Impermanência das sensações

terça-feira, 30 de dezembro de 2008


Poucas coisas são tão impermanentes quanto as sensações. Em um momento eu sinto cheiro de laranja. No momento seguinte eu sinto cheiro de café. No outro momento eu não sinto nenhum cheiro. Para cada lado que eu olho vejo coisas diferentes. Quando fecho os olhos não vejo nada, ou vejo algo escuro. Quando eu teclo sinto o tato nos dedos. Quando eu caminho sinto o tato nos pés. Quando bebo água sinto o tato molhado na boca. Quando minhas pernas estão dormentes não sinto o tato. Em um momento ouço uma pessoa falando. Em outro momento ouço o barulho do ônibus. Com uma certa raridade só ouço minha respiração. Às vezes sinto gosto de tomate, outras vezes de arroz, e outras ainda não sinto gosto algum. Por vezes sinto dor, ouço um barulho desagradável, sinto um cheiro horrível, vejo algo terrível ou sinto um gosto repugnante.

Apesar da certeza da inconstância das sensações, quase sempre dou um valor exagerado à elas, buscando-as, e outras vezes fugindo delas e rejeitando-as. Perseguir ou fugir talvez não seja a maneira adequada de lidar com elas. Qual o sentido de apegar-se às sensações ou rejeitá-las se certamente elas irão passar?

Definições

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008


A mente conceitual trabalha com definições. Geralmente a cada definição atribuímos um nome.

Definições são necessariamente arbitrárias (criadas pela mente), por exemplo: "mão". Na verdade, "mão" e "braço" são uma coisa só, mas criamos uma divisão imaginária, uma separação que no fundo não existe. Fazemos o mesmo com outras partes do corpo: pés, panturrilhas, joelhos, coxas, quadril, barriga, peito, ombros, pescoço, cabeça. Tudo são apenas nomes, que separam algo que na realidade é uma coisa só. O mesmo acontece com TODAS as coisas as quais damos nomes.


Diz a seção 21 do Sutra do Diamante:

AS PALAVRAS NÃO PODEM EXPRESSAR A VERDADE
AQUILO QUE AS PALAVRAS EXPRESSAM NÃO É A VERDADE

"Subhuti, não diga que o Tathagata tem o seguinte pensamento: 'Eu devo enunciar um Ensinamento'. Qualquer um que diga que o Tataghata enuncia um Ensinamento na verdade assassina o Buddha, e é incapaz de explicar o que eu ensino. A Verdade não é declarável; então "uma enunciação da Verdade" é apenas um nome que foi dado a ela'.

Da relatividade dos textos

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Cópia do Sutra do Diamante, o mais antigo livro impresso do mundo, datado de 868.

Às vezes eu releio um texto que eu mesmo escrevi, e o entendo de maneira diversa do que eu pretendia registrar enquanto estava escrevendo (pois consigo me lembrar do que eu realmente queria dizer). Muitas vezes encontro novos significados mbutidos nele, significados que eu não pretendia transmitir de fato. Fico pensando então que, se eu mesmo entendo meu próprio texto de maneira diferente, quanto mais outras pessoas que venham a ler meus textos! A princípio não há nenhuma garantia de que elas venham a entender o que eu queria dizer (não entrando no mérito se o que eu pretendia dizer era realmente relevante ou não). O mesmo ocorre com os textos de outras pessoas que eu mesmo leio; é impossível ter certeza de que realmente compreendi o que eu deveria ter compreendido.

Ou seja, além da provável possibilidade de eu cometer erros na elaboração de um texto (se é que é possível escrever um texto sem erros), dando margem à significâncias não-intencionais, há ainda a possibilidade da pessoa que estiver lendo não interpretar exatamente aquilo que eu queria dizer, seja por falta de atenção durante a leitura, opiniões e interpretações pessoais, ou até mesmo falta de conhecimento da própria linguagem escrita (coisas que também se aplicam ao papel do escritor). No limite extremo, qualquer entendimento pode ser impossível, como no caso do desconhecimento de uma língua estrangeira.

De maneira geral, quanto mais simbólico e poético um texto, tanto maior o número de interpretações possíveis. Na poesia, a ambiguidade e a multiplicidade de significados é muitas vezes desejável e até proposital. Assim, livros sagrados como os Vedas, a Bíblia e o Corão abrem margem para uma imensa quantidade de interpretações. Quando eu era criança entendia a Bíblia de um jeito, hoje entendo de um jeito completamente diferente (embora não necessariamente mais correto). Uma interpretação elaborada do Corão, por exemplo, leva em conta mais de 70 significados para cada verso do mesmo, desdobrados cada um em mais 70 significados.

A conclusão a que eu chego é que um texto em si não possui um significado próprio. Quem dá ou projeta o significado ao texto, no final das contas, é o próprio leitor.

Dessa maneira, a única maneira de preservar e transmitir um determinado significado ou ensinamento, é aquele que originalmente queria transmitir o significado averiguar junto ao receptor o que este compreendeu. As mesmas considerações também podem ser feitas com as demais formas de comunicação, em especial com a comunicação oral (embora nesse caso seja mais provável que haja uma verificação imediata da compreensão correta). Imagino que esse é um dos motivos (apenas um deles) da importância que é dada, em muitas escolas Buddhistas - particularmente no Zen - às linhagens de transmissão e à relação mestre-discípulo.

Vendo todos como Buddhas

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Do livro Polishing the Diamond, Enlightening the Mind de Jae Woong Kim:

"Se você praticar a mente ignorante (arrogante), você começa a não gostar de ninguém. Uma mente ignorante é uma mente não-saudável, e é uma fonte de disastre, infortúnios e ausência de sabedoria. Ela traz escuridão para a mente e sofrimentos para o corpo. Uma pessoa ignorante age como seu próprio inimigo.

Ao invés disso, veja a todos como um Buddha. Você vai descobrir muitas ações de Buddha nesses numerosos Buddhas futuros, e vai ser capaz de aprender com eles. Assim, através das duras reprovações e punições desse Buddhas, será difícil para você não se examinar e dificilmente não será desperto por eles.

O Rei Yu da China reverenciava a todos que apontavam suas faltas. Ele os agradecia profundamente, pois sem o seu insight ele teria que viver com o pesado fardo de suas limitações. Um dos estudantes de Confúcio lhe disse: 'Veja ali: um ladrão está sendo levado pelo oficial'. Confúcio disse: 'Eu acho que o seu professor está passando.' O estudante perguntou a Confúcio, 'Por que ele é meu professor?' Confúcio respondeu, 'Não está aquele ladrão arruinando sua vida para ensinar a você e a todos uma grande lição - nos mostrar os resultados do crime?'."

Em Polishing the Diamond, Enlightening the Mind de Jae Woong Kim

Vivos e não-vivos

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Minha mãe está viva. Ela está em outra cidade. Ela me ensinou muitas coisas. Ela está na minha lembrança. Boa parte das ações que tomo tem como base o que ela me ensinou.

O meu pai está vivo. Ele está em outra cidade. Ele me ensinou muitas coisas. Ele está na minha lembrança. Boa parte das ações que tomo tem como base o que ele me ensinou.

O meu avô não está mais vivo. Aonde ele está? Ele me ensinou muitas coisas. Ele está na minha lembrança. Boa parte das ações que tomo tem como base o que ele me ensinou.

O meu amigo não está mais vivo. Aonde ele está? Ele me ensinou muitas coisas. Ele está na minha lembrança. Boa parte das ações que tomo tem como base o que ele me ensinou.

Eu não estou vendo meu pai. Eu não estou vendo minha mãe. Eu não estou vendo meu avô. Eu não estou vendo meu amigo.

Eu não estou ouvindo meu pai. Eu não estou ouvindo minha mãe. Eu não estou ouvindo meu avô. Eu não estou ouvindo meu amigo.

Eu não estou tocando meu pai. Eu não estou tocando minha mãe. Eu não estou tocando meu avô. Eu não estou tocando meu amigo.

Qual a diferença, nesse exato momento, da minha mãe e meu pai para meu avô e meu amigo?

O som do silêncio

terça-feira, 16 de dezembro de 2008


Apenas o silêncio contém todos os sons.


ou


O que seria do silêncio se não fossem os barulhos?

A queda do vaso

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


Sexta-feira comprei uma plantinha com uma flor mais durável para colocar no altar do Buddha, de propósito, pois as flores rapidamente murchavam (embora durassem mais no altar do que em qualquer outro lugar). Sábado minha esposa tirou o vaso do altar para colocar a plantinha no sol.

O vento veio, a janela bateu, o vaso caiu e quebrou.

A vida rapidamente mostrou não há como lutar contra a impermanência. Eu queria uma flor para durar mais, e acabou durando menos que todas as outras. Talvez a flor no altar simbolize justamente a efemeridade de todas as coisas.


"Não deveríamos reclamar da impermanência, pois sem impermanência, nada é possível."
Thich Nhat Hanh

O Adversário

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Crédito da imagem: Miramax Films

Em determinado ponto do Evangelho (Mateus 4), Jesus Cristo retira-se para o deserto e é tentado pelo Adversário. O que o Adversário lhe oferece é exatamente aquilo que Jesus Cristo poderia ser por si mesmo, sendo o Filho de Deus: o domínio total de todos os reinos do mundo, ser literalmente o rei dominante sobre toda a terra. Jesus Cristo não cede à tentação e segue o seu destino.

Quando o príncipe Siddharta nasceu o seu pai, o Rei Suddhodana, consulta diversos sábios sobre o destino de seu filho. Suas previsões foram as seguintes: ou Siddharta se tornaria o maior rei que já surgiu no mundo, ou seria um grande líder espiritual. O rei, é claro, quis que o destino de seu filho fosse se tornar um grande rei, e por isso mantinha o filho o máximo possível dentro dos palácios. No entanto, Siddharta acaba descobrindo que precisava seguir a vida espiritual, e abandona o lar, se tornando mais tarde o Buddha.

Siddharta também foi tentado por Mara logo antes de sua iluminação. Mara tenta lhe atrair com suas belas filhas, com prazeres sensuais, tenta lhe causar medo com monstros e demônios horríveis.

Em determinado momento Siddharta reconhece Mara como sendo um ilusão de si mesmo. Nesse momento Mara é vencido, e Siddharta se torna o Buddha, o Desperto.

Tal cena é retratada no belíssimo filme "O Pequeno Buddha" de Bernardo Bertolucci:



Mara: "Você vai aonde os outros não se arriscam, Você quer ser meu Deus?; O arquiteto de minha casa?"
Siddhartha: "Finalmente eu encontrei a ilusão de mim mesmo, Sua casa não será mais construída."
Mara: "Mas você vive em mim; Eu sou a sua casa."
Siddhartha: "Oh, enganador; fantasma de meu próprio ego, você é pura ilusão. Você, a ilusão de mim mesmo, não existe. A terra é minha testemunha."

Perda de tempo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Diz Dôgen Zenji no Shobogenzo Zuimonki:

"Meu Mestre disse: Hoje aqui, amanhã desaparecidos! A questão da vida e da morte é o mais importante para nós! Se quisermos aprender ou praticar o que seja nesta vida que se esvai a cada momento, devemos praticar o Caminho. A prosa e a poesia são de uma inutilidade absoluta, para nós praticantes Zen. É melhor desistirmos dessas coisas o quanto antes! Estudando o buddhismo, não devemos nos enfronhar em muitos assuntos, menos ainda em quaisquer ensinamentos, esotéricos ou exotéricos. Isto também vale para as palavras dos buddhas e ancestrais."

Peço desculpas pela minha própria autocontradição.

Medo

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

"Eu não sou, eu não vou ser,
Eu não tenho, eu não vou ter,
Isso assusta as mentes infantis,
E extingue o medo no sábio."
Nagarjuna em Guirlanda Preciosa

Eu tenho muito medo.

Preguiça

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As desculpas que crio para não praticar (principalmente Zazen) são inúmeras. A minha criativade para encontrar justificativas para não praticar é digna de investigação. Algumas de minhas desculpas, historicamente recorrentes: "Está muito frio; está muito quente; é muito tarde; é muito cedo; estou com muita fome; estou muito satisfeito." Também: "Estou doente, estou cansado; depois eu pratico; já pratiquei antes; praticar nem é tão importante assim; agora tenho que assistir televisão; agora tenho que fazer outra coisa; agora tenho que descansar."

A raiz de todas essas desculpa é uma só: minha própria preguiça. Não é a toa que a preguiça é considerada um dos principais obtáculos para a prática.

Como as justificativas para não praticar são variadas e criativas, a única alternativa é praticar não importa o que aconteça ou quais forem as circunstâncias. Se estiver um calor insuportável eu tenho que pensar: "está um calor insuportável, que momento ótimo praticar!". Ou melhor ainda, nem penso em nada e apenas pratico. Se estiver um frio insuportável eu tenho que pensar: "está um frio insuportável, que momento ótimo praticar!". Ou melhor ainda, nem penso em nada e apenas pratico. A prática contínua alimenta a disciplina e a disciplina alimenta a prática contínua.

Disse o Buddha:
"Quem diz está muito quente, muito frio, muito tarde,
e deixa as coisas por fazer,
as oportunidades para fazer o bem
passam desapercebidas por tais homens.

Porém aquele que vê no frio ou no calor
menos que um pedaço de capim,
e que faz o que deve ser feito,
não irá perder a felicidade."

Nada a dizer

sábado, 6 de dezembro de 2008

Rio de Janeiro

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


Não gosto do Rio de Janeiro. A cidade do Rio de Janeiro é triste, nela existem mazelas extremas e contrastes gritantes.

Me parece que isso é muito egoísta de minha parte.

Deve a mãe amar mais o filho saudável que o filho doente? Deve o pai rejeitar o filho desvirtuado? Na parábola do filho pródigo, o pai recebe com festa o filho que abandonou a família e torrou sua herança.

Como disse Chesterton, a questão não é que este mundo é triste demais para ser amado ou alegre demais para não o ser; a questão é que, quando se ama alguma coisa, a sua alegria é a razão para amá-la, e a sua tristeza é a razão para amá-la ainda mais.

No Rio de Janeiro existem diversos extremos: não só o repetido e pisado contraste da riqueza e da pobreza, como também: o da sujeira e da limpeza, o da feiúra e da beleza, o da malandragem e da honestidade, o da maldade e da bondade, o da violência e da paz, o do orgulho e da humildade, o do preconceito e da compreensão.

De fato eu sou muito egoísta. Não gosto da cidade porque parte do que vejo me incomoda. Parte do que vejo não é exatamente como eu quero. Porém é esta cidade que me alimenta, que me dá abrigo e sustento. São as pessoas nela com quem eu compartilho a vida. Existem muitas coisas boas nessa cidade.

Se há algo na cidade que não gosto, o que devo fazer é agir da melhor forma possível para torná-la melhor. É isso o que eu posso fazer.

Porém, ao fim de tudo, resta uma questão um pouco estranha: será mesmo o "belo" algo separado do "feio"?

No fio da navalha

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


Em 1974 o equilibrista francês Philippe Petit realizou uma perigosa travessura com um o auxílio de um grupo de cúmplices: atravessou, sem autorização, as recém construídas Torres Gêmeas do World Trade Center equilibrando-se em um fino cabo de aço. Quando policiais o convenceram a sair do fio, após 45 minutos e oito travessias, foi imediatamente preso.

Questionado por jornalistas o motivo de sua empreitada, respondeu apenas, para decepção dos repórteres: "Não teve um porquê."

Pouco depois foi liberado da prisão em um acordo com a prefeitura de Nova Iorque, pelo qual fez apresentações de equilibrismo em escolas. Recentemente foi lançado um documentário contando a história da aventura: Man on wire.

No Shobogenzo Zuimonki [Capítulo 2 Caso 3], Dôgen Zenji conta um caso igualmente interessante:
Noutro dia, os discípulos do Mestre Eisai comentaram com ele: "Cremos estar a localização deste monastério perto demais do Rio Kano, se houver uma inundação isto atingirá nosso monastério também."

Sobre isto, o Mestre teve algo a comentar: "Porque se preocupar com futuras calamidades? Por exemplo, do monastério de Jetavana na Índia sobram tão somente os alicerces. Contudo, nem por tal razão qualquer mérito de sua construção foi perdido. Que enorme não será o mérito de aqui praticarmos, seja ao menos um, ou meio ano!"

Desta conversa é possível chegar à conclusão que, sendo seguramente levantar um monastério o empreendimento mais importante de nossa vida, devemos nos preocupar com calamidades futuras. Porém, mesmo sabendo disto, o Mestre estava ciente do verdadeiro sentido de se erigir um monastério. Avaliemos então as palavras de Mestre Eisai."

Pintura preciosa

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008


O momento atual é como um desenho feito com areia.

Tal como uma jóia, que é tanto mais preciosa quanto mais rara é, esse momento é único e portanto infinitamente valioso.

Tal como uma oração escrita na areia da praia e apagada pela primeira onda, o agora é sem paralelos e efêmero.

Tal como uma flor que desabrocha uma única vez e por um único instante antes de cair, cada instante é singular e incomparável.

Verdadeiramente uma pintura frágil e preciosa.

Generosidade sem condições (atualizado)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Entende-se como generosidade não só doações materiais, mas todo tipo de doação, seja a de trabalho voluntário até o próprio ensino do Dharma, considerada por Buddha como a forma de generosidade com maior alcance benéfico para os seres.

A generosidade realizada para obtenção de benefício próprio é considerada incompleta, não só no Buddhismo como também em outras tradições religiosas.

Jesus Cristo (Mateus 6, 1:4) adverte quanto a ser generoso para ser reconhecido por outras pessoas:
"Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto"

O texto zen Shodoka - O Canto da Libertação adverte ainda quanto a ser generoso em busca de recompensa divina ou espiritual:
"A caridade feita condicionada a recompensas celestiais
é como atirar flechas no céu.
Quando sua força é gasta, a flecha cai
assim como os seres ascendem e decaem."


O Bhagavad Gita (Capítulo 5 verso 12), a exemplo de diversos ensinamentos Buddhistas, adverte contra qualquer ação feita em busca de recompensas:
"Renunciando ao fruto de suas ações, o karma Yogi atinge um estado sublime de paz mental. Mas aquele que trabalha com o intuito de aproveitar os frutos de suas ações, assim apegado, fica preso no emaranhado da vida profana."
[Observação: no Buddhismo, entende-se como karma somente a ação em si, e não o resultado da ação - chamado de vipaka]
Cristo (Lucas 6:35) também fala sobre fazer o bem sem esperar nada em troca:
"Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus."

O Buddha no Sutra do Diamante afirma a mesma idéia:
"Subhuti, Bodhisattvas que alcançam méritos não devem ser algemados com desejos por recompensas."

É claro que é melhor que eu tente ser generoso, mesmo ainda apegado a alguma idéia de recompensa, do que não ser generoso de forma alguma. Mas é preciso que eu esteja atento para minimizar a possibilidade dessa generosidade se tornar um motivo de orgulho para o ego, fortalencendo-o.