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Haiku 8

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Não há nada
igual a só sentar
Todos os dias

Olhando no espelho (Quem eu sou?)

domingo, 28 de fevereiro de 2010


Olhar no espelho é um tema interessante; irei escrever aqui só umas poucas coisas sobre esse assunto inesgotável.

Às vezes me olho no espelho, e vejo somente coisas bobas: estou descabelado, estou com uma espinha, estou abatido, estou com olheira, estou feio, estou bonito, sou feio, sou bonito.

Mas já me peguei algumas vezes olhando para o espelho e tendo uma experiência muito estranha, e às vezes até assustadora: que aquela pessoa diante de mim não era "eu" mesmo. O que isso significa?

Essa parece ser uma pergunta de máxima importância, e difícil de responder. Dela surgem ainda mais perguntas, todas parecidas: Se essa pessoa que aqui escreve não é verdadeiramente eu, então quem sou eu? Se essas mãos e esses dedos que tocam as teclas não são meus, então, de quem são? Se essa face que aparece no espelho não é minha verdadeira face, então onde ela está?

Outras pessoas já se fizeram essa pergunta, e chegaram a respostas interessantes. Além das tradicionais respostas contidas em koans, uma resposta literariamente interessante está no famoso livro Siddharta, de Hermann Hesse, que é certamente um dos melhores livros que eu já li.

Sem entregar nada do livro pra quem não tenha lido, uma resposta resumo: Nada em particular, tudo em geral.

Nada é independente

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada é independente.

(Desculpe pelas repetições).

Nada é independente, ou "nada" é independente?

Meditação sobre um campo florido

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nada importante, infinitamente importante.

Mesmo depois que eu morrer, nada irá mudar.
O sol continuará nascendo, as primaveras virão.
As flores brotarão, os pássaros voarão no céu.
Os filhos de meus amigos brincarão nos gramados.

Certamente, daqui a mil anos, ninguém sentirá a minha falta.
Não sou nada importante.

Quando eu morrer, nada irá mudar. É verdade, pessoas próximas deverão sentir muito a minha falta. Nos separar daqueles que amamos é sofrimento, inevitável. Será muito triste, certamente muito triste.

Pensando bem, acho que eu sentiria falta até mesmo de sentir uma dorzinha no joelho. Até mesmo dos meus espirros.

Pensando melhor, quem haverá para sentir falta dessas coisas?

Só agora sinto falta por antecipação. Depois, não haverá ninguém para sentir falta disso.

É uma pena. É verdadeiramente muito triste. Mas acho que se pudesse, até mesmo da tristeza eu sentiria falta.

Dizer adeus a tudo, parece que será muito difícil. No entanto, também parece que tudo estará no seu devido lugar.

Talvez daqui a mil anos, alguém venha a ler esse exto. Talvez entenda o que eu quero dizer com ele. Talvez não. Mesmo se eu estivesse diante dele, será que ainda assim nos entenderíamos?

Biologicamente vivo ou morto, será que há mesmo muita diferença quando eu falo com alguém?

Quando eu falo com alguém, será que a pessoa me ouve mesmo? Quando alguém fala comigo, será que eu ouço a pessoa mesmo?

Às vezes sim, às vezes não. Às vezes parece que eu só falo comigo mesmo.

Mesmo sem que eu perceba, certamente há mil vozes de mil anos atrás escondidas nesse silêncio de agora.

Será que daqui a mil anos, alguém conseguirá nos ouvir no silêncio de um campo florido?

Sobre aquilo que é meu e aquilo que não é meu

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

(Esse texto é uma outra forma de dizer: Nada disso sou Eu, ou Nada disso é Meu.)

O que é meu, de fato? O que me pertence? Pensando bem, nada é meu. Assim que eu morrer, tudo aquilo que eu achava que era meu vai pertencer a outro (ou melhor dizendo, alguém vai achar que aquilo lhe pertence, como eu achava antes!).

Alguém pode até achar que algo lhe pertença, ainda que temporariamente, mas até isso é uma ilusão. Digamos que uma pessoa rica tenha dez fazendas. Ela até pode dizer: "Eu tenho dez fazendas, dez fazendas são minhas". Isso pode estar registrado em cartório, em leis, em promulgações reais, seja o que for. Mas as fazendas são realmente dessa pessoa? Enquanto ela está em uma fazenda, nove outras fazendas estão com outras pessoas e animais, que nelas trabalham, vivem, e a usam para diversas coisas. Até na própria fazenda em que a pessoa está, ela não pode tê-la toda ao mesmo tempo. Em um lado da fazenda uma vaca é ordenhada pelo capataz. No outro canto um rio corre vagarosamente, peixes nadam. As árvores crescem, os pássaros cantam. O fazendeiro pode até pensar: "O canto do pássaro também me pertence", enquanto o filho do capataz pensa consigo "Que canto bonito!"

O sentimento de posse ocorre pras mais diversas coisas, desde amores, idéias, até mesmo a própria condição física. Eu posso pensar: esse corpo é meu, essa condição física é minha. Mas nada que eu faça irá evitar que o meu corpo envelheça. Até mesmo o maior atleta do mundo pode ter uma doença que abale sua condição física. Nem o cofre mais seguro do mundo pode impedir que alguém use a "minha" idéia, ou mesmo que tenha a mesma idéia que eu tive!

Em resumo, nada é meu.

Mas nada impede o filho do capataz de dizer: "O mundo todo é meu!" - e, de certa forma, ele não está errado!

A Queda de Adão

domingo, 16 de agosto de 2009

(Atenção! O texto a seguir é potencialmente inapropriado, vide algumas ressalvas em Avisos.)


A Queda de Adão, ou A Queda do Homem, ou simplesmente 'a Queda' é talvez o símbolo e o ponto fundamental da Bíblia. Muitos levam a história de Adão e Eva ao pé da letra, outros a descartam como mitologia inventada arbitrariamente, ou pura historinha de criança. Eu já gosto de interpretá-la simbolicamente, o que é somente meu ponto de vista. De um certo modo, todos estão certos. De outro certo modo, todos estão errados.

Minha interpretação particular é de que a Queda do Homem simboliza simplesmente a separação do homem de Deus, ou separação de sua Natureza Original, ou em outras palavras, a dualidade inicial. Na Bíblia isso ocorre quando Adão e Eva comem da fruta da 'Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal'. Mais genericamente, poderia-se dizer que é a Árvore do Conhecimento de todas as dualidades e diferenciações: Bem e Mal, Sujeito e Objeto, Dentro e Fora, Eu e Não-Eu, Grande e Pequeno, Longe e Perto, etc. Poderia-se dizer que essas dualidades, ou separações, são a origem do sofrimento. (Desculpem-me pela fuga da interpretação tradicional de "pecado original", mas no momento estou querendo generalizar o máximo o possível.)

A Árvore é 'do Conhecimento' simplesmente porque essas diferenciações são meramente interpretativas/cogniscíveis, isto é, não são reais de um ponto de vista universal/absoluto, no máximo aparentemente reais de um ponto de vista particular/relativo, ou a partir de definições arbitrárias/axiomáticas.

Até onde sei, quase todas as religiões falam de algo parecido com a Queda de Adão de uma forma ou de outra.

No Taoísmo, eu diria que a Queda de Adão dá-se a partir da dualidade inicial, ou Yin e Yang. Antes da dualidade, há a Unicidade fundamental, ou Taiji. E antes da Unicidade, há o Nada fundamental ou Wuji.

No Budismo, a dualidade inicial é a Forma-Vazio. Mas diz o Sutra do Coração: forma é vazio, vazio é forma. A forma em si é vazio, o vazio em si é forma. Ou seja, ambos forma e vazio não possuem existência independente/inerente. Quando o Boddhisatva Avalokitesvara "viu" claramente que todos os agregados são vazios de existência independente/inerente, ele se libertou de todo o sofrimento.

O caso 23 da coleção de koans Mumonkan segue assim:

Eno, o Sexto Patriarca do C'han (Zen) Chinês, estava sendo perseguido pelo monge Emyo até Daiyurei. O patriarca, vendo que Emyo estava chegando, soltou o manto e a tigela em uma pedra, e disse a ele:
- Esse manto representa a fé. Por acaso ele deve ser disputado pela força? Você pode tomá-los agora.
Emyo foi até a tigela e o manto porém eles eram tão pesados quanto montanhas. Ele não conseguia movê-los. Hesitando e tremendo, ele perguntou ao Patriarca:
- Eu vim pelo ensinamento, não pelo manto. Por favor, me desperte!
O patriarca lhe perguntou:
- O que é primordialmente Emyo (isto é, sua Face Original), se você não pensar 'isto é o bem' nem pensar 'isto é o mal'?
Naquele momento, Emyo teve um grande despertar.


Meu comentário: O grande despertar de Emyo parece com a Queda de Adão, ao contrário.



P.S.:

Alguém pode dizer que eu estou forçando a barra, querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. E ele está certo, realmente eu estou forçando a barra, e estou querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. De qualquer forma é tudo uma questão de simbologia. Ou seja, tanto faz eu dizer que o gato está subindo na mesa, ou o cachorro descendo da mesa. Nesse caso, eu quero dizer que o cachorro é o gato e descer é subir. A mesa é mesa mesmo, para não complicar muito. Ou seja, o importante é estarmos falando da mesma coisa. Ou a mesma lua sendo apontada pelo dedo. Meditadores, programadores e linguistas talvez me entendam mais facilmente.

Anotação aleatória (XXXV)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Aquele que nada quer tem tudo,
Aquele que tudo quer não tem nada.
(Embora ambos no fundo tenham a mesma coisa!)