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O Caminho da Sabedoria (conclusão)

terça-feira, 31 de agosto de 2010


"O que este Caminho da Sabedoria é feito para conquistar? Há três classes de condições que impedem o indivíduo de avançar no caminho da Iluminação. Primeiro, há atrações surgidas dos sentidos, de condições externas e da mente discriminadora. Segundo, há as condições internas da mente, seus pensamentos, desejos e humor. As práticas preliminares são feitas para eliminar todas essas. A terceira classe de impedimentos são as urgências instintivas e fundamentais do indivíduo - a vontade de viver e de aproveitar, a vontade de adorar a própria personalidade, a vontade de propagação, que dão origem à ganância e luxúria, medo e raiva, soberba, orgulho e egoísmo. A prática da Perfeição da Sabedoria (Prajna Paramita) é feita para controlar e eliminar esses impedimentos instintivos. Por ela a mente gradualmente se torna mais clara, mais luminosa, mais pacífica. A compreensão se torna mais penetrante, a fé se aprofunda e se amplia, até que elas se fundem no inconcebível Samadhi da Natureza Pura da Mente. Na medida que o indivíduo continua na prática do Caminho da Sabedoria, ele se torna menos e menos suscetível à pensamentos de conforto e de desolação; a fé se torna mais confiante, mais pervasiva, beneficente e contente; e o medo e o retrogresso desaparecem. Mas não pense que a consumação pode ser obtida facilmente ou rapidamente; muitos renascimentos podem ser necessários, muitos ciclos universais podem ter que passar. Enquanto houver dúvida, descrédito, difamação, má-conduta, impedimentos kármicos, fraqueza de fé, orgulho, preguiça e agitação mental, enquanto mesmo sombras desses persistirem,  não pode haver a conquista do Samadhi dos Buddhas.  Mas aquele que conquista a radiância do mais alto Samadhi, será capaz de realizar, com todos os Buddhas, a perfeita unidade de todos os seres com o Dharmakaya da Natureza de Buddha. No puro Dharmakaya não há dualismo, nem sombra de diferenciação. Todos os seres sencientes, se apenas pudessem perceber isso, já estão no Nirvana. A Natureza pura da Mente é o Mais Alto Samadhi, é Anuttara-samyak-sambodhi, é Prajna Paramita, é a Mais Alta Sabedoria Perfeita."

Ashvaghosha - O Despertar da Fé Mahayana (in: The Perennial Philosophy, por Aldous Huxley)

Monges do Deserto

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Os Monges do Deserto do Egito seguiam um caminho de três passos para o misticismo. O primeiro passo era chamado de "Purgatio", no qual o jovem monge lutava através de ações e práticas ascéticas para ganhar controle "da carne" - especificamente gula, luxúria e desejo de posses. Durante esse período, o jovem monge deveria aprender que qualquer força que ele tivesse para resistir a esses desejos (graça) vinha diretamente do Espírito Santo. No fim do "Purgatio", ou em grego "Catharsis", um período que frequentemente durava muitos anos, o monge havia aprendido a acreditar pacificamente no Senhor para todas as suas necessidades. Enquanto o monge atravessava essa etapa de purgação, ele se identificava com a tentação de Cristo no deserto (Mateus 4:1-11, Marcos 1:12-13, Lucas 4:1-13).

Nesse ponto o "Illuminatio" ou em Grego "theoria" começava. Durante esse período o monge aprendia os caminhos para a santidade revelada no Evangelho. Durante o "Illuminatio" muitos monges aceitavam visitantes e estudantes, e cuidavam dos pobres o tanto o quanto seus parcos recursos permitiam. Eles se identificavam fortemente com Cristo quando Ele ensinava o Sermão da Montanha, registrado em Mateus capítulos 5, 6 e 7. O monge continuava sua vida de humildade no Espírito de Deus; sua aceitação estóica do sofrimento frequentemente fazia dele o único homem capaz de tomar responsabilidades heróicas ou difíceis para a comunidade Cristã local. Muitos monges morriam sem nunca ter passado além dessa etapa.

O estágio final era o "Unitio", ou em grego, "theosis", um período no qual a alma do monge e o Espírito de Deus se ligavam em uma união frequentemente descrita como o casamento da Canção de Salomão (também chamada de "Canção das Canções" ou "Cântico do Cânticos"). Monges mais velhos frequentemente debandavam para o deserto profundo ou para florestas remotas para encontrar a solidão e a paz que esse nível de consciência mística demandava. Nesse estágio, o monge se identificava com o Cristo transfigurado, que após a ressurreição permanecia frequentemente oculto de seus discípulos. Ascetas que atingiam esse nível de iluminação ascética são chamados de Schema.

de http://en.wikipedia.org/wiki/John_Cassian

Não-Livre

sábado, 14 de novembro de 2009

Não-Livre
Condicionado
Prisioneiro de si mesmo
Amarrado a conceitos
Imerso em ilusão
Cheio de pré-concepções

Lições durante o zazen

segunda-feira, 6 de julho de 2009

- Tentar fugir das dificuldades é somente adiá-las. Devo encará-las prontamente quando aparecem.

- Quanto mais eu me debato, não aceitando a situação atual, querendo estar em outro lugar, mais difícil ela se torna.

- Quanto mais maleável eu seja, aceitando o momento presente, sendo um com o momento, mais fácil ele se torna.

- A dificuldade rejeitada é dificuldade. A dificuldade abraçada é não-dificuldade.

- O que ocorre na vida ocorre no zazen. O que ocorre no zazen ocorre na vida.

- Zazen é a própria vida. Essa eu devo ao professor Genshô.

Anotação aleatória (XXXI)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Querer que a mente não se debata num certo instante é como tentar apagar o fogo jogando mais lenha.

Haiku Quatro

quarta-feira, 17 de junho de 2009

dia de inverno -
preguiça de levantar
frio no joelho

Anotação aleatória (XXVIII)

domingo, 14 de junho de 2009

Desobedecendo minha própria vontade egoísta, me sinto mais livre.

Anotação aleatória (XXVI)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Não há nenhuma humildade a ser obtida, mas há muito orgulho a ser abandonado.

Bons amigos (II)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Trecho do excelente livro "Gestos de Equilíbrio", de Tarthang Tulku Rinpoche:

"O caminho espiritual tem muitos obstáculos, tais como os nossos diálogos interiores, as nossas emoções, os nossos medos e até os nossos amigos ou famílias. Daí que as boas influências sejam cruciais. Desde que estejamos interessados no caminho espiritual, a associação com os que têm uma natureza semelhante pode ajudar a suportar e a proteger-nos, e pode criar menos confusão para nós. O principiante tem muitos problemas, e por isso lhe é difícil focalizar o caminho sem esse tipo de ajuda. Será ótimo podemos tomar conta de nós mesmos mas, enquanto não o pudermos fazer, é importante escolher um ambiente espiritual e harmonioso que nos apóie. Isso não significa que devemos evitar o mundo - senão que devemos proteger-nos até certo ponto. À proporção que desenvolvermos nossa força interior, seremos talvez capazes de cuidar dos outros assim como de nós mesmos."

A perspectiva de terceira pessoa (Parte IV: Ainda sobre estar sozinho)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

São ainda relevantes sobre esse assunto (estar sozinho e praticar sozinho) dois textos publicados no blog do Monge Genshô:

O primeiro é um texto de Soyen Shaku (1859-1919) Mestre Zen da escola Rinzai - apelidado no blog do Genshô como Modo de Viver. Eu li esse texto pela primeira vez no blog de Michel Seikan, e muito me chamou a atenção. As sugestões desse texto atacam diretamente alguns dos meus principais defeitos: a falta de disciplina, agir na frente de outras pessoas diferentemente de quando eu estou sozinho, falar e não praticar, e excesso de preguiça ao acordar. Especialmente, quando estou na frente de outras pessoas, procuro agir melhor do que quando estou sozinho (o que denota insinceridade da minha parte).

O segundo é um ensinamento que o Monge Genshô gosta muito de passar, sobre o símbolo do pinheiro na escola Soto Zen. "Na Soto Zen o símbolo do monge é uma folha de pinheiro, porque os pinheiros crescem retos se estão juntos com outros, assim, com estes pode se fazer mastros de navios, retos e direitos, os pinheiros que nascem isolados ficam tortos." Daí a importância de praticar numa comunidade, daí a importância fundamental da Sangha.

Mais alguns medos

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Se eu tenho medo de perder, é porque ainda não aprendi a doar.

Se eu tenho medo de errar, é porque ainda não larguei o orgulho de querer ser perfeito.

Se eu temo adoecer, é porque não aceito a impermanência inevitável da saúde.

Se eu temo envelhecer, é porque não aprendi a ser como uma criança todos os dias.

Se eu tenho medo de morrer, é porque ainda não aprendi a viver.

Sem desculpas

sábado, 21 de março de 2009

Disse Dogen Zenji no Shobogenzo Zuimonki:

Alguém disse: "Eu sou enfermo e não sou talentoso, e não tenho a força para praticar o Caminho. Porém eu ouvi os ensinamentos essenciais e gostaria de me retirar e viver sozinho, passando o resto da vida cuidando do meu corpo e da minha saúde frágil."

Isso é um grande erro.

Os velhos sábios não necessariamente tinham um saúde excelente. E eram os homens do passado todos dotados de um talento superior? Não faz assim tanto tempo desde a morte do Buddha, e aqueles que o ouviram durante a sua vida não eram todos seres superiores. Entre seus seguidores estavam ambos os bons e os maus. Entre eles haviam alguns cuja conduta era inacreditavelmente ruim, e também pessoas do tipo mais baixo. Porém não havia nenhum que, alegando inferioridade, falhou em despertar uma mente que segue o Caminho. Nem havia nenhum que, dizendo que não tinha talento, se negava a praticar o Caminho. Se você não praticar e estudar nessa vida, em qual vida você espera obter o talento e o bem estar para praticar o Caminho? O essencial para o estudo são simplesmente esses: despertar uma mente que segue o Caminho e praticar como se fosse a última coisa da sua vida.

Dogen Zenji, no Shobogenzo Zuimonki - Capítulo 6, Parte II.


Comentário: Com isso não restam muitas desculpas para não praticar. Eu postei esse texto para me alertar sobre as desculpas recorrentes que crio para não praticar, que são usualmente muito mais esfarrapadas do que as do texto acima, ou seja, menos justificáveis ainda. Uma das mais recorrentes delas é a pura e simples preguiça.

Diáspora Tibetana

domingo, 15 de março de 2009

Cada vez fica mais claro que será muito difícil, senão impossível, que a China ceda qualquer coisa na questão tibetana. Eu mesmo, com um certo ceticismo egoísta, sempre achei a causa perdida, e até achava o Dalai Lama meio inocente e não-esclarecido por achar que havia possibilidade de negociação por uma autonomia significativa junto ao belicoso governo comunista chinês. Depois passei a admirá-lo pelo seu esforço por uma causa quase impossível, certamente com grande compaixão pelo imenso sofrimento dos tibetanos. Agora eu considero que, mesmo que não consiga nada, todos os dias S.S. vence a China, do ponto de vista ético, moral, da generosidade, da sabedoria e até histórico (a posteridade dirá).

Agora, a preservação da tradição tibetana, cada vez mais difícil em sua terra natal - que vem sendo sistematicamente colonizada por chineses, trazendo juntamente, à força, sua (neo-pseudo)cultura - depende em grande parte dos refugiados no exterior. Mais de 1000 refugiados conseguem escapar todos os anos chegando a Dharamsala, na Índia (onde está sediado o Governo Tibetano no exilio), após atravessar com imensa dificuldade as grandiosas montanhas do Himalaia, via Nepal, por poucas e perigosas passagens. Mais de 100 000 tibetanos vivem hoje no exílio. Mas talvez os que mais sofram sejam os tibetanos que continuam no Tibet, prisioneiros em sua própria terra.

Preservar integralmente uma cultura fora de sua terra é um feito dificílimo, do qual só se conhece um exemplo notável na história da humanidade: o dos judeus. No vídeo a seguir (em inglês), Dalai Lama fala da semelhança entre os tibetanos e os judeus, compartilhando do imenso sofrimento que este sofreram ao serem afastados de sua terra natal, das perseguições sistemáticas ao longo dos séculos, culminando na grande tragédia do Holocausto, à semelhança do sofrimento e da tragédia tibetana (estimam-se mais de 1,3 milhão de mortos em decorrência da invasão e repressão chinesa). Mesmo assim, num resultado altamente improvável, eu diria milagroso, os judeus conseguiram preservar sua cultura após quase 2000 anos afastados de sua terra natal. Visivelmente emocionado, Dalai Lama até brinca, pedindo que os líderes judeus com quem se encontrou lhe ensinassem alguma "técnica secreta" que eles guardassem.



Ficam aqui os votos para que a tradição tibetana possa ter longa vida, em sua terra natal ou longe dela, trazendo com ela, apesar da tragédia, benefícios para inúmeros seres.


Nota: O budismo tibetano também é praticado, em meio a culturas diferentes, em outros países, além dos países onde se encontram refugiados e adeptos. Notavelmente: Butão, Mongólia, Rússia e Nepal (que recentemente mudou de governo após anos de guerra civil provocada pelo partido comunista, de influência maoísta, partido este que inspirou um partido de igual caráter e intenções contra o pacífico Reino do Butão).

Preguiça

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As desculpas que crio para não praticar (principalmente Zazen) são inúmeras. A minha criativade para encontrar justificativas para não praticar é digna de investigação. Algumas de minhas desculpas, historicamente recorrentes: "Está muito frio; está muito quente; é muito tarde; é muito cedo; estou com muita fome; estou muito satisfeito." Também: "Estou doente, estou cansado; depois eu pratico; já pratiquei antes; praticar nem é tão importante assim; agora tenho que assistir televisão; agora tenho que fazer outra coisa; agora tenho que descansar."

A raiz de todas essas desculpa é uma só: minha própria preguiça. Não é a toa que a preguiça é considerada um dos principais obtáculos para a prática.

Como as justificativas para não praticar são variadas e criativas, a única alternativa é praticar não importa o que aconteça ou quais forem as circunstâncias. Se estiver um calor insuportável eu tenho que pensar: "está um calor insuportável, que momento ótimo praticar!". Ou melhor ainda, nem penso em nada e apenas pratico. Se estiver um frio insuportável eu tenho que pensar: "está um frio insuportável, que momento ótimo praticar!". Ou melhor ainda, nem penso em nada e apenas pratico. A prática contínua alimenta a disciplina e a disciplina alimenta a prática contínua.

Disse o Buddha:
"Quem diz está muito quente, muito frio, muito tarde,
e deixa as coisas por fazer,
as oportunidades para fazer o bem
passam desapercebidas por tais homens.

Porém aquele que vê no frio ou no calor
menos que um pedaço de capim,
e que faz o que deve ser feito,
não irá perder a felicidade."