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Devadatta

terça-feira, 2 de março de 2010

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Devadatta era primo de Buddha, e tornou-se um de seus discípulos, até ter se corrompido pelo próprio orgulho.

Devadatta é o grande "malvadão" das escrituras buddhistas. Cometeu três das mais graves ofensas possíveis no buddhismo: tentou matar o Buddha, causou um cisma na Sangha e incintou alguém a matar o próprio pai. Devido a essas e outras ofensas ele teria ido parar no pior dos infernos da cosmologia buddhista devido à lei da causa-e-efeito.

Interessante como a história de Devadatta foi preservada até hoje. Não foi escondida como algo incoveniente. Pelo contrário, serve de ensinamento. Isso faz dele uma espécie de "Buddha ao contrário", o que talvez seja tão efetivo em termos de exemplo quanto um "Buddha do lado certo".

Assim, Devadatta é, talvez da maneira inversa que teria se imaginado, um professor disfarçado, que ajuda inúmeros seres no Caminho. Um verdadeiro amigo.

Não é à toa que no Sutra de Lótus, Buddha Shakyamuni afirma que Devadatta será um Buddha no futuro. E que foi até seu professor em uma vida passada, tendo sido um bom amigo que o ajudou a encontrar o Caminho.

Mais alguns medos

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Se eu tenho medo de perder, é porque ainda não aprendi a doar.

Se eu tenho medo de errar, é porque ainda não larguei o orgulho de querer ser perfeito.

Se eu temo adoecer, é porque não aceito a impermanência inevitável da saúde.

Se eu temo envelhecer, é porque não aprendi a ser como uma criança todos os dias.

Se eu tenho medo de morrer, é porque ainda não aprendi a viver.

O Adversário

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Crédito da imagem: Miramax Films

Em determinado ponto do Evangelho (Mateus 4), Jesus Cristo retira-se para o deserto e é tentado pelo Adversário. O que o Adversário lhe oferece é exatamente aquilo que Jesus Cristo poderia ser por si mesmo, sendo o Filho de Deus: o domínio total de todos os reinos do mundo, ser literalmente o rei dominante sobre toda a terra. Jesus Cristo não cede à tentação e segue o seu destino.

Quando o príncipe Siddharta nasceu o seu pai, o Rei Suddhodana, consulta diversos sábios sobre o destino de seu filho. Suas previsões foram as seguintes: ou Siddharta se tornaria o maior rei que já surgiu no mundo, ou seria um grande líder espiritual. O rei, é claro, quis que o destino de seu filho fosse se tornar um grande rei, e por isso mantinha o filho o máximo possível dentro dos palácios. No entanto, Siddharta acaba descobrindo que precisava seguir a vida espiritual, e abandona o lar, se tornando mais tarde o Buddha.

Siddharta também foi tentado por Mara logo antes de sua iluminação. Mara tenta lhe atrair com suas belas filhas, com prazeres sensuais, tenta lhe causar medo com monstros e demônios horríveis.

Em determinado momento Siddharta reconhece Mara como sendo um ilusão de si mesmo. Nesse momento Mara é vencido, e Siddharta se torna o Buddha, o Desperto.

Tal cena é retratada no belíssimo filme "O Pequeno Buddha" de Bernardo Bertolucci:



Mara: "Você vai aonde os outros não se arriscam, Você quer ser meu Deus?; O arquiteto de minha casa?"
Siddhartha: "Finalmente eu encontrei a ilusão de mim mesmo, Sua casa não será mais construída."
Mara: "Mas você vive em mim; Eu sou a sua casa."
Siddhartha: "Oh, enganador; fantasma de meu próprio ego, você é pura ilusão. Você, a ilusão de mim mesmo, não existe. A terra é minha testemunha."

Sorte

domingo, 23 de novembro de 2008

Sou uma pessoa de muita sorte. Tenho uma boa família, uma boa esposa, bons pais, bons irmãos, bons amigos. Um bom emprego, um bom chefe, boa saúde.

O Livro de Jó, um dos mais belos da Bíblia, conta a história de um homem muito afortunado, com muitos bens, uma bela família, muitos amigos e uma excelente saúde. Jó era também um grande praticante da religião dos judeus, fiel e temente a Deus. Numa fantástica cena teatral, o Adversário desafia Deus a testar a fé de Jó. Jó perde os bens, os amigos (que eram falsos), a saúde. Até aí Jó aceita tudo com resignação. Por fim até a esposa deixa Jó, e então ele ousa questionar a vontade divina, contrapondo-a com sua própria vontade. Segue então um grande sermão de Deus, e por fim Jó aceita seu destino resignando-se à vontade divina.

Assim como a de Jó, minha sorte também irá acabar. Pessoas queridas irão embora. Posso perder o emprego, posso adoecer e até mesmo morrer. Não há barganha com a mortalidade, essa é uma certeza inexorável. Tive porém uma imensurável sorte de conhecer o Buddhismo e encontrar bons professores e amigos. O Buddhismo ensina a verdade da impermanência. Porém também ensina como lidar com ela, com a prática cotidiana. Se incessantemente praticar, a sorte de poder praticar pode nunca se escapar.