Generosidade

domingo, 30 de novembro de 2008

Dana é um importante conceito buddhista, sendo o nome em Sânscrito e Pali ao que chamamos de generosidade. No Buddhismo, Dana compõe um certo paradoxo: quanto mais doamos, e quanto mais doamos sem buscar algo em troca, mais "ricos" ficamos, num sentido mais amplo.

O Buddha disse (Dana Sutra):
"Se os seres soubessem, como eu sei, os resultados de dar e compartir, eles não comeriam sem antes ter dado, nem permitiriam que a mácula do egoísmo tome conta das suas mentes. Mesmo se fosse o seu último bocado, a sua última mordida, eles não comeriam sem ter compartido, se houvesse alguém com quem compartir. Mas porque os seres não sabem, como eu sei, os resultados de dar e compartir, eles comem sem ter dado. A mácula do egoísmo toma conta das suas mentes."

A generosidade é uma prerrogativa espiritual tão essencial que atravessa facilmente as barreiras entre as religiões. Disse Jesus Cristo (Lucas 12:33):

Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói.

Novamente o Buddha (Addita Sutra):

“Portanto, quando o mundo arde
Com [as chamas] do envelhecimento e morte,
Ele deveria remover [sua riqueza] sendo generoso:
Aquilo que é dado está bem salvo.

Aquilo que é dado produz bons frutos,
Mas não aquilo que não é dado.
Ladrões ou reis roubam-no,
É queimado pelo fogo ou perdido."

Eu deveria cultivar muito mais a generosidade.

Volta de ônibus

sábado, 29 de novembro de 2008



Entrar em um ônibus. Um único ato me leva de um ponto ao outro, muito distante. Essa ação leva a um resultado muito claro. O caminho é definido. Raramente ocorre um percalço, o ônibus pode até quebrar, mas certamente ele leva de um ponto a outro diferente. Os passageiros do ônibus têm objetivos e destinos diferentes, mas todos usam o mesmo caminho. Ninguém duvida da eficácia do motorista de cumprir o caminho. Ninguém duvida da eficácia do motorista de ajudá-los a chegar a seu destino.

Presto atenção ao meu redor. Em cada ponto, pessoas entram e saem do ônibus. O motorista acelera. O motor é barulhento. Quase ninguém conversa. Uma moça discute no celular, namorados cochicham felizes. Inspiro e expiro, meu coração bate. É noite. As luzes passam na rua, sincronizadas com o movimento do ônibus veloz. São as luzes que passam ou o ônibus que anda? O movimento do ônibus é coerente com o barulho do motor. Os carros ao redor seguem o fluxo do trânsito, sincronizadamente. Tudo parece misteriosamente ligado.

Para um passageiro que presta atenção, o que é mais importante: o destino ou o caminho?

Banhando um Buddha recém-nascido

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Crédito da imagem


Texto do Mestre Zen Vietnamita Nhat Hanh:

Na minha cabeça, a idéia de que lavar a louça é desagradável só pode ocorrer enquanto você não está fazendo isso. Depois que você está diante da pia com suas mangas arregaçadas e suas mãos na água morna, não é tão ruim assim. Eu gosto de levar tempo com cada peça de louça, estando plenamente consciente em cada peça, na água e em cada movimento de minhas mãos. Eu sei que se eu me apressar pra sair e ir tomar uma xícara de chá, o tempo não terá sido agradável e não terá valido a pena ser vivido. Isso seria uma pena, pois cada minuto, cada segundo da vida é um milagre. As louças em si e o fato de eu estar aqui as lavando são milagres! Cada tigela que eu lavo, cada poema que eu componho, cada vez que eu convido um sino a tocar é um milagre, cada um tem exatamente o mesmo valor. Um dia, enquanto lavando uma tigela, senti que meus movimentos eram tão sagrados e respeitosos como os de banhar um Buddha recém-nascido. Se ele estivesse lendo isso, aquele Buddha recém-nascido certamente estaria feliz por mim, e não teria se sentido nada ofendido de ser comparado com uma tigela.

Cada pensamento, cada ação à luz da atenção plena se torna sagrada. Sob essa luz, não existe fronteiras entre o sagrado e o profano. Devo confessar que leva um pouco mais de tempo para terminar de lavar a louça, mas vivo plenamente cada momento, e sou feliz. Lavar a louça é ao mesmo tempo um meio e um fim, isto é, não lavamos a louça apenas para termos as louças limpas, mas também lavamos a louça simplesmente para lavar a louça, para viver plenamente cada momento enquanto estamos lavando.

Se eu for incapaz de lavar as louças alegremente, se eu quiser terminar logo para que eu possa ir tomar uma xícara de chá, serei igualmente incapaz de beber o chá alegremente. Com a xícara de chá em minhas mãos estarei pensando o que farei a seguir, e a fragrância e o sabor do chá, juntamente com o prazer de bebê-lo, serão perdidos. Estarei sempre atraído pelo futuro, nunca sendo capaz de viver o momento presente.


Banhando um Buddha recém-nascido, por Thich Nhat Hanh.

Estresse no trabalho

quinta-feira, 27 de novembro de 2008



De vez em quando me estresso no trabalho. Às vezes tenho trabalho demais, acontece tudo ao mesmo tempo. Às vezes tem trabalho de menos. O projeto de dois meses não dá certo. As pessoas não resolvem os problemas. Tenho que corrigir os erros dos outros. Tenho que corrigir os meus erros. As pessoas criam dificuldades inexistentes. Nada funciona como eu gostaria que funcionasse.

Tudo contraria a minha vontade. O que eu quero. O meu eu.

Sempre alguma coisa vai contrariar minha vontade. Sempre algo vai dar errado. A probabilidade das coisas não acontecerem exatamente como eu quero é muito grande. Se eu não desse tanto valor para minha vontade, não criaria essa divisão: "o que eu quero" versus "o que acontece". As coisas acontecem, junto comigo, junto com o que eu faço. Se eu aceitasse simplesmente as coisas tal como elas são, não me estressaria. Ao invés de alguma coisa ter dado "errado", de ter contrariado a minha vontade, ela vai simplesmente ter acontecido. A única coisa que eu posso fazer, se quero transformar qualquer coisa, é lidar da melhor maneira possível com o que acontece, momento-a-momento.

Deixando um papel cair no chão

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Não gosto de rua suja. Não gosto quando pessoas displicentemente jogam papel no chão. No Rio de Janeiro as ruas são muito sujas, as pessoas jogam muito papel e lixo no chão.

Ontem ia para o trabalho quando peguei um papelzinho de propaganda de uma pessoa na rua. Sempre pego esses papeizinhos, mesmo nunca tendo interesse no conteúdo deles, pensando: "ao menos estou ajudando com o trabalho dessa pessoa". Dobrei o papelzinho e segui para o trabalho pensando "logo jogo no lixo". Geralmente guardo no bolso e acabo esquecendo de jogar no lixo mais tarde. Segurei-o na mão e continuei o caminho para o trabalho.

Em pouco tempo me distraí e minha mão afrouxou. O papel caiu no chão. Percebi. Continuei andando. Pensei em voltar e juntá-lo do chão. Logo criei uma série de justificativas, pensando: "o chão está sujo mesmo"; "é só um papelzinho"; "alguém vai limpar depois". Continuei andando. Depois me arrependi de não ter voltado.

Da próxima vez que vir o chão da rua sujo, saberei que não sou melhor que ninguém que joga lixo no chão. Basta um instante de desatenção, seguido de pouca reflexão, que farei exatamente o mesmo.

Óculos-televisão

Crédito da imagem: Time Inc.


Alguém inventou um óculos-televisão, em que é possível assistir filmes andando por aí! Mais do que isso, é possível rebobinar e assistir trechos de nossa própria vida, tudo em tempo de real!

De vez em quando o óculos automaticamente passa "flashes" do que está acontecendo, para que a pessoa não tropece ou coisa parecida. Mas isso não é tudo! O óculos é sensível ao contexto da situação, mostrando diversas situações do passado, semelhantes ao momento atual, de forma que você possa mais facilmente pré-julgar o que está acontecendo, tomando decisões antecipadamente sem nem mesmo ter que investigar melhor o que está ocorrendo. Mais ainda, como bônus o óculos permite que você crie filmes com o pensamento, de modo que você possa assistir todo tipo de sonhos como um filme que nunca acaba, criando seu conto-de-fadas como bem quiser!

Mas atenção: Os inventores do óculos não se responsabilizam por "acidentes" que possam ocorrer pelo mau uso dele, como você brigar com alguém (que não sabe o que está ocorrendo no seu filme), ficar irritado (pois a velhinha que está andando na sua frente está lhe obrigando a prestar atenção, interrompendo o filme) ou viciado, sempre querendo mais e mais filmes. Também não se responsabilizam por alguns pequenos defeitos de fabricação: os filmes podem enjoar e não mais satisfazer, podem lhe causar raiva e frustração, medo e angústia, e podem também causar um leve desvio de interpretação da realidade...

De certa forma, todos usamos óculos como esse. É a mente desatenta. Não vivemos nossa vida, mas "assistimos filmes" o tempo todo. E o pior, perdemos diversas oportunidades de agir, criando coisas boas, de verdadeiramente viver! Podemos estar projetando o futuro e reprojetando o passado, sem nunca viver o presente.

Inspiração: Click, entre diversas outras, inclusive ensinamentos do Dharma.

Ver também: Uma Palestra do Reverendo Dosho Saikawa

Bons amigos

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O que é um bom amigo? Será a definição de bom amigo aquele sempre pronto para me acompanhar em festas, jogos, qualquer diversão ou lazer? Aquele que sempre concorda com tudo que eu falo e penso? Ou aquele que gosta de tudo que eu gosto e não gosta de tudo que eu não gosto? Uma das definições mais antigas de um falso amigo é a do amigo de Jó: Na alegria ele aparece, na tristeza ele some.

Eu acho que a definição de um bom amigo é aquele que é um bom amigo, independente do que aconteça. É um bom amigo, simplesmente por ser. Lhe ajuda, não esperando absolutamente nada em troca. Ele lhe oferece ajuda nos momentos difíceis, é o mesmo na alegria e na tristeza, dá bons conselhos, é compassivo. Ele lhe acolhe nos momentos difíceis, o refreia de fazer coisas erradas (que possam causar seu próprio mal ou de outros), lhe encoraja a fazer o bem.

O engraçado é que muitas pessoas não buscam a amizade de verdadeiros bons amigos, e até se afastam deles - muitas vezes, por motivos bobos. Um bom e verdadeiro amigo pode não gostar muito de festas, pode nos dar conselhos dos quais não gostemos muito (por contrariar nossa vontade), pode não gostar do mesmo tipo de música, pode não corresponder às nossas expectativas sociais.

Agora, como posso eu mesmo ser um bom amigo? - Agindo da mesma forma, ou seja, sem condições, sem esperar nada em troca, sem ser interesseiro. Posso até mesmo retribuir a um bom amigo, sendo um bom amigo dele, não por ele esperar algo de mim, ou por eu esperar algo dele - simplesmente por ser um bom amigo.

Na verdade um excelente amigo, uma pessoa verdadeiramente admirável, é um bom amigo de qualquer pessoa, de todas as pessoas, sem distinção. É amigo até mesmo de seu inimigo. Ele não espera nada em troca para ser um bom amigo, absolutamente nada em troca, nem mesmo reconhecimento, nem ganho espiritual - age verdadeiramente incondicionalmente, a todo momento, em todos os lugares.

Ananda disse ao Buddha:
“Venerável senhor, isto é metade da vida espiritual, ter pessoas admiráveis como bons amigos.”
Respondeu-lhe o Buddha:
“Não diga isso, Ananda. Não diga isso, Ananda. Isso é toda a vida espiritual, Ananda, isto é, ter pessoas admiráveis como bons amigos."

Sorte

domingo, 23 de novembro de 2008

Sou uma pessoa de muita sorte. Tenho uma boa família, uma boa esposa, bons pais, bons irmãos, bons amigos. Um bom emprego, um bom chefe, boa saúde.

O Livro de Jó, um dos mais belos da Bíblia, conta a história de um homem muito afortunado, com muitos bens, uma bela família, muitos amigos e uma excelente saúde. Jó era também um grande praticante da religião dos judeus, fiel e temente a Deus. Numa fantástica cena teatral, o Adversário desafia Deus a testar a fé de Jó. Jó perde os bens, os amigos (que eram falsos), a saúde. Até aí Jó aceita tudo com resignação. Por fim até a esposa deixa Jó, e então ele ousa questionar a vontade divina, contrapondo-a com sua própria vontade. Segue então um grande sermão de Deus, e por fim Jó aceita seu destino resignando-se à vontade divina.

Assim como a de Jó, minha sorte também irá acabar. Pessoas queridas irão embora. Posso perder o emprego, posso adoecer e até mesmo morrer. Não há barganha com a mortalidade, essa é uma certeza inexorável. Tive porém uma imensurável sorte de conhecer o Buddhismo e encontrar bons professores e amigos. O Buddhismo ensina a verdade da impermanência. Porém também ensina como lidar com ela, com a prática cotidiana. Se incessantemente praticar, a sorte de poder praticar pode nunca se escapar.

Praticando o tempo todo

Não adianta eu sentar em zazen todos os dias, mas durante o resto do dia esquecer do Buddhismo, de Buddha, da prática. Uma hora me esforçar completamente na prática, e no momento seguinte abandoná-la completamente.

Diz o provérbio de Salomão (Provérbios 9:10): "O temor a Deus é o princípio da sabedoria". Isso tem a ver com se autovigiar o tempo todo, cada passo e respiração. Não necessariamente num sentido repressor, mas de auto-observação mesmo. O interessante é que quando me observo, muitas vezes me envergonho naturalmente de coisas que faço ou quase faço, porém que facilmente faria se não estivesse prestando atenção. Vergonha talvez não seja o termo exato, mas sim uma constatação gritantemente evidente de inadequação daquele ato com aquele momento. É como a criança que apronta quando o pai não está olhando, porém se contém naturalmente quando o pai está por perto, mesmo que o pai não fale nada.

Nas religiões teístas, essa autovigília se dá por respeito à uma autoridade divina superior. No Buddhismo, segue-se o ensinamento de Atenção Plena. De certa forma, agir displicentemente e sem atenção também é como desrespeitar o Buddha. Afinal, o Buddha ensinou a agir conscientemente e com atenção.

"O temor do Senhor é uma fonte de vida, para o homem se desviar dos laços da morte." (Provérbios 14:27)

"Que estejamos profundamente agradecidos pela oportunidade de estarmos serenos na prática incessante do Dharma e nos lamentemos profundamente se tivermos tal oportunidade tão rara e não praticarmos." (Mestre Dogen - Prática Incessante)

“E qual, praticantes, é o caminho que conduz ao incondicionado? Atenção plena no corpo: isso é chamado o caminho que conduz ao incondicionado." (Buddha - Kayagatasati Sutra, SN 43)

Inspirado por Living with the self by Rich Taido.

O Leão e o Cordeiro

sábado, 22 de novembro de 2008

Um dos símbolos mais conhecidos do Cristianismo é o do Leão e o Cordeiro. Cristo é o Cordeiro, que toma sobre si mesmo os pecados do mundo. Ao mesmo tempo é o Leão, trazendo consigo a espada. Juntos, leão e cordeiro representam a paz de Cristo.


O símbolo do leão também é muito usado no Buddhismo. O próprio Buddha comparou seu ensinamento com o rugido do leão. O rugido do leão é talvez o mais poderoso da natureza, podendo ser ouvido a vários quilômetros de distância. Similarmente, a palavra do Buddha atravessa os séculos, beneficiando uma imensidão de seres.


Ao longo do Evangelho, Cristo é insultado repetidas vezes, porém em nenhum momento responde com ofensa ao seu acusador. Ele recebe todo tipo de ofensas, é torturado e crucificado. Recebe tudo sobre si, sem se defender, tão manso e frágil como um cordeiro. "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica." (Lucas 6:29)


No Akkosa Sutra do Tripitaka, Buddha é insultado ferozmente pelo brâmane Akkosaka Bharadvaja pois um membro da sua família deixou o lar para seguir a Sangha de Buddha. Buddha escuta todos os insultos, sem reclamar ou rebater, e depois lhe oferece um ensinamento do Dharma. O brâmane fica tão impressionado que também se torna um discípulo de Buddha.


O tradicional texto zen conhecido como Canto da Libertação – Shodoka diz:

“Se as pessoas ofenderem e difamarem você, deixe-os:

eles estão brincando com fogo, tentando queimar o céu.

Quando eu os ouço, suas palavras são gotas de néctar

que me mostram que esse momento está livre de conceituação.

Palavras ofensivas são bençãos disfarçadas,

e meus ofensores bons professores.

Esta mente tem espaço para difamação e ofensa

e é ela mesma compaixão e paciência sem originação.”


Mas qual será a espada de Jesus Cristo? Aonde está o Leão? “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mateus 10:34) Mas se Cristo veio para salvar, como não trouxe a paz, e sim a espada?


Tal como Cristo, Buddha também nos oferece uma espada – o seu ensinamento, o método de prática Buddhista. Não conquista a paz por nós, só nos empresta a espada. Cada um tem que conquistar sua própria paz, ninguém pode fazer isso por nós. Temos que lutar para ajudar aos outros e alcançar nossa própria paz.

Perdendo o aqui e agora.

É engraçado como o tempo todo perco o momento atual, a sensação de que estou aqui e agora. O mínimo descuido, e a mente vai embora. Quando isso ocorre, percebo o momento atual com pouca clareza. Isso é estranho, parece que a mente não quer encarar o que está diante dela, o ego procura alguma outra coisa que atenda aos seus caprichos, ignorando o que está a sua frente. É uma fuga da realidade, da verdade, daquilo que é tal como é. É um auto-engano, um subterfúgio para atender à sua estranha vontade, de uma maneira incoerente com a sua própria natureza.

Mais um blog?

Afinal, por que mais um blog? O nome explica tudo.