda uma poderosa existência.


Minha doutrina é pura e não faz distinção alguma entre o nobre e o vulgar, o rico e o pobre.

Minha doutrina é semelhante à água que apaga toda nódoa.

Minha doutrina é semelhante ao fogo que tudo purifica.

Minha doutrina é semelhante ao céu, porque há nela lugar, muito lugar, para receber todos os homens, o nobre e o vulgar, o rico e o pobre, o poderoso e o humilde." Buddha Shakyamuni


Esse texto, me lembro bem, foi um dos primeiros textos que li sobre o buddhismo, há 6 ou 7 anos atrás. Certamente me causou uma grande impressão.

Mais tarde descobri que esse texto é uma adaptação livre de um sutra do Tripitaka, sendo portanto um ensinamento atribuído diretamente ao Buddha histórico. Chama-se Uposatha Sutra - A Observância.

Quebrando seqüências de atos ruins

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009



Não é incomum que eu me ofenda com algo que alguém me diz. Muitas vezes minha reação impulsiva é responder com uma outra ofensa do mesmo tipo. Se eu julguei que a pessoa cometeu um erro ao me ofender, eu passo a cometer exatamente o mesmo erro ao ofendê-la, ou até pior: se supostamente eu sou capaz de distinguir o certo e o errado, considerando aquela ofensa como um ato errôneo, eu cometo um erro ainda maior ao optar deliberadamente por um ato errado.

Depois de algumas experiências desse tipo, vejo que o melhor a fazer é "engolir" a ofensa sempre que possível, sem guardar rancor*. Pode até doer muito naquele momento, mas acaba passando. Por outro lado, se eu rebater a ofensa, ou guardá-la, aquela seqüência de atos ruins se perpetua indefinidamente, causando sofrimento para todas as partes envolvidas. O melhor a fazer é quebrar aquela seqüência não-saudável tão logo que possível (se eu conseguisse agir assim, seria quase como um buraco negro, um sumidouro de ações prejudiciais).

O tradicional texto zen conhecido como Canto da Libertação – Shodoka diz:
“Se as pessoas ofenderem e difamarem você, deixe-os:
eles estão brincando com fogo, tentando queimar o céu.
Quando eu os ouço, suas palavras são gotas de néctar
que me mostram que esse momento está livre de conceituação.
Palavras ofensivas são bençãos disfarçadas,
e meus ofensores bons professores.
Esta mente tem espaço para difamação e ofensa
e é ela mesma compaixão e paciência sem originação.”

Espero não estar cometendo uma heresia, mas acho que posso entender um pouco mais o símbolo cristão da Paixão de Cristo: Cristo é o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo. Cristo foi cruelmente crucificado num ato terrível, mas Cristo não reagiu contra seus agressores na mesma moeda, pelo contrário: ofereceu-lhes seu perdão e a Paz de Cristo.

"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Lucas 23:34



* Pois se guardar rancor, ela pode retornar mais tarde ou até ser descontada em outra pessoa, que não tinha nada a ver com a situação original.

Sem frio e calor (atualizado)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Vem fazendo muito calor nos últimos dias. Sentado em zazen, pude perceber meu corpo produzir um filete contínuo de suor, um verdadeiro riacho de suor correndo pelas minhas costas, formando uma poça molhada na roupa. Me disseram que não é recomendável vento no zazen*, então eu passo calor mesmo, sem ligar o ventilador.

As pessoas reclamam muito do calor. Existe até um koan que usa esse tema:

Um monge perguntou a Tozan - "Como podemos escapar do frio e do calor?". Tozan respondeu - "Por que não ir a um lugar onde não há frio nem calor?". - "Existe tal lugar?" o monge perguntou. Tozan respondeu, "Quando frio, que seja frio completamente; quando calor, que seja calor profundamente ."

Eu não tenho coragem suficiente para tentar responder o koan, mas posso tentar entender a resposta de Tozan (o que é um erro, mas que seja).

Eu entendo assim: se é calor, que seja calor, somente calor, tão somente calor, e nada mais (atenção total no momento atual). Se eu pensar "poderia estar mais fresco", não vai ser somente calor, vai ser calor querendo ser frio. Nesse caso, é calor e frio, e não somente calor. Somente calor não é nem mesmo calor, pois calor não é calor sem frio. Somente calor deve ser o tal do lugar onde não há frio nem calor (desculpem-me por tanta bobagem).

Ou seja, quando estiver calor eu devo aceitar o calor, e não lutar contra ele. Mas isso não quer dizer que eu não possa ir para a sombra ou usar o ar-condicionado quando houver. Uma coisa é aceitar algo que está acontecendo e é inevitável e irremediável, outra coisa é poder agir para transformar as coisas conforme as possibilidades surgem.

Assim, não tem problema tirar a camisa e ligar o ventilador* quando estiver calor. Exceto quando eu estiver fazendo zazen, é claro.


* Nota de atualização: O Monge Genshô comentou aqui que não vê problemas em usar ventilador durante o zazen. Que bom!

Anotação aleatória (X)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Qualquer coisa que as pessoas façam pode ser classificada como "ato perfeito". Mas então ninguém poderá reclamar por ser mordido após chutar um cachorro.