Caleidoscópio
segunda-feira, 28 de junho de 2010Não muito diferente da vida sem "adições".
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Anotação aleatória (LIV)
quarta-feira, 19 de maio de 2010Curiosamente,
a mente toma a exata forma do mundo
a cada momento.
Relatividade dos sentidos
quarta-feira, 17 de março de 2010
Para um besouro-esterqueiro, que se alimenta de fezes, uma bolinha de esterco deve ter gosto e cheiro maravilhosos!
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Sobre acreditar na Mente
segunda-feira, 26 de outubro de 2009(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]
Baseado na tradução de D.T.Suzuki
O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.
Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade
[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.
Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.
Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?
E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.
Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.
Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.
Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.
Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.
O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.
Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.
O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.
Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?
O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.
O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.
Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.
Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.
Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?
O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!
Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.
Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.
Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.
O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.
Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".
Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.
Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.
Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.
O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.
Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!
Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.
Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.
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Testemunho
sexta-feira, 12 de junho de 2009De fato, eu não sei nada. Ou como disse Sócrates: "Só sei que nada sei."
Tudo o que eu acho que sei, até mesmo a quase totalidade das hipóteses científicas e históricas, na verdade foram outras pessoas que pesquisaram e testaram. Eu acredito nelas somente, mas de fato eu não sei realmente, se por exemplo, a teoria da relatividade foi realmente vastamente testada e comprovada, ou se o homem um dia pisou na Lua (embora eu acredite, é claro).
Nem mesmo no que eu mesmo testemunhei no passado eu posso confiar, pois isso dependeria de minha memória, que na verdade não é uma cópia exata de todas as sensações e percepções e está sujeita às mais diversas falhas.
A única coisa que eu posso saber, é o que está diante de mim agora, o que eu estou testemunhando nesse exato momento. Todo o resto é como um sonho duvidoso.
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A perspectiva de terceira pessoa (Parte II: Deus)
quarta-feira, 8 de abril de 2009Durante o período em que fiquei sem a referência benéfica de orientação dos meus pais, passei por um jejum espiritual bastante temível em que eu tendi para idéias niilistas, duvidando da existência de um significado da vida como um todo. A religião cada vez mais deixava de me satisfazer intelectualmente (e nesse período minha mente foi dominada por uma espécie de extremismo de racionalismo); ao conhecer as idéias de diferentes religiões elas pareciam aparentemente contraditórias, e sendo aparentemente impossível discernir qual delas seria a verdadeira, se é que uma realmente era verdadeira.
Após muitos altos e baixos, uma sede espiritual extremamente intensa naquela época me fez voltar a acreditar em Deus, ou em alguma coisa que eu não sabia bem o que era ou como definir (um princípio transcendente superior), mas que eu sentia como sendo verdadeira e que dava sentido à vida. Não sendo isso atrelado à uma religião específica, e após ter conhecido alguns clássicos de religião comparada, passei a entender as religiões de uma maneira bem diferente e menos contraditória.
Deus passou a ser para mim uma referência externa confiável, um farol, a quem eu deveria obedecer e respeitar, além dos meus próprios desejos e vontade, sendo eu algo infinitamente pequeno em comparação a Deus, mas ainda assim relevante. Isso de certa forma era um conforto espiritual muito grande, sendo muito melhor do que o total egocentrismo pelo qual eu passei.
Mas quem ou o que é Deus? Essa é uma definição bastante complicada, à qual diferentes pessoas irão responder diferentes coisas.
A maioria dos professores buddhistas defendem a posição de que não existe um Deus criador e eterno, em consonância com o argumento de Nagarjuna.
Eu (não sou professor muito menos autoridade, e mesmo se fosse isso seria só minha opinião) pessoalmente acredito que a "existência" ou "não-existência" de Deus independe de argumentos, já que estes só se baseiam em definições nebulosas e arbitrárias, em palavras. "Deus" é só uma Palavra. Mas sinto que a crença em Deus, ou num princípio superior transcendente e absolutamente confiável é muito benéfica e confortante para um imenso número de pessoas, e na minha opinião incomparavelmente melhor que um niilismo ou um egocentrismo exarcebado.
Definições são somente definições, e não são as coisas tais como elas são. Mas se me perguntassem o que eu entendo por Deus eu diria isso: Deus, para mim, é Tudo, e sendo assim, também é Nada.
"Porque és pó, e ao pó tornarás" (Gênesis 3:19)
Impermanência das sensações
terça-feira, 30 de dezembro de 2008Poucas coisas são tão impermanentes quanto as sensações. Em um momento eu sinto cheiro de laranja. No momento seguinte eu sinto cheiro de café. No outro momento eu não sinto nenhum cheiro. Para cada lado que eu olho vejo coisas diferentes. Quando fecho os olhos não vejo nada, ou vejo algo escuro. Quando eu teclo sinto o tato nos dedos. Quando eu caminho sinto o tato nos pés. Quando bebo água sinto o tato molhado na boca. Quando minhas pernas estão dormentes não sinto o tato. Em um momento ouço uma pessoa falando. Em outro momento ouço o barulho do ônibus. Com uma certa raridade só ouço minha respiração. Às vezes sinto gosto de tomate, outras vezes de arroz, e outras ainda não sinto gosto algum. Por vezes sinto dor, ouço um barulho desagradável, sinto um cheiro horrível, vejo algo terrível ou sinto um gosto repugnante.
Apesar da certeza da inconstância das sensações, quase sempre dou um valor exagerado à elas, buscando-as, e outras vezes fugindo delas e rejeitando-as. Perseguir ou fugir talvez não seja a maneira adequada de lidar com elas. Qual o sentido de apegar-se às sensações ou rejeitá-las se certamente elas irão passar?
Postado por Jōken às 19:16 0 comentários
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