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Anotação aleatória (L)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ser incapaz de seguir regras de outrem indica a existência de inúmeros condicionamentos auto-impostos.

Efeitos colaterais

domingo, 29 de novembro de 2009

Kodo Sawaki Roshi em zazen. "Zazen não serve para nada."

Para que serve o zazen?

A maioria dos professores, pelo menos aqueles que eu ouvi ou li, irá dizer algo como "não serve para nada", ou "zazen é sem objetivo, e deve ser praticado sem objetivo" ou até rebater com alguma pergunta "quem é esse que quer que o zazen sirva para alguma coisa?" ou algo como "zazen é por si só o objetivo".

Minha intuição é que essas respostas são inteiramente corretas.

Porém, ao menos me parece, o zazen causa alguns efeitos colaterais*. Talvez, mais propriamente, não seja o zazen que cause efeitos colaterais, e sim o que eu deixo de fazer durante o zazen é que causa (ou não-causa/deixa de causar) efeitos colaterais.** A correlação de causa e efeito me parece pertinente pois ela ocorre quando pratico zazen diligentemente por um certo período de dias seguidos, e ela deixa de ocorrer quando eu não pratico zazen diligentemente.

Pessoas são diferentes uma das outras. Logo esse tipo de efeito pode diferir de pessoa para pessoa. Uma breve lista desses efeitos colaterais, que parecem ocorrer ao menos comigo, quando eu pratico zazen diligentemente, segue:

- Fico menos suscetível à irritação. Não que eu me torne imune à ela, mas certamente menos suscetível, e ela passa a ter uma duração mais curta.

- Fico mais atento ao que ocorre ao meu redor, especialmente como minhas ações afetam outras pessoas e como as pessoas reagem a elas.

- Fico mais tolerante ao erro dos outros e aos meus próprios erros (talvez até enfraquecendo a noção de erro e acerto).

- De maneira geral fico mais paciente.

- Meus joelhos e meus ombros passam a doer mais (por ficar sentado em zazen?***), ou pelo menos fico mais atento a essa dor :)



* Essa imagem de efeitos colaterais saiu muito provavelmente do livro Sempre Zen, de Charlotte Joko Beck.

** Notar como nessa noção está implícita simultâneamente a causa-e-efeito (seqüência condicionada) e a não-causa-e-efeito (seqüência incondicionada). Vou tentar elaborar em um texto futuro aquilo que eu deixo de fazer durante o zazen, que eu suspeito que possa causar esses e outros efeitos colaterais.

*** Dizer ficar sentado em zazen é como dizer subir para cima, pois zazen é "meditação sentada".

Não-Livre

sábado, 14 de novembro de 2009

Não-Livre
Condicionado
Prisioneiro de si mesmo
Amarrado a conceitos
Imerso em ilusão
Cheio de pré-concepções

Anotação aleatória (XL)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entre as possibilidades de ações incondicionadas, existem ações idênticas às possíveis ações condicionadas. Assim, ações aparentemente condicionadas podem ser também, sob certo ponto de vista, incondicionadas.

Mini-estudo sobre as possíveis ações de uma pessoa livre das amarras de seu próprio ego

sábado, 7 de novembro de 2009


Uma pessoa que não é amarrada aos desmandos de seu próprio ego dificilmente irá roubar / tomar o que não lhe é dado. Isso porque a ação "roubar" geralmente é causada por uma motivação egóica (eu quero isso, eu quero aquilo, preciso de dinheiro para comprar aquilo para mim, etc.)

Porém, é possível que a pessoa não roube por uma motivação egóica. Por exemplo, ela não rouba para obter alguma vantagem divina.

De fato, tecnicamente para a pessoa livre de amarras, "roubar" não existe, pois esse é um conceito totalmente artificial, baseado em relações de posse virtuais, de egos virtuais. A ação de cometer o roubo, no entanto, é altamente improvável, visto que não há qualquer motivação para a mesma.

Pelo contrário, há a motivação contrária ao roubo: se roubar, outras pessoas poderão sofrer (pois elas são apegadas aos conceitos "roubo, posse"), e além disso a pessoa que rouba com razoável probabilidade irá sofrer punições desnecessárias pelo roubo.

Não sendo amarrada ao próprio ego, a pessoa percebe que ferir outra pessoa é equivalente a ferir a si mesma. Assim, ela evita o que causa sofrimento a si ou aos outros.

Similarmente, uma pessoa que não é amarrada aos desmandos de seu próprio ego dificilmente irá mentir, ou prestar falso testemunho, ou falar algo que cause sofrimento a alguém. Isso porque essas ações geralmente são cometidas visando alguma vantagem para si mesmo, coisa que uma pessoa não amarrada ao ego dificilmente faria.

Também, uma pessoa livre das amarras de seu próprio ego dificilmente irá assassinar outra pessoa ou outro animal. Isso porque na quase totalidade das vezes essa ação é cometida por algum motivo egóico (como vingança, paixão, obtenção de vantagens, livrar-se de um incômido, gana alimentar e até autodefesa).

Estendendo esse raciocínio, quase todas as ações consideradas não-virtuosas pelo budismo e também por outras religiões tem sua origem em motivos egóicos, ou seja, motivos ilusórios.

Ações consideradas virtuosas, também surgem naturalmente da inexistência de amarras ao próprio ego. Por exemplo, a pessoa não amarrada ao próprio ego não têm dificuldade alguma em ser generosa, já que para ela não há diferença alguma se o dinheiro ou qualquer outra coisa estiver com ela ou com outra pessoa.

Uma pessoa sem amarras ao próprio ego não é influenciada por suas próprias preferências, ou até, não tem preferências. Assim, não discrimina uma pessoa da outra, não favorece uma pessoa em relação à outra, seja qual for o motivo: ela ajuda a quem precisa de ajuda, não importando o que possa ter acontecido no passado, ou a aparência da outra pessoa, ou seja o que for.

De alguns desses e de outros exemplos, e examinando minhas ações cotidianas, eu concluo que sou uma pessoa muito amarrada ao meu próprio ego, e portanto um prisioneiro de mim mesmo.

Vide também: Amarras

Algumas notas sobre minha prática pessoal

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Esse texto está em ordem crescente, mas repetidamente me vejo logo no começo novamente. Na verdade, passo muito mais tempo no começo do que no "final".
{Shikantaza-Começo}
No começo, eu não tenho nem idéia que minha ações possam trazer sofrimento para mim e para os outros. Ajo em total ignorância, sem distinguir o certo e o errado, de modo confuso.
{Shikantaza-Ignorância}
Depois, até consigo ver o que seria o certo (ou menos errado), mas não consigo agir da maneira correta. Então fico inventando desculpas para explicar meus próprios erros e tento arranjar culpados quando só eu mesmo sou o culpado.
{Shikantaza-Ego}
De repente, eu até começo a conseguir fazer algumas coisas corretamente, mas fico com orgulho disso, e passo a julgar os outros que não fazem as coisas "corretamente" como eu.
{Shikantaza-Virtude}
Então, eu começo a ver que essas pessoas na verdade não sabem exatamente o que elas estão fazendo (exatamente como eu no começo), passando então a entender porque elas fazem coisas "erradas", não mais me julgando melhor que elas. Esse entendimento pode ser uma parte do que se chama de "compaixão".
{Shikantaza-Compaixão}
Finalmente, eu não vejo muitas coisas certas e erradas, nem em mim nem nos outros. Porém não é como no começo. Não é algo confuso, e sim algo claro. Tudo parece estar onde deveria estar.
{Shikantaza}
Depois... - eu não sei. Será que é só isso?
{Shikantaza?}
Hora de começar tudo de novo.
{Shikantaza}

Os 33 sinônimos de Nibbana (Nirvana)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

(Sinônimos que aparecem no Cânone em Pali)

1. O Incondicionado
2. A destruição da cobiça, da raiva, da ilusão
3. O não-influenciado
4. O não-contaminado
5. A verdade
6. A outra margem
7. O sutil
8. O muito difícil de ver
9. O que não envelhece
10. O estável
11. O não-desintegrável
12. O não-manifesto
13. O não-proliferado
14. O pacífico
15. O imortal
16. O sublime
17. O auspicioso
18. O seguro
19. A destruição do desejo
20. O maravilhoso
21. O magnífico
22. O não-sofrimento
23. O estado de não-sofrimento
24. O não-aflito
25. Desapego
26. Pureza
27. Liberdade
28. O não-apego
29. A ilha
30. A concha
31. O asilo
32. O refúgio
33. O destino e o caminho que leva ao destino.


“Portanto, discípulos, eu ensinei para vocês o incondicionado e o caminho que conduz ao incondicionado. Aquilo que por compaixão um mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, eu fiz por vocês. Ali estão as raízes das árvores; ali as cabanas vazias. Meditem, discípulos, não adiem, ou então se arrependerão mais tarde. Essa é a minha instrução a vocês." Buddha (SN 43:1)

A estranha linha entre o aprendizado e o ensino (II)

domingo, 27 de setembro de 2009

Estou escrevendo esse texto pois reli A estranha linha entre o aprendizado e o ensino, e achei que aquele pode possivelmente ser interpretado de algumas formas que eu não havia intencionado. Gostaria de tentar minimizar possíveis interpretações não intencionadas.


Primeiro, aquele texto não quer dizer que não há importância na relação professor-aluno / mestre-discípulo. Pelo contrário, gostaria de mostrar (talvez hesitante e tortuosamente) como é importante e sutil essa relação.

Segundo, o conteúdo daquele texto jamais deverá servir de pretexto para que um aluno não respeite o professor. Pelo contrário, o melhor é que o aluno sempre tenha o máximo respeito pelo professor. Se o aluno for orgulhoso o suficiente para não respeitar o professor, certamente será orgulhoso demais para aprender qualquer coisa.

Como eu sou somente um aluno, tenho muito pouco entendimento sobre o que um professor deve ensinar. Aquele texto tenta somente elaborar um pouco o que o aluno deve aprender.

Já li em algum lugar uma citação atribuída a Boddhidharma, que diz que somente uma pessoa em um milhão têm as condições necessárias para alcançar a iluminação sem um professor. A não ser que se queira jogar numa loteria de vida ou morte, o melhor a fazer é encontrar um professor o mais rapidamente o possível.

Quando eu digo que de certa forma nem o professor ensina, nem o aluno aprende, não quero dizer que não há trabalho da parte dos dois. Pelo contrário, o trabalho é ainda mais árduo por causa disso. O que eu quero dizer é que o aluno tem diversas visões errôneas, pré-concepções e pré-conceitos, muito difíceis de desfazer (desaprender). O trabalho do professor é ensinar técnicas e métodos para que o aluno possa desfazer esses nós. O trabalho do professor não é nem um pouco fácil. Isso porque diferentes alunos podem ter diferentes e complicados nós para desatar. O trabalho do aluno é desfazer os nós ele mesmo, pois os nós ficam dentro dele, onde o professor não pode alcançá-los.

Não basta ao aluno aprender a técnica de desatar os nós. Ele tem que aplicar a técnica com sucesso, desatando os nós, isso é o mais difícil. Depois disso ele poderia até jogar a técnica fora. Mas aí pode chegar a hora de um trabalho ainda mais nobre (e interminável): ensinar a técnica para outros.

A estranha linha entre o aprendizado e o ensino

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

(Do lado do aprendizado:)

Eu não posso aprender nada se eu pensar que já aprendi tudo.

Se alguém me diz uma coisa, mas eu já tenho opinião formada, não serei capaz de ouvir o que o outro está falando.

Eu não irei verdadeiramente entender se achar que já entendi tudo.

Assim, as pré-concepções dificultam o entendimento.

Mas o que o aluno deve aprender?


(Do lado do ensino:)

Por outro lado, dificilmente eu consigo ensinar algo a alguém. Isso porque qualquer coisa que eu queira transmitir, irá esbarrar nas pré-concepções da outra pessoa.

De fato a outra pessoa irá aprender por ela mesma, quando derrubar suas pré-concepções (ou deixá-las enfraquecerem naturalmente).

Não é possível empurrar goela abaixo um ensinamento qualquer. Simplesmente, alguns entenderão e outros não. Mesmo o melhor professor de todo o mundo não conseguiria ensinar qualquer coisa a alguém que não queira ouvir, ou tenha uma opinião fechada sobre um assunto.

Mas o que o professor deve ensinar?


(No limite:)

Porém, aprender é de certa forma criar concepções. Para aprender algo é preciso fechar as portas para alguns entendimentos.

Assim, parece que para poder integralmente e continuamente aprender, o aluno deve na verdade desaprender. Livre de pré-concepções, ele pode verdadeiramente compreender. Provavelmente o professor ficará muito satisfeito com esse desaprendizado do aluno.

Assim, de certa forma, nem o professor ensina, nem o aluno aprende.


(Peço desculpas ao eventual leitor pela confusão em excesso. Na verdade, eu não entendi muito bem o que eu escrevi!)

Koans e Frases de sabedoria

sábado, 15 de agosto de 2009

Alguns koans e "frases de sabedoria" no vídeo abaixo (em inglês). Mesmo para quem não saiba inglês, não há problema, pois a música e as imagens são tão excelentes quanto as frases!

Sobre o que é possível mudar (Nossas próprias ações)

sábado, 8 de agosto de 2009


Eu tive uma conversa interessante com colegas do trabalho recentemente. Elas estavam reclamando que as pessoas não agiam como elas gostariam que as outras agissem com elas (numa maneira que elas consideravam mais adequada e justa num determinado contexto). Eu disse a elas que, talvez, ao invés de querer que as pessoas agissem como gostaríamos que elas agissem, deveríamos nós mesmos agir como gostaríamos que elas agissem conosco.

A princípio elas não entenderam muito bem o que eu quis dizer, com razão, pois os dois pontos de vista são discursivamente semelhantes o suficiente para causar alguma confusão. Ambos os pontos de vista falam de "como 'gostaríamos' que as pessoas agissem". Mas do ponto de vista prático são totalmente diferentes. No primeiro ponto de vista, queremos que as pessoas ajam de determinada forma. No segundo ponto de vista, agimos (nós mesmos) daquela determinada forma. Eu me expliquei melhor com um exemplo, que foi mais facilmente entendido:

A maioria das pessoas gostam de receber um cumprimento de "bom dia!" ao chegar em algum lugar pela manhã. Logo, 'gostaríamos' que as pessoas nos desejassem sempre um "bom dia". No primeiro ponto de vista (da minhas colegas), queremos que as outras pessoas nos deem um "bom dia", e se não o recebemos, nos decepcionamos. No segundo ponto de vista (que propus), nós mesmos damos imediatamente o "bom dia" que 'gostaríamos' de receber, porém sem necessariamente esperar receber literalmente um "bom dia" em troca.

Ao compreender melhor o que eu quis dizer, elas imediatamente concordaram que há diferença entre esses pontos de vista. De fato não temos controle nenhum sobre as ações das outras pessoas. Temos controle (mesmo que limitado) apenas sobre nossas próprias ações. Logo, se quisermos que algo aconteça, nós mesmo temos que fazer algo naquele sentido.

Querer que outras pessoas literalmente ajam de determinada maneira, é um convite certo para muitas vezes nos decepcionarmos. Porém querer "teoricamente" que as pessoas ajam de determinada maneira pode ser um guia para direcionarmos as nossas próprias ações, e somente nossas próprias ações, já que as ações dos outros não podemos controlar.

(...)

Anotação aleatória (XXVIII)

domingo, 14 de junho de 2009

Desobedecendo minha própria vontade egoísta, me sinto mais livre.

Amarras

domingo, 3 de maio de 2009

Se alguém me apontasse uma arma e me obrigasse a fazer somente o que fosse de sua vontade, e somente para seu próprio benefício, isso seria algo terrível, não é mesmo?

Pois bem, esse alguém existe de verdade e me ameaça quase 24h por dia: eu mesmo. Não com uma arma literalmente, mas com amarras e condicionamentos mentais.

Fazer coisas em busca de ganho e seguindo somente a minha vontade não é tudo o que eu posso fazer.

“Nós temos mais possibilidade disponíveis em cada momento do que imaginamos.”
Thich Nhat Hanh