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Folha flutuando rio abaixo

quinta-feira, 11 de abril de 2019


Folha flutuando rio abaixo
Apenas descendo o rio
Sem nenhum objetivo em particular
É livre para continuar
Nem certo nem errado
Apenas continua rio abaixo
Bolha aqui, bolha acolá
Que problema poderia haver?
Gentilmente descendo o rio
Somente flutuando
Para a esquerda ou para a direita
Não há preferências.

Separada porém não separada
A folha flutua na água
A água flui ao redor da folha
É a água que move a folha
Ou a folha que move a água?
Por que se preocupar?
Espuma aqui, espuma acolá
Nada a ganhar, nada a perder,
O que perda e ganho significam?
Tudo está no seu devido lugar:
espumas e folhas flutuantes
descendo rio abaixo.

Anotação aleatória (XLIV)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

(Veneno por todo o lado)
Você tem certeza que é o mesmo que era há um segundo atrás?

Efeitos colaterais

domingo, 29 de novembro de 2009

Kodo Sawaki Roshi em zazen. "Zazen não serve para nada."

Para que serve o zazen?

A maioria dos professores, pelo menos aqueles que eu ouvi ou li, irá dizer algo como "não serve para nada", ou "zazen é sem objetivo, e deve ser praticado sem objetivo" ou até rebater com alguma pergunta "quem é esse que quer que o zazen sirva para alguma coisa?" ou algo como "zazen é por si só o objetivo".

Minha intuição é que essas respostas são inteiramente corretas.

Porém, ao menos me parece, o zazen causa alguns efeitos colaterais*. Talvez, mais propriamente, não seja o zazen que cause efeitos colaterais, e sim o que eu deixo de fazer durante o zazen é que causa (ou não-causa/deixa de causar) efeitos colaterais.** A correlação de causa e efeito me parece pertinente pois ela ocorre quando pratico zazen diligentemente por um certo período de dias seguidos, e ela deixa de ocorrer quando eu não pratico zazen diligentemente.

Pessoas são diferentes uma das outras. Logo esse tipo de efeito pode diferir de pessoa para pessoa. Uma breve lista desses efeitos colaterais, que parecem ocorrer ao menos comigo, quando eu pratico zazen diligentemente, segue:

- Fico menos suscetível à irritação. Não que eu me torne imune à ela, mas certamente menos suscetível, e ela passa a ter uma duração mais curta.

- Fico mais atento ao que ocorre ao meu redor, especialmente como minhas ações afetam outras pessoas e como as pessoas reagem a elas.

- Fico mais tolerante ao erro dos outros e aos meus próprios erros (talvez até enfraquecendo a noção de erro e acerto).

- De maneira geral fico mais paciente.

- Meus joelhos e meus ombros passam a doer mais (por ficar sentado em zazen?***), ou pelo menos fico mais atento a essa dor :)



* Essa imagem de efeitos colaterais saiu muito provavelmente do livro Sempre Zen, de Charlotte Joko Beck.

** Notar como nessa noção está implícita simultâneamente a causa-e-efeito (seqüência condicionada) e a não-causa-e-efeito (seqüência incondicionada). Vou tentar elaborar em um texto futuro aquilo que eu deixo de fazer durante o zazen, que eu suspeito que possa causar esses e outros efeitos colaterais.

*** Dizer ficar sentado em zazen é como dizer subir para cima, pois zazen é "meditação sentada".

Sobre acreditar na Mente

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]

Baseado na tradução de D.T.Suzuki


O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.

Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade

[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.

Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.

Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?

E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.

Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.

Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.

Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.

Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.

O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.

Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.

O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.

Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?

O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.

O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.

Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.

Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.

Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?

O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.

Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.

Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.

O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.

Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".

Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.

Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.

Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.

O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.

Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!

Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.



Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.

Os 33 sinônimos de Nibbana (Nirvana)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

(Sinônimos que aparecem no Cânone em Pali)

1. O Incondicionado
2. A destruição da cobiça, da raiva, da ilusão
3. O não-influenciado
4. O não-contaminado
5. A verdade
6. A outra margem
7. O sutil
8. O muito difícil de ver
9. O que não envelhece
10. O estável
11. O não-desintegrável
12. O não-manifesto
13. O não-proliferado
14. O pacífico
15. O imortal
16. O sublime
17. O auspicioso
18. O seguro
19. A destruição do desejo
20. O maravilhoso
21. O magnífico
22. O não-sofrimento
23. O estado de não-sofrimento
24. O não-aflito
25. Desapego
26. Pureza
27. Liberdade
28. O não-apego
29. A ilha
30. A concha
31. O asilo
32. O refúgio
33. O destino e o caminho que leva ao destino.


“Portanto, discípulos, eu ensinei para vocês o incondicionado e o caminho que conduz ao incondicionado. Aquilo que por compaixão um mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, eu fiz por vocês. Ali estão as raízes das árvores; ali as cabanas vazias. Meditem, discípulos, não adiem, ou então se arrependerão mais tarde. Essa é a minha instrução a vocês." Buddha (SN 43:1)

Princípios da Não-Ação

sábado, 26 de setembro de 2009


- Ação não é independente de não-ação. Não-ação não é independente de ação.

- Quando você não interfere em algo, você interfere por não interferir.

- Quando você não faz nada, você age em tudo. Isso porque você poderia ter optado em mexer em várias coisas diferentes. Como você não mexe, está mexendo nas coisas em relação ao que poderia ter sido. Conseqüentemente, quando não mexe em nada, está mexendo em tudo.

- Quando você mexe um objeto para a esquerda, está deixando de mexê-lo para a direita, e está deixando de não-mexer. Quando não mexe, está deixando de mexê-lo para a esquerda e para a direita. Ou melhor, quando não-mexe, está deixando de mexê-lo em todas as direções: esquerda, direita, para cima, para baixo, para frente, para trás. Assim, deixar de mexer também é mexer.

- Quando você levanta o braço, o mundo inteiro se move. Quando você fica imóvel, o mundo inteiro se move.

- A terra composta de pó age por não-agir. Se agisse de outra maneira, modificaria tudo. Porém todos esperam que a terra se comporte não-agindo. Assim ela cumpre seu papel exato por não-agir.

- [Conselho para mim mesmo: Porém não espere que os outros ajam como você quer. Pelo contrário, aja como os outros querem que você aja, ou aja como você gostaria que os outros agissem. Assim estará cumprindo seu papel. Mas não se preocupe demasiadamente com erros ou acertos: entre dois limites pode haver mais de uma possibilidade.]

- Talvez seja por isso que é dito que o sábio vive eternamente. Quando seu corpo virar pó, ele agirá como pó.

O Grande Novelo sem Explicação

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Figura 1. Exemplo de forma (geométrica).

A Figura 1 mostra uma forma. Porém podemos chamar de formas não somente formas geométricas, como também quaisquer conceitos, tais como:

- Conceitos abstratos (justiça, amor);
- Sensações (frio, calor, cores, sons);;
- Percepções estéticas (belo, feio);
- Julgamentos (certo, errado);
- Opiniões (bom, ruim);
- Qualquer coisa que possa ser descrita ou nomeada. De fato, nomear ou descrever é uma maneira de 'criar' uma forma complexa.

A principal característica da forma é que ela não têm uma existência independente, própria, inerente. Mudando a área colorida da forma que foi dada como exemplo, vemos que ao definirmos a forma, definimos também a não-forma (Figura 2):

Figura 2. Exemplo de não-forma (geométrica).

Assim, dizemos que a forma não é independente, não tem existência independente/inerente, já que ela depende da não-forma. Similarmente, a não-forma não é independente da forma. Poderíamos inclusive inverter os nomes, e chamar a forma de não-forma e a não-forma de forma. Isso pode ser feito trocando a Figura 1 com a Figura 2.

Vejamos outro exemplo que não seja uma forma geométrica, digamos, uma cor. Ao definirmos o vermelho, definimos também o não-vermelho. O não-vermelho inclui todas as cores que não são o vermelho: preto, amarelo, azul, rosa, branco, verde, marrom, etc. Quando vemos a cor amarela, automaticamente sabemos: não é o vermelho. É não-vermelho. Assim o conceito de vermelho depende de todas as outras cores, e o conceito de todas as outras cores depende do vermelho.

Outra peculiaridade da forma é que ela é dependente de uma mente que 'enxergue', 'crie', nomeie a forma. Ou seja, a forma não é independente da mente. No entanto, a relação entre a mente e a forma é muito parecida com a da forma e a da não-forma. Ou seja, uma é dependente da outra - a mente é dependente da forma, e a forma é dependente da mente.

A característica ou atributo das formas é de não terem existência independente, inerente. Essa característica é chamada frequentemente de vazio, ou vacuidade (sunyata).

Porém, a relação entre a forma e o vazio é muito parecida com a relação entre a forma e a não-forma. Isto é, a forma não é independente do vazio, e o vazio não é independente da forma. Ou, forma é em si, vazio; e vazio é em si, forma. Forma é vazio e vazio é forma.

A partir desse momento fica muito difícil continuar tentando explicar qualquer coisa conceitualmente (é receita certa de falar uma tolice atrás da outra - mas continuemos mais um pouco). Dizer que a forma não é independente do vazio (e vice-e-versa) significa dizer algo como

"a independência não é independente da dependência",
ou
"a dependência é dependente da independência",
ou diretamente
"dependência é independência", "independência é dependência".

Por isso é dito que a compreensão clara, verdadeira e profunda da vacuidade não pode ser conceitual, mas deverá ser experimental. Isso por que é impossível ou inútil conceitualizar propriamente a vacuidade e as suas relações entre a forma, a não-forma, a mente e a não-mente - chamo isso de "o grande novelo sem explicação".



Segue, a quem possa interessar, o Caso 29 do Mumonkan - A bandeira de Eno:

O vento estava tremulando a bandeira do templo, e dois monges estavam discutindo sobre ela. Um dizia:
- A bandeira está movendo.
O outro dizia:
- O vento está movendo.
Eles não conseguiam chega a um acordo, não importando o quão duramente debatessem. O sexto patriarca, Eno, passou coincidentemente por ali e disse:
- Nem o vento, nem a bandeira. É a mente que está movendo!
Os monges ficaram abismados.


Comentário de Mumon:

Não é o vento que move, não é a bandeira que move, não é a mente que move. Como devemos entender o sexto patriarca? Se você obtiver uma compreensão íntima desse significado, você verá por que os dois monges, querendo comprar ferro, obtiveram ouro. O patriarca não conseguiu refrear sua compaixão pelos dois monges, então tivemos essa cena lamentável.

O vento move, a bandeira move e a mente move,
Todos igualmente culpados.
Só sabe que a boca abriu,
Não sabe que o discurso saiu errado.

Poema da fuga sem significado

sábado, 19 de setembro de 2009

Eu posso tentar fugir, mas eles irão me alcançar
Não há onde me esconder.

Eu posso tentar me enganar,
Mas no fim eles abrirão meus olhos.

Eu posso ir até a montanha mais alta do planeta
Eles estarão lá.

Mesmo no fundo do oceano,
Não tenho como escapar.

Ainda que eu esteja completamente sozinho,
A presença deles será refulgente.

Quando eu finalmente cansar de minha fuga sem sentido,
Inevitavelmente irei conhecê-los.

Todos os boddhisatvas, mahasatvas
Não há nada que esteja além de seu alcance.

Seus votos são irrevogáveis.
Pode a ilusão ser superada com a ajuda de outra ilusão?

Sobre aquilo que é meu e aquilo que não é meu

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

(Esse texto é uma outra forma de dizer: Nada disso sou Eu, ou Nada disso é Meu.)

O que é meu, de fato? O que me pertence? Pensando bem, nada é meu. Assim que eu morrer, tudo aquilo que eu achava que era meu vai pertencer a outro (ou melhor dizendo, alguém vai achar que aquilo lhe pertence, como eu achava antes!).

Alguém pode até achar que algo lhe pertença, ainda que temporariamente, mas até isso é uma ilusão. Digamos que uma pessoa rica tenha dez fazendas. Ela até pode dizer: "Eu tenho dez fazendas, dez fazendas são minhas". Isso pode estar registrado em cartório, em leis, em promulgações reais, seja o que for. Mas as fazendas são realmente dessa pessoa? Enquanto ela está em uma fazenda, nove outras fazendas estão com outras pessoas e animais, que nelas trabalham, vivem, e a usam para diversas coisas. Até na própria fazenda em que a pessoa está, ela não pode tê-la toda ao mesmo tempo. Em um lado da fazenda uma vaca é ordenhada pelo capataz. No outro canto um rio corre vagarosamente, peixes nadam. As árvores crescem, os pássaros cantam. O fazendeiro pode até pensar: "O canto do pássaro também me pertence", enquanto o filho do capataz pensa consigo "Que canto bonito!"

O sentimento de posse ocorre pras mais diversas coisas, desde amores, idéias, até mesmo a própria condição física. Eu posso pensar: esse corpo é meu, essa condição física é minha. Mas nada que eu faça irá evitar que o meu corpo envelheça. Até mesmo o maior atleta do mundo pode ter uma doença que abale sua condição física. Nem o cofre mais seguro do mundo pode impedir que alguém use a "minha" idéia, ou mesmo que tenha a mesma idéia que eu tive!

Em resumo, nada é meu.

Mas nada impede o filho do capataz de dizer: "O mundo todo é meu!" - e, de certa forma, ele não está errado!

Anotação aleatória (XXXVI)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Que todas as minhas ações sejam como o gesto de presentear uma flor.


A Queda de Adão

domingo, 16 de agosto de 2009

(Atenção! O texto a seguir é potencialmente inapropriado, vide algumas ressalvas em Avisos.)


A Queda de Adão, ou A Queda do Homem, ou simplesmente 'a Queda' é talvez o símbolo e o ponto fundamental da Bíblia. Muitos levam a história de Adão e Eva ao pé da letra, outros a descartam como mitologia inventada arbitrariamente, ou pura historinha de criança. Eu já gosto de interpretá-la simbolicamente, o que é somente meu ponto de vista. De um certo modo, todos estão certos. De outro certo modo, todos estão errados.

Minha interpretação particular é de que a Queda do Homem simboliza simplesmente a separação do homem de Deus, ou separação de sua Natureza Original, ou em outras palavras, a dualidade inicial. Na Bíblia isso ocorre quando Adão e Eva comem da fruta da 'Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal'. Mais genericamente, poderia-se dizer que é a Árvore do Conhecimento de todas as dualidades e diferenciações: Bem e Mal, Sujeito e Objeto, Dentro e Fora, Eu e Não-Eu, Grande e Pequeno, Longe e Perto, etc. Poderia-se dizer que essas dualidades, ou separações, são a origem do sofrimento. (Desculpem-me pela fuga da interpretação tradicional de "pecado original", mas no momento estou querendo generalizar o máximo o possível.)

A Árvore é 'do Conhecimento' simplesmente porque essas diferenciações são meramente interpretativas/cogniscíveis, isto é, não são reais de um ponto de vista universal/absoluto, no máximo aparentemente reais de um ponto de vista particular/relativo, ou a partir de definições arbitrárias/axiomáticas.

Até onde sei, quase todas as religiões falam de algo parecido com a Queda de Adão de uma forma ou de outra.

No Taoísmo, eu diria que a Queda de Adão dá-se a partir da dualidade inicial, ou Yin e Yang. Antes da dualidade, há a Unicidade fundamental, ou Taiji. E antes da Unicidade, há o Nada fundamental ou Wuji.

No Budismo, a dualidade inicial é a Forma-Vazio. Mas diz o Sutra do Coração: forma é vazio, vazio é forma. A forma em si é vazio, o vazio em si é forma. Ou seja, ambos forma e vazio não possuem existência independente/inerente. Quando o Boddhisatva Avalokitesvara "viu" claramente que todos os agregados são vazios de existência independente/inerente, ele se libertou de todo o sofrimento.

O caso 23 da coleção de koans Mumonkan segue assim:

Eno, o Sexto Patriarca do C'han (Zen) Chinês, estava sendo perseguido pelo monge Emyo até Daiyurei. O patriarca, vendo que Emyo estava chegando, soltou o manto e a tigela em uma pedra, e disse a ele:
- Esse manto representa a fé. Por acaso ele deve ser disputado pela força? Você pode tomá-los agora.
Emyo foi até a tigela e o manto porém eles eram tão pesados quanto montanhas. Ele não conseguia movê-los. Hesitando e tremendo, ele perguntou ao Patriarca:
- Eu vim pelo ensinamento, não pelo manto. Por favor, me desperte!
O patriarca lhe perguntou:
- O que é primordialmente Emyo (isto é, sua Face Original), se você não pensar 'isto é o bem' nem pensar 'isto é o mal'?
Naquele momento, Emyo teve um grande despertar.


Meu comentário: O grande despertar de Emyo parece com a Queda de Adão, ao contrário.



P.S.:

Alguém pode dizer que eu estou forçando a barra, querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. E ele está certo, realmente eu estou forçando a barra, e estou querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. De qualquer forma é tudo uma questão de simbologia. Ou seja, tanto faz eu dizer que o gato está subindo na mesa, ou o cachorro descendo da mesa. Nesse caso, eu quero dizer que o cachorro é o gato e descer é subir. A mesa é mesa mesmo, para não complicar muito. Ou seja, o importante é estarmos falando da mesma coisa. Ou a mesma lua sendo apontada pelo dedo. Meditadores, programadores e linguistas talvez me entendam mais facilmente.

Anotação aleatória (XXXIV)

domingo, 12 de julho de 2009

Eu sou feito de pele, ossos, gordura e músculos. Mas eu posso fazer coisas que uma pilha de pele, ossos, gordura e músculos não pode fazer.

Anotação aleatória (XXXIII)

sábado, 11 de julho de 2009

Tentando me encontrar -
Não me encontro.
Só encontro os outros.

Por que dou tanta atenção a mim mesmo
Se tudo o que importa está ao meu redor?

Por que quero me separar daqueles ao qual estou tão intimamente ligado?

Lições durante o zazen

segunda-feira, 6 de julho de 2009

- Tentar fugir das dificuldades é somente adiá-las. Devo encará-las prontamente quando aparecem.

- Quanto mais eu me debato, não aceitando a situação atual, querendo estar em outro lugar, mais difícil ela se torna.

- Quanto mais maleável eu seja, aceitando o momento presente, sendo um com o momento, mais fácil ele se torna.

- A dificuldade rejeitada é dificuldade. A dificuldade abraçada é não-dificuldade.

- O que ocorre na vida ocorre no zazen. O que ocorre no zazen ocorre na vida.

- Zazen é a própria vida. Essa eu devo ao professor Genshô.

Anotação aleatória (XXXII)

domingo, 5 de julho de 2009

O que quer que eu ache que seja - não é isso. O que quer que eu seja - é isso.

Crianças Selvagens (Meninos Lobos)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

As histórias de meninos lobos sempre me exerceram certo fascínio. São aquelas histórias de infantes abandonados na floresta que vem a ser criadas por animais. Gosto muito do Livro da Selva, de Rudyard Kipling, que conta a história fictícia e romantizada do menino Mogli, criado por lobos e se envolvendo em aventuras com diversos animais (que também virou filme da Disney, a exemplo de Tarzan).

Muitas das histórias de meninos lobos são provavelmente falsas, e algumas são até caso de criminoso charlatanismo usando crianças com deficiências mentais. Mas algumas das histórias de crianças ferais são, até assustadoramente, verdadeiras. A criança criada por animais adquire diversas características comportamentais daquelas espécie, como por exemplo, andar sobre quatro membros e emitir ruídos característicos daquele tipo de animal. Quando essas crianças são encontradas, muitas vezes já como indivíduos adultos, é extremamente difícil integrá-las à sociedade, ensiná-las uma língua ou até mesmo a usar o banheiro.

Boa parte do que entedemos como "ser humano", é na verdade, uma construção cultural. É verdade que muitos atributos recebemos de nossa carga genética, como características físicas e até parte de nosso temperamento, mas nossa língua, nossas expressões, nossa postura, nossas histórias e até nossas religiões são eminentemente culturais.

Essas características só obtemos de outras pessoas, isto é, quase tudo que entedemos que somos, são na verdade, partes, esquemas e camadas mentais de milhões e milhões de pessoas ao longo de milhares de anos da história da humanidade.

Quem é Você?

sábado, 20 de junho de 2009


No filme "Tratamento de Choque" (Anger Management), com Jack Nicholson e Adam Sandler, Jack faz papel de um psicólogo, aparentemente meio maluco, que trata de um paciente (Adam), aparentemente normal, mas que tem explosões de raiva esporádicas. O filme, uma comédia até meio bobona, é irritantemente divertido, pois a maioria das tais explosões de raiva são (aparentemente) provocadas pelo próprio psicólogo.

Há uma cena interessante do filme, em que o psicólogo chama o paciente para uma terapia de grupo de pessoas explosivas, no estilo Alcoólicos Anônimos. Depois de diversos depoimentos melosos, o psicólogo pede o paciente se apresentar, respondendo à seguinte pergunta, aparentemente simples: "Quem é Você?"

Segue um diálogo mais ou menos assim (modificado e incrementado pela minha mente, pois faz tempo que vi o filme e não me lembro muito bem):

Psicólogo: Quem é Você?
Paciente: Meu nome é ... (interrompido)
Psicólogo: Espere, espere. Eu não estou perguntando qual o seu nome, e sim, Quem é Você?
Paciente: ... trabalho na empresa ...
Psicólogo: Eu não estou perguntando onde você trabalha, e sim, Quem é Você?
Paciente: ... tenho uma esposa que se chama ... (cada vez mais nervoso e irritado)
Psicólogo: Eu não estou perguntando qual o nome da sua esposa, e sim, Quem é Você?
Paciente: ... eu gosto de fazer isso e aquilo...
Psicólogo: Eu não estou perguntando qual o seu hobby, e sim, Quem é Você?

Aparentemente, temos uma dificuldade quase infinita de nos separarmos das demais coisas ao tentar responder essa pergunta.

Existe um koan introdutório muito usado por professores do Dharma ocidentais, por não precisar necessariamente de um conhecimento de contextos aos quais estudantes ocidentais não estão acostumados.

O koan consiste em perguntar a si mesmo: "Quem sou Eu?"

De acordo com os professores, não adianta tentar responder a pergunta racionalmente, ou cairemos necessariamente em algum labirinto de palavras como no filme. A resposta tem que vir das entranhas, "do fundo da alma", como se uma bola de ferro incandescente estivesse saindo da garganta.

Ainda sem responder o koan, quem sou eu (o autor)? Nesse momento, aqui vos escrevo. No momento seguinte...

Anotação aleatória (XXVIII)

domingo, 14 de junho de 2009

Desobedecendo minha própria vontade egoísta, me sinto mais livre.

Diga: Eu sou Tu (um poema de Rumi)

sábado, 13 de junho de 2009

(Um poema de Jalaluddin Rumi, místico sufi)

Sou as partículas de pó à luz do sol,
sou o círculo solar.

Ao pó digo: - Não te movas.
E ao sol: - Segue girando.

Sou a névoa da manhã
e a brisa da tarde.

Sou o vento na copa das árvores
e as ondas contra o penhasco.

Sou o mastro, o leme, o timoneiro e a quilha
e o recife de coral em que naufragam as embarcações.

Sou a árvore em cujo galho tagarela o papagaio,
sou silêncio e pensamento, e também todas as vozes.

Sou o ar pleno que faz surgir a música da flauta,
a centelha da pedra, o brilho do metal.

Sou a vela acesa e a mariposa girando louca ao seu redor.
Sou a rosa e o rouxinol perdido em sua fragrância.

Sou todas as ordens de seres,
a galáxia girante,

A inteligência imutável,
O ímpeto e a deserção.

Sou o que é e o que não é.
Tu, que conheces Jalaluddin.

Tu, o Um em tudo, diz quem sou.
Diga: Eu sou Tu.

Anotação aleatória (XXVII)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Para encontrar a si mesmo, deve-se perder a si mesmo.


(Parafraseando Shakespeare em A Comédia dos Erros)