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Vasubandhu’s Triṃśikā-kārikā

quarta-feira, 27 de maio de 2020

[25] The ultimate [nature] of [all] dharmas is also Suchness (tathatā), because its nature is always just as it is. It is just the state of cognition-only (vijñapti-mātra).

Vasubandhu’s Triṃśikā-kārikā, ‘Thirty Verses’ draft translation by Sāgaramati

O Caminho da Tranqüilidade

sábado, 28 de agosto de 2010



O ensinamento abaixo faz parte do texto "O Despertar da Fé Mahayana", atribuído tradicionalmente a Ashvaghosha (Anabotei Dai-Oshô na linhagem Zen). A versão existente mais antiga é a chinesa, datada do ano 553, tradução do sânscrito para o chinês de Paramartha (tradutor também para o chinês do Compêndio do Abhidharma, de Vasubandhu - Bashubanzu Dai-Oshô). O texto tem  vários séculos, mas essencialmente é a mesma instrução que é dada atualmente para os praticantes de zazen-shikantaza, quanto à atitude mental durante o zazen.

"Aqueles que irão praticar o 'aquietamento' devem se retirar a um lugar tranqüilo, e lá, sentando de modo ereto, sinceramente procurar tranqüilizar e concentrar a mente. A princípio pode-se pensar na própria respiração, mas não é sábio continuar essa prática por muito tempo, nem deixar a mente descansar em qualquer aparência particular, ou visões, ou concepções, surgidas dos sentidos, tais como os elementos primários terra, água, fogo e éter, nem deixá-la descansar em qualquer das percepções da mente, particularizações, discriminações, humores ou emoções. Todos os tipos de idealizações devem ser descartados tão logo que surjam; até mesmo as noções de controlar e descartar devem ser abandonadas. A mente deve ser como um espelho, refletindo as coisas, mas sem julgá-las ou retê-las. As concepções por elas mesmas não têm substância, deixe-as surgirem e irem embora livremente. Concepções surgidas dos sentidos e da mente inferior não tomarão forma por elas mesmas, a não ser que sejam agarradas pela atenção; se forem ignoradas, não haverá nem aparecimento nem desaparecimento. O mesmo é verdade para condições fora da mente; não se deve permitir que elas capturem a atenção e atrapalhem a prática. A mente não pode ficar absolutamente vazia, e como os pensamentos surgidos dos sentidos e da mente inferior são descartados e ignorados, devem ser substituídos pela mentalização correta. Surge então a pergunta: O que é mentalização correta? A resposta é: mentalização correta é a realização da própria mente, da sua Natureza* pura e não-diferenciada.  Quando a mente está fixada em sua Natureza pura, não deve restar nenhuma noção persistente de eu, nem de eu no ato de realizar, nem de realização como fenômeno... "

Ashvaghosha - O Despertar da Fé Mahayana (in: The Perennial Philosophy, por Aldous Huxley)



* Optei na tradução pela palavra Natureza ao invés da palavra "Essência" já que esta parece ser atualmente evitada por tradutores budistas por confundir-se com outros conceitos pré-estabelecidos de essência na  filosofia ocidental.

Anotação aleatória (XLIX)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Verdade não pode ser expressada: Ela se expressa por si mesma.

Devadatta

terça-feira, 2 de março de 2010

,

Devadatta era primo de Buddha, e tornou-se um de seus discípulos, até ter se corrompido pelo próprio orgulho.

Devadatta é o grande "malvadão" das escrituras buddhistas. Cometeu três das mais graves ofensas possíveis no buddhismo: tentou matar o Buddha, causou um cisma na Sangha e incintou alguém a matar o próprio pai. Devido a essas e outras ofensas ele teria ido parar no pior dos infernos da cosmologia buddhista devido à lei da causa-e-efeito.

Interessante como a história de Devadatta foi preservada até hoje. Não foi escondida como algo incoveniente. Pelo contrário, serve de ensinamento. Isso faz dele uma espécie de "Buddha ao contrário", o que talvez seja tão efetivo em termos de exemplo quanto um "Buddha do lado certo".

Assim, Devadatta é, talvez da maneira inversa que teria se imaginado, um professor disfarçado, que ajuda inúmeros seres no Caminho. Um verdadeiro amigo.

Não é à toa que no Sutra de Lótus, Buddha Shakyamuni afirma que Devadatta será um Buddha no futuro. E que foi até seu professor em uma vida passada, tendo sido um bom amigo que o ajudou a encontrar o Caminho.

As partes e o Todo (ou: Relação entre as mentes)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nota de observação: O texto a seguir, bem como demais textos desse blog, corresponde somente ao entendimento atual do autor. Esse entendimento não é definitivo e absoluto, sendo pelo contrário, relativo, e podendo ser alterado com o tempo. Dessa forma, qualquer coisa aqui escrita não deve ser tomada como certa ou como verdade por ninguém.


- Você e eu, como seres sencientes, experenciamos, nesse exato momento, uma parte da Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes.

- Uma experiência inclui/exclui todas as outras (pois na experiência do gosto da laranja está implícita a não-experiência do gosto da maçã, experiência que inclusive poderia ser simultânea).

- Aquilo que eu sou nesse exato momento é indiscernível da experiência desse exato momento.

- Assim os seres sencientes são tão inúmeráveis quanto as diferentes variações de experiências que existem, e são indistintos delas.

- Portanto a Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes não é senão o próprio conjunto de Seres Sencientes.

- Quem disse que "este ser" é separado da Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes?

- Assim, quem disse que "este ser" é separado dos demais Seres Sencientes?

- Mesmo que a minha experiência desse exato momento seja parcialmente diferente da sua experiência nesse exato momento, a minha experiência somada à minha não-experiência é indiscernível da sua experiência somada à sua não-experiência.

- Essa experiência somada à não-experiência a cada momento corresponde exatamente à própria Totalidade-das-Experiências-Experenciáveis-pelos-Seres-Sencientes.

- Assim, não seria absurdo alguém momentaneamente perceber, ao experimentar um doce, que todos os seres do mundo experimentam o doce com ele. Isso porém necessitaria que esse alguém momentaneamente esquecesse de ser alguém separado, que esquecesse de si mesmo.

- Portanto também não seria absurdo dizer que quando alguém senta em zazen, todos os seres do mundo sentam em zazen com ele. E a experiência de "apenas sentar" é indiscernível da prática de Buddha, sendo portanto indiscernível do próprio Buddha e da própria Iluminação.

Sobre acreditar na Mente

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]

Baseado na tradução de D.T.Suzuki


O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.

Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade

[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.

Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.

Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?

E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.

Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.

Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.

Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.

Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.

O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.

Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.

O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.

Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?

O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.

O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.

Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.

Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.

Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?

O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.

Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.

Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.

O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.

Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".

Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.

Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.

Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.

O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.

Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!

Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.



Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.

Mula madhyamaka karika (Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio) - Capítulo 25

domingo, 4 de outubro de 2009

A quem possa interessar. Uma tradução de tradução pessoal do capítulo 25 do Mulamadhyamakakarika, um pouco truncada, com alguns comentários meus, para estudo pessoal.

Traduzido de http://www.stephenbatchelor.org/verses2.htm


Capítulo 25. Investigação do Nirvana

1. Se tudo fosse vazio, então não haveria originação e cessação. Do abandono de que e da cessação de que alguém poderia referenciar o Nirvana?

[Comentário meu: Nirvana é definido como a cessação de duhkha. Se não houvesse duhkha, tampouco poderia haver Nirvana. O mesmo se aplica a Nirvana e Samsara.]

2. Se tudo não fosse vazio, não haveria originação e cessação. Do abandono de que e da cessação de que alguém poderia referenciar o Nirvana?
[Comentário meu: vazio = sem existência independente/inerente.]

3. Nenhum abandono, nenhum alcançar, nenhuma aniquilação, nenhuma permanência, nenhuma cessação, nenhum nascimento: assim é dito do nirvana.

4. Nirvana não é uma coisa. Se fosse, teria características de envelhecimento e morte. Não existe nenhuma coisa que seja sem envelhecimento e morte.

5. Se Nirvana fosse uma coisa, Nirvana seria um fenômeno condicionado. Não existe nenhuma coisa em nenhum lugar que não seja um fenômeno condicionado.

6. Se Nirvana fosse uma coisa, como poderia o Nirvana não ser dependente? Não existe absolutamente nenhuma coisa que não seja dependente.

7. Se Nirvana não fosse uma coisa, como poderia possivelmente ser uma não-coisa? Para aquele que o Nirvana não é uma coisa, para ele o Nirvana tampouco é não-coisa.

[Comentário meu: Estou traduzindo thing como coisa e nothing como não-coisa, ao invés de nada. Se Nirvana não for definido como uma coisa, tampouco pode ser definido como uma não-coisa, pois coisa e não-coisa são definidos simultâneamente, e um depende do outro. Estou tentando evitar ao máximo possível a palavra nada pois ela confunde muito a lógica - que de qualquer modo logo vai ficar confusa.]

8. Se Nirvana não fosse não-coisa, como poderia o Nirvana ser possivelmente não-dependente? Não existe nenhuma não-coisa que seja não-dependente.

[Comentário meu: De novo traduzindo nothing como não-coisa, ao invés de nada. Isso para tentar deixar um pouco mais claro no verso que não-coisa não pode independente/não-dependente (se coisa é dependente, não-coisa também é, pois uma é definida a partir da outra.)]

9. Quaisquer coisas que venham ou vão são dependentes ou causadas. Não ser dependente e não ser causado é ensinado como sendo o Nirvana.
[Comentário: Nirvana = Incondicionado.]

10. O professor ensinou [que o Nirvana é] abandonar a originação e a cessação. Assim, é correto dizer que o Nirvana não é uma coisa ou uma não-coisa.

11. Se Nirvana fosse ambas coisa e não-coisa, consequentemente seria uma coisa e não-coisa. Isso é incorreto.

12. Se Nirvana fosse ambas coisa e não-coisa, Nirvana não seria não-dependente, pois dependeria dessas duas.

13. Como poderia o Nirvana ser ambos uma coisa e uma não-coisa? Nirvana é incondicionado; coisas e não-coisas são condicionadas.

14. Como poderia o Nirvana existir como ambas coisa e não-coisa? Essas duas não existem como uma. Elas são como claro e escuro.

15. A apresentação de nem coisa nem não-coisa como sendo o nirvana seria estável apenas se coisa e não-coisa fossem estáveis.
[Comentário meu: Nem coisa nem não-coisa são definidas a partir de coisa e não-coisa, portanto também são dependentes de coisa e não-coisa, e portanto, não-estáveis.]

16. Se Nirvana é nem uma coisa nem não-coisa, por quem "nem coisa nem não-coisa" seria percebida?

17. Depois que o Abençoado entra no Nirvana, alguém não pode percebê-lo como "existindo" ou como "não existindo" ou como "ambos existindo e não existindo" ou "nem existindo nem não existindo".
[Comentário meu: Abençoado = Buddha, Nirvana = Parinirvana, ou seja, após a morte do Buddha. São as quatro negações além do pensamento conceitual, ou que simplesmente não se aplicam ao pensamento conceitual.]

18. Mesmo enquanto o Abençoado está vivo, alguém não pode percebê-lo como "existindo" ou como "não existindo" ou como "ambos existindo e não existindo" ou "nem existindo nem não existindo".

19. Samsara não é minimamente distinto de Nirvana. Nirvana não é minimamente distinto de Samsara.

20. Qualquer que seja o fim do Nirvana, é o fim de Samsara. Não há nem mesmo uma mínima muito sutil distinção entre Nirvana e Samsara.

21. Visões sobre morte, fim, e permanência são contingentes a partir do Nirvana e fins posteriores e fins anteriores.
[Meu comentário: Não entendi.]

22. Sendo todas as coisas vazias, o que tem fim? O que não tem fim? O que é simultaneamente com fim e sem fim? O que nem tem fim nem não tem fim?

23. Há isso? Há aquilo? Há permanência? Há simultaneamente permanência e impermanência? Há nem permanência nem impermanência?

24. Pacificar totalmente todos os referenciais e pacificar totalmente todas as fixações é paz. O Buddha em nenhum lugar ensinou nenhum dharma a ninguém.
[Comentário meu: Uma possível apresentação 'positiva'- Como o Buddha poderia ensinar alguém, se ele não é separado de ninguém? Como o Buddha poderia estar em algum lugar específico, se ele está em todo lugar? Como poderia ensinar algum dharma, se não há nada que não seja dharma?]

A Queda de Adão

domingo, 16 de agosto de 2009

(Atenção! O texto a seguir é potencialmente inapropriado, vide algumas ressalvas em Avisos.)


A Queda de Adão, ou A Queda do Homem, ou simplesmente 'a Queda' é talvez o símbolo e o ponto fundamental da Bíblia. Muitos levam a história de Adão e Eva ao pé da letra, outros a descartam como mitologia inventada arbitrariamente, ou pura historinha de criança. Eu já gosto de interpretá-la simbolicamente, o que é somente meu ponto de vista. De um certo modo, todos estão certos. De outro certo modo, todos estão errados.

Minha interpretação particular é de que a Queda do Homem simboliza simplesmente a separação do homem de Deus, ou separação de sua Natureza Original, ou em outras palavras, a dualidade inicial. Na Bíblia isso ocorre quando Adão e Eva comem da fruta da 'Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal'. Mais genericamente, poderia-se dizer que é a Árvore do Conhecimento de todas as dualidades e diferenciações: Bem e Mal, Sujeito e Objeto, Dentro e Fora, Eu e Não-Eu, Grande e Pequeno, Longe e Perto, etc. Poderia-se dizer que essas dualidades, ou separações, são a origem do sofrimento. (Desculpem-me pela fuga da interpretação tradicional de "pecado original", mas no momento estou querendo generalizar o máximo o possível.)

A Árvore é 'do Conhecimento' simplesmente porque essas diferenciações são meramente interpretativas/cogniscíveis, isto é, não são reais de um ponto de vista universal/absoluto, no máximo aparentemente reais de um ponto de vista particular/relativo, ou a partir de definições arbitrárias/axiomáticas.

Até onde sei, quase todas as religiões falam de algo parecido com a Queda de Adão de uma forma ou de outra.

No Taoísmo, eu diria que a Queda de Adão dá-se a partir da dualidade inicial, ou Yin e Yang. Antes da dualidade, há a Unicidade fundamental, ou Taiji. E antes da Unicidade, há o Nada fundamental ou Wuji.

No Budismo, a dualidade inicial é a Forma-Vazio. Mas diz o Sutra do Coração: forma é vazio, vazio é forma. A forma em si é vazio, o vazio em si é forma. Ou seja, ambos forma e vazio não possuem existência independente/inerente. Quando o Boddhisatva Avalokitesvara "viu" claramente que todos os agregados são vazios de existência independente/inerente, ele se libertou de todo o sofrimento.

O caso 23 da coleção de koans Mumonkan segue assim:

Eno, o Sexto Patriarca do C'han (Zen) Chinês, estava sendo perseguido pelo monge Emyo até Daiyurei. O patriarca, vendo que Emyo estava chegando, soltou o manto e a tigela em uma pedra, e disse a ele:
- Esse manto representa a fé. Por acaso ele deve ser disputado pela força? Você pode tomá-los agora.
Emyo foi até a tigela e o manto porém eles eram tão pesados quanto montanhas. Ele não conseguia movê-los. Hesitando e tremendo, ele perguntou ao Patriarca:
- Eu vim pelo ensinamento, não pelo manto. Por favor, me desperte!
O patriarca lhe perguntou:
- O que é primordialmente Emyo (isto é, sua Face Original), se você não pensar 'isto é o bem' nem pensar 'isto é o mal'?
Naquele momento, Emyo teve um grande despertar.


Meu comentário: O grande despertar de Emyo parece com a Queda de Adão, ao contrário.



P.S.:

Alguém pode dizer que eu estou forçando a barra, querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. E ele está certo, realmente eu estou forçando a barra, e estou querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. De qualquer forma é tudo uma questão de simbologia. Ou seja, tanto faz eu dizer que o gato está subindo na mesa, ou o cachorro descendo da mesa. Nesse caso, eu quero dizer que o cachorro é o gato e descer é subir. A mesa é mesa mesmo, para não complicar muito. Ou seja, o importante é estarmos falando da mesma coisa. Ou a mesma lua sendo apontada pelo dedo. Meditadores, programadores e linguistas talvez me entendam mais facilmente.

(De)Hierarquização das Coisas

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Não faz sentido dizer que uma coisa é melhor que outra. Não faz sentido eu dizer que uma grande árvore é melhor do que uma simples violeta. Cada uma tem a sua característica própria, bem diferente, porém nem inferior nem superior.

Eu posso até achar um árvore frutífera cheia de folhas mais bonita que um cacto. Porém isso é só minha opinião. A árvore e o cacto são o que são. Cada um tem sua função e características próprias. A natureza própria de um cacto é ser um cacto, e não uma outra coisa que alguém possa querer.

Não há como dizer que um ovo é melhor ou mais importante que uma galinha, ou vice-e-versa. Cada um tem seu espaço e importância. Cada um tem o seu papel específico, cada um a seu tempo e de seu jeito, tendo sido originado com causas e condições específicas.

Mesmo duas coisas, aparentemente de mesma categoria, não merecem ser comparadas. Eu poderia comparar dois pares de sapatos, um par novo e um par velho, e achar o par novo melhor. Porém isso seria uma absoluta bobagem. O par novo de hoje será o par velho de amanhã. E o par velho é velho pois me serviu por muito tempo. Por que ele seria pior?

Todas as coisas tem seu devido lugar e importância. Nada é mais ou menos que a outra. Essas comparações são meramente opiniões e comparações arbitrárias, inventadas pelo meu ego. De fato até a divisão das coisas é arbitrária, gerando essas comparações artificiais. No fundo todas as coisas parecem ser igualmente importantes, por serem interdependentes, mas também diferentemente importantes, no sentido de serem incomparáveis em suas diferentes funções e causas e condições específicas.

Lições durante o zazen

segunda-feira, 6 de julho de 2009

- Tentar fugir das dificuldades é somente adiá-las. Devo encará-las prontamente quando aparecem.

- Quanto mais eu me debato, não aceitando a situação atual, querendo estar em outro lugar, mais difícil ela se torna.

- Quanto mais maleável eu seja, aceitando o momento presente, sendo um com o momento, mais fácil ele se torna.

- A dificuldade rejeitada é dificuldade. A dificuldade abraçada é não-dificuldade.

- O que ocorre na vida ocorre no zazen. O que ocorre no zazen ocorre na vida.

- Zazen é a própria vida. Essa eu devo ao professor Genshô.

Anotação aleatória (XXXII)

domingo, 5 de julho de 2009

O que quer que eu ache que seja - não é isso. O que quer que eu seja - é isso.

Do crescimento das plantas

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um biólogo pode até tentar explicar por que uma planta cresce, mas para a planta aquilo que ela faz não tem um porquê. Nem dá para dizer que ela faz, ela é aquilo que é e pronto.

Não dá pra dizer que ela cresceu errado (nem certo). Não dá pra dizer que ela cresceu pouco (nem muito). Um agrônomo pode até traçar metas de crescimento para a planta, mas isso será somente o que ele acha que deve ser. A planta cresce do seu próprio jeito.

Observe que a planta, ao mesmo tempo que cresce somente sob certas condições (por exemplo com a presença da luz do sol e de água suficientes), não deixa de crescer livremente. Uma planta que tenha pouco sol pode crescer menos que uma planta com muito sol, mas não se sentirá oprimida com isso, nem inferior (nem superior). Ela cresce aquilo que é capaz de crescer, exatamente aquilo que é capaz, sem preguiça, sem pressa e sem competição. Pode-se dizer que ela cresce plenamente. Livremente.

Não sei se me fiz entender. Acho que eu também não entendi! Provavelmente estou escrevendo mais uma besteira.

Veja que ela cresce, aparentemente, com restrições, mas ao mesmo tempo, aparentemente, sem restrições. Isso é meio esquisito, não? Mas ao mesmo tempo, misteriosamente belo.

Vide também: Chuva e Anotação aleatória (XIV).

Diálogo artístico

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dois tolos conversam:
- Quem é você?
- (...)
- Não vai responder nada? Quem é você?
- Até o silêncio serve de resposta.

Versão Alternativa


Dois tolos conversam:
- Quem é você?
- (...)
- Não vai responder nada? Quem é você?
- Falando ou não falando, você confunde as palavras com a resposta.

Quem é Você?

sábado, 20 de junho de 2009


No filme "Tratamento de Choque" (Anger Management), com Jack Nicholson e Adam Sandler, Jack faz papel de um psicólogo, aparentemente meio maluco, que trata de um paciente (Adam), aparentemente normal, mas que tem explosões de raiva esporádicas. O filme, uma comédia até meio bobona, é irritantemente divertido, pois a maioria das tais explosões de raiva são (aparentemente) provocadas pelo próprio psicólogo.

Há uma cena interessante do filme, em que o psicólogo chama o paciente para uma terapia de grupo de pessoas explosivas, no estilo Alcoólicos Anônimos. Depois de diversos depoimentos melosos, o psicólogo pede o paciente se apresentar, respondendo à seguinte pergunta, aparentemente simples: "Quem é Você?"

Segue um diálogo mais ou menos assim (modificado e incrementado pela minha mente, pois faz tempo que vi o filme e não me lembro muito bem):

Psicólogo: Quem é Você?
Paciente: Meu nome é ... (interrompido)
Psicólogo: Espere, espere. Eu não estou perguntando qual o seu nome, e sim, Quem é Você?
Paciente: ... trabalho na empresa ...
Psicólogo: Eu não estou perguntando onde você trabalha, e sim, Quem é Você?
Paciente: ... tenho uma esposa que se chama ... (cada vez mais nervoso e irritado)
Psicólogo: Eu não estou perguntando qual o nome da sua esposa, e sim, Quem é Você?
Paciente: ... eu gosto de fazer isso e aquilo...
Psicólogo: Eu não estou perguntando qual o seu hobby, e sim, Quem é Você?

Aparentemente, temos uma dificuldade quase infinita de nos separarmos das demais coisas ao tentar responder essa pergunta.

Existe um koan introdutório muito usado por professores do Dharma ocidentais, por não precisar necessariamente de um conhecimento de contextos aos quais estudantes ocidentais não estão acostumados.

O koan consiste em perguntar a si mesmo: "Quem sou Eu?"

De acordo com os professores, não adianta tentar responder a pergunta racionalmente, ou cairemos necessariamente em algum labirinto de palavras como no filme. A resposta tem que vir das entranhas, "do fundo da alma", como se uma bola de ferro incandescente estivesse saindo da garganta.

Ainda sem responder o koan, quem sou eu (o autor)? Nesse momento, aqui vos escrevo. No momento seguinte...

Diga: Eu sou Tu (um poema de Rumi)

sábado, 13 de junho de 2009

(Um poema de Jalaluddin Rumi, místico sufi)

Sou as partículas de pó à luz do sol,
sou o círculo solar.

Ao pó digo: - Não te movas.
E ao sol: - Segue girando.

Sou a névoa da manhã
e a brisa da tarde.

Sou o vento na copa das árvores
e as ondas contra o penhasco.

Sou o mastro, o leme, o timoneiro e a quilha
e o recife de coral em que naufragam as embarcações.

Sou a árvore em cujo galho tagarela o papagaio,
sou silêncio e pensamento, e também todas as vozes.

Sou o ar pleno que faz surgir a música da flauta,
a centelha da pedra, o brilho do metal.

Sou a vela acesa e a mariposa girando louca ao seu redor.
Sou a rosa e o rouxinol perdido em sua fragrância.

Sou todas as ordens de seres,
a galáxia girante,

A inteligência imutável,
O ímpeto e a deserção.

Sou o que é e o que não é.
Tu, que conheces Jalaluddin.

Tu, o Um em tudo, diz quem sou.
Diga: Eu sou Tu.

Anotação aleatória (XXIV)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aprender a andar de bicicleta, treinar andar de bicicleta, já é andar de bicicleta.

Mais alguns medos

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Se eu tenho medo de perder, é porque ainda não aprendi a doar.

Se eu tenho medo de errar, é porque ainda não larguei o orgulho de querer ser perfeito.

Se eu temo adoecer, é porque não aceito a impermanência inevitável da saúde.

Se eu temo envelhecer, é porque não aprendi a ser como uma criança todos os dias.

Se eu tenho medo de morrer, é porque ainda não aprendi a viver.

Anotação aleatória (XVII)

quinta-feira, 19 de março de 2009

A paciência é uma virtude excelente. Quando eu quero que as coisas aconteçam logo, quando eu apresso as coisas, tudo se desequilibra e ocorre atropeladamente. Quando eu não crio expectativas quanto a quando as coisas devam acontecer, tudo ocorre naturalmente, caindo no seu devido lugar no momento propício.

Leves sinônimos

terça-feira, 10 de março de 2009

Tentando não fugir...

Não buscando o futuro,
Não escapando no passado,
Não agarrando os pensamentos,
Não rejeitando os pensamentos,
Não me debatendo,
Não me enganando,
Aceitando o que é,
Recebendo o que for,
Fazendo o que for pedido,
Quebrando a rigidez,
Derretendo o gelo,
Não criando divisões,
Não me separando,
Ficando aqui mesmo,
Morando em casa,
Vivendo,
Agindo em harmonia,
Como o sino soando,
Como o sol brilhando,
Como a lua refletindo,
Como um pássaro voando,
Como um peixe nadando,
Como um homem caminhando,
Apenas sentando.
Não fugindo.

Chuva

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


Está chovendo muito hoje.

Muitas pessoas da cidade não gostam da chuva. Outras gostam da chuva. Mas a chuva não se importa com o que as pessoas pensam ou não pensam dela. A chuva apenas chove.

Para a chuva, não há certo e errado. Algumas pessoas podem até achar que a chuva choveu na hora certa ou choveu na hora errada. Mas a chuva não sabe nada disso: a chuva somente chove.

Às vezes, a chuva causa enorme destruição. Outras vezes, a falta de chuva causa seca e fome na terra. Mas a chuva não faz essas coisas baseada em julgamentos. A chuva apenas chove.

Às vezes chove, às vezes não chove. Se não fosse assim, a chuva não poderia trazer benefícios. Se não chovesse, as plantas não teriam água. Se chovesse o tempo todo, as plantas não teriam sol. Mas a chuva não pensa em benefícios ou não-benefícios: ela só chove.

A chuva não ouve opiniões. Ou melhor, até pode ouvir pacientemente a opinião de quem queira falar com ela (como numa dança da chuva), mas certamente não vai agir baseada nessas opiniões. A chuva chove livremente.

Quando chove, as pessoas da cidade tem pressa em ir para casa ou para o trabalho. Se não tivessem tanta pressa, seriam mais gentis e cuidadosas no trânsito. Como não são, muitas batidas ocorrem. Então acusam: a chuva causa congestionamentos. Mas a chuva não se importa com as acusações. A chuva só chove.

A chuva não chove em busca de recompensas. Ela não almeja glória alguma. Ela não tem medo de acabar. Ela não teme mudanças. A chuva é livre para chover.

Alguém pode dizer que a chuva é fria e indiferente. Eu já acho que a chuva não pode ser indiferente, ela só poderia ser indiferente se ela se visse como algo separado das outras coisas. Mas a chuva não se vê como algo separado das outras coisas, da mesma maneira que um feto no interior da barriga da mãe: ele pode até não saber que ela existe, por não se ver como algo separado dela, mas certamente ele não é indiferente a ela - ele é totalmente interdependente com ela.

A chuva não existe como uma coisa só: a chuva não é uma gota, mas milhões de gotas, caindo assincronamente. Ao mesmo tempo, a chuva é uma coisa só: não é chamada "milhões de gotas", e sim "chuva". A chuva não é chuva se não existir os espaços entre as gotas, o espaço também compõe a chuva. A chuva não é separada de sua função: a chuva é também o próprio chover.

A chuva não é possível se não for por uma nuvem, ela depende da nuvem para surgir. A nuvem por sua vez depende do mar, do lago e do sol para evaporar. Porém quando ela chove, ela não é nuvem, nem lago, nem sol, é somente chuva. A chuva também não é completa se ela não cair em algum lugar, seja na terra, no mar ou na palma de uma mão. A chuva é interligada com tudo.

Por fim, a chuva não é chuva se não tiver alguém para chamá-la de chuva.