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Zazen e o Nobre Caminho Óctuplo (4)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nota de observação: O texto a seguir, bem como demais textos desse blog, corresponde somente ao entendimento atual do autor. Esse entendimento não é definitivo e absoluto, sendo pelo contrário, relativo, e podendo ser alterado com o tempo. Dessa forma, qualquer coisa aqui escrita não deve ser tomada como certa ou como verdade por ninguém.



Durante o zazen, permanecemos sentados. Poderíamos levantar, mas permanecemos sentados até o final. Assim realiza-se o esforço correto do Nobre Caminho Óctuplo, simplesmente permanecendo em zazen, sem nenhuma intenção ou consideração adicional.

Esforço sem esforço.



"A pessoa faz o esforço para abandonar a linguagem incorreta e penetrar na linguagem correta: Esse é o esforço correto da pessoa [...]
A pessoa faz o esforço para abandonar a ação incorreta e penetrar na ação correta: Esse é o esforço correto da pessoa [...]
" A pessoa faz o esforço para abandonar o modo de vida incorreto e penetrar no modo de vida correto: Esse é o esforço correto da pessoa [...]
MN 117

"o empenho excessivamente estimulado conduz à inquietação, o empenho excessivamente frouxo conduz à preguiça."
AN VI.55

Efeitos colaterais

domingo, 29 de novembro de 2009

Kodo Sawaki Roshi em zazen. "Zazen não serve para nada."

Para que serve o zazen?

A maioria dos professores, pelo menos aqueles que eu ouvi ou li, irá dizer algo como "não serve para nada", ou "zazen é sem objetivo, e deve ser praticado sem objetivo" ou até rebater com alguma pergunta "quem é esse que quer que o zazen sirva para alguma coisa?" ou algo como "zazen é por si só o objetivo".

Minha intuição é que essas respostas são inteiramente corretas.

Porém, ao menos me parece, o zazen causa alguns efeitos colaterais*. Talvez, mais propriamente, não seja o zazen que cause efeitos colaterais, e sim o que eu deixo de fazer durante o zazen é que causa (ou não-causa/deixa de causar) efeitos colaterais.** A correlação de causa e efeito me parece pertinente pois ela ocorre quando pratico zazen diligentemente por um certo período de dias seguidos, e ela deixa de ocorrer quando eu não pratico zazen diligentemente.

Pessoas são diferentes uma das outras. Logo esse tipo de efeito pode diferir de pessoa para pessoa. Uma breve lista desses efeitos colaterais, que parecem ocorrer ao menos comigo, quando eu pratico zazen diligentemente, segue:

- Fico menos suscetível à irritação. Não que eu me torne imune à ela, mas certamente menos suscetível, e ela passa a ter uma duração mais curta.

- Fico mais atento ao que ocorre ao meu redor, especialmente como minhas ações afetam outras pessoas e como as pessoas reagem a elas.

- Fico mais tolerante ao erro dos outros e aos meus próprios erros (talvez até enfraquecendo a noção de erro e acerto).

- De maneira geral fico mais paciente.

- Meus joelhos e meus ombros passam a doer mais (por ficar sentado em zazen?***), ou pelo menos fico mais atento a essa dor :)



* Essa imagem de efeitos colaterais saiu muito provavelmente do livro Sempre Zen, de Charlotte Joko Beck.

** Notar como nessa noção está implícita simultâneamente a causa-e-efeito (seqüência condicionada) e a não-causa-e-efeito (seqüência incondicionada). Vou tentar elaborar em um texto futuro aquilo que eu deixo de fazer durante o zazen, que eu suspeito que possa causar esses e outros efeitos colaterais.

*** Dizer ficar sentado em zazen é como dizer subir para cima, pois zazen é "meditação sentada".

O mercador de Tabriz

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O mercador de tapete. Autor: Addison Thomas Millar

Um mercador de Tabriz vendia magníficos tapetes persas por 14 peças de ouro, obtendo um lucro de 4 peças de ouro em cada peça. Certo dia um comprador aproximou-se de sua tenda no mercado lhe oferecendo um negócio:

- As'salaam Aleikum, akh. Vejo que o senhor vende esses fomidáveis tapetes por 14 peças de ouro. No entanto, há um novo comerciante na parte baixa do mercado que vende tapetes de qualidade equivalente por somente 13 peças de ouro, uma verdadeira barganha. O senhor não me venderia um de seus tapetes por 12 peças de ouro?

Assim acabaram fechando negócio por 12 peças de ouro.

Caso 1:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Maldito dia. Esse comprador acaba de me fazer perder 2 peças de ouro.

Caso 2:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Que dia maravilhoso! Esse comprador acaba de me fazer lucrar 2 peças de ouro!

Caso 3:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Ouvi falar que poderemos ter ótimas tâmaras na próxima estação de colheita. Insha'Allah!

Caso 4:

Conte o seu caso!

Os 33 sinônimos de Nibbana (Nirvana)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

(Sinônimos que aparecem no Cânone em Pali)

1. O Incondicionado
2. A destruição da cobiça, da raiva, da ilusão
3. O não-influenciado
4. O não-contaminado
5. A verdade
6. A outra margem
7. O sutil
8. O muito difícil de ver
9. O que não envelhece
10. O estável
11. O não-desintegrável
12. O não-manifesto
13. O não-proliferado
14. O pacífico
15. O imortal
16. O sublime
17. O auspicioso
18. O seguro
19. A destruição do desejo
20. O maravilhoso
21. O magnífico
22. O não-sofrimento
23. O estado de não-sofrimento
24. O não-aflito
25. Desapego
26. Pureza
27. Liberdade
28. O não-apego
29. A ilha
30. A concha
31. O asilo
32. O refúgio
33. O destino e o caminho que leva ao destino.


“Portanto, discípulos, eu ensinei para vocês o incondicionado e o caminho que conduz ao incondicionado. Aquilo que por compaixão um mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, eu fiz por vocês. Ali estão as raízes das árvores; ali as cabanas vazias. Meditem, discípulos, não adiem, ou então se arrependerão mais tarde. Essa é a minha instrução a vocês." Buddha (SN 43:1)

Anotação aleatória (XXXVIII)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Querer ser um corredor não torna ninguém um corredor. Somente correr faz de alguém um corredor.

Anotação aleatória (XXXVI)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Que todas as minhas ações sejam como o gesto de presentear uma flor.


Koans e Frases de sabedoria

sábado, 15 de agosto de 2009

Alguns koans e "frases de sabedoria" no vídeo abaixo (em inglês). Mesmo para quem não saiba inglês, não há problema, pois a música e as imagens são tão excelentes quanto as frases!

Para um amigo conhecido ou desconhecido

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O que eu faria sem você, meu amigo?
Para quem eu escreveria? Com quem eu conversaria?
Quem seria eu, se não tivesse amigos?
Ananda sugeriu a Buddha que bons amigos seriam metade da vida espiritual,
Buddha corrigiu Ananda: Bons amigos são toda a vida espiritual.
Bons amigos caminham juntos,
Bons amigos caminham separados também.
Uma boa amizade começa desde o primeiro momento,
Uma boa amizade não é afetada com a distância.
Uma boa amizade não termina nem mesmo com a morte.
Uma boa amizade não começa nem termina: ela ocorre a todo instante.
Por que eu iria querer ter inimigos?
Melhor é que todos sejam meus amigos.
Mesmo que não me considerem como amigo, que eu lhes considere como amigos,
Um amigo verdadeiro não pede nada em troca pela sua amizade.
Conhecidos ou desconhecidos, que todos sejam meus amigos.

Céu

terça-feira, 7 de julho de 2009

Melhor do que ler um blog, é olhar para o céu durante cinco minutos:

Procure a janela mais próxima!

Do crescimento das plantas

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um biólogo pode até tentar explicar por que uma planta cresce, mas para a planta aquilo que ela faz não tem um porquê. Nem dá para dizer que ela faz, ela é aquilo que é e pronto.

Não dá pra dizer que ela cresceu errado (nem certo). Não dá pra dizer que ela cresceu pouco (nem muito). Um agrônomo pode até traçar metas de crescimento para a planta, mas isso será somente o que ele acha que deve ser. A planta cresce do seu próprio jeito.

Observe que a planta, ao mesmo tempo que cresce somente sob certas condições (por exemplo com a presença da luz do sol e de água suficientes), não deixa de crescer livremente. Uma planta que tenha pouco sol pode crescer menos que uma planta com muito sol, mas não se sentirá oprimida com isso, nem inferior (nem superior). Ela cresce aquilo que é capaz de crescer, exatamente aquilo que é capaz, sem preguiça, sem pressa e sem competição. Pode-se dizer que ela cresce plenamente. Livremente.

Não sei se me fiz entender. Acho que eu também não entendi! Provavelmente estou escrevendo mais uma besteira.

Veja que ela cresce, aparentemente, com restrições, mas ao mesmo tempo, aparentemente, sem restrições. Isso é meio esquisito, não? Mas ao mesmo tempo, misteriosamente belo.

Vide também: Chuva e Anotação aleatória (XIV).

Jôshin-san

terça-feira, 9 de junho de 2009

Hoje faz exatamente um ano que eu vi meu amigo Flávio (Jôshin) pela última vez. Foi no dia seguinte ao do meu casamento (na foto acima eu estou à esquerda e ele à direita). Lembro-me bem pois encontrei-o na Comunidade Zen Budista de Florianópolis, um dia antes de eu retornar ao Rio de Janeiro. No mês seguinte ele veio a falecer.

Naquela ocasião por sorte pude agradecê-lo pelo presente que ganhamos dele e de seu irmão Felipe, uma imagem de Buddha, em cor branca, muito bonita, que tenho como o presente mais precioso que ganhei no casamento. Assim que tiver uma oportunidade postarei uma foto dessa estátua de Buddha.

Todas as pessoas que conheceram Jôshin sabem de sua generosidade. Os exemplos dessa generosidade são muitos, certamente a grande maioria desconhecida de mim, mas posso dar meu próprio testemunho com facilidade. Sendo eu muito iniciante, Flávio me ajudou bastante pelo seu exemplo. Sendo sua estatura imensa, era impossível não notar seus movimentos e aprender com eles.

Pude participar com Flávio em dois sesshins (retiros). Apesar do voto de silêncio, nos sesshins as pessoas ficam muito próximas e amigas. Mesmo em silêncio, Flávio era sempre gentil e paciente, indicando o caminho e os passos para os iniciantes. Em uma dessas ocasiões tive a sorte de sentar a seu lado durante o oryoki (refeição formal na tradição zen). Sendo os movimentos da refeição formal muito complicados, Jôshin me ajudava fazendo seus próprios movimentos lentamente para que eu pudesse copiá-los. Ele fazia isso sem fazer eu me sentir mal por não saber realizar os movimentos, nem expressando o menor orgulho por saber realizá-los.

Eu nunca poderei retribuir Flávio pelo que ele me ensinou, e tenho certeza que ele nem esperava nada em troca pela sua generosidade. Eu não terei outra escolha senão tentar retribuir o mundo da melhor forma que eu puder pela oportunidade de ter conhecido Jôshin-san. Se eu conseguir levar adiante um pouco dessa generosidade, uma parte dele continuará sempre viva no mundo. E tenho certeza que ele continua vivo em muitos outros.

Amarras

domingo, 3 de maio de 2009

Se alguém me apontasse uma arma e me obrigasse a fazer somente o que fosse de sua vontade, e somente para seu próprio benefício, isso seria algo terrível, não é mesmo?

Pois bem, esse alguém existe de verdade e me ameaça quase 24h por dia: eu mesmo. Não com uma arma literalmente, mas com amarras e condicionamentos mentais.

Fazer coisas em busca de ganho e seguindo somente a minha vontade não é tudo o que eu posso fazer.

“Nós temos mais possibilidade disponíveis em cada momento do que imaginamos.”
Thich Nhat Hanh

Errando

segunda-feira, 2 de março de 2009

- Uma pessoa humilde possivelmente jamais saberá que é humilde*. No momento em que ela se declarar humilde ou mesmo pensar ser humilde, já estará demonstrando orgulho. Assim, assumir e reconhecer o meu próprio orgulho parece ser o único passo possível na direção da humildade. Mas esse caminho parece não ter fim. E querer chegar ao fim dele é somente andar para trás. Por isso mesmo cada passo deve ser dado, como se o caminho fosse verdadeiramente infindável.

- A partir do momento que eu pensar ser um bom marido, um bom amigo ou uma boa pessoa, provavelmente não me esforçarei mais para sê-lo. Por isso devo assumir minhas limitações como pessoa, errando, mas me esforçando para corrigir meus erros sempre.


* Ela mesma muito provavelmente não sabe, mas não descarto a possibilidade de que outra pessoa possa reconhecer isso nela.

Elogios e Críticas

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


Quase todas as pessoas gostam de receber elogios, mas muitas não gostam de receber críticas.

Na minha própria experiência pessoal (no meu caso), as críticas acabam sendo mais proveitosas que os elogios. Tenho certeza que as pessoas que me elogiam o fazem com sinceridade e boa intenção, o problema está comigo mesmo. Quando sou elogiado, o orgulho surge com força, fortalecendo o meu ego. Posso até tentar não externalizar esse orgulho, o silenciando o máximo possível, ou disfarçando-o com modéstia (o que cria uma mentira, piorando as coisas).

Certamente os elogios podem ser proveitosos, incentivando-me a continuar me esforçando. Mas eu tenho que tomar extremo cuidado para que eles não se tornem um alimento para o meu ego - o que é muito difícil, na verdade, não sei bem como evitar isso, além de simplemente perceber imediatamente que isso ocorre, o que parece frear um pouco a expansão do orgulho. Outro perigo é que eu passe a fazer as coisas em busca de elogios e reconhecimento, e não porque elas tenham que ser feitas.

Altos e baixos

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009


Estou bem ciente que esse blog tem seus altos e baixos. Acho que isso é normal. O blog é um erro (mal)calculado. Às vezes termino de escrever um texto e penso "esse ficou bom!" Outras vezes penso "mas que porcaria ficou esse texto". Mesmo assim eu publico. Bom ou ruim, essas são apenas minhas opiniões. Mesmo que o texto tenha ficado ruim, talvez ele possa ser útil para alguém. Ou talvez seja completamente inútil. Mesmo um texto bom pode ser completamente inútil. Não tenho expectativas quanto a isso. Meio punhado de feno seria de uma sorte infinitamente excepcional.

Certamente os textos que tem maiores chances de ficarem bons são aqueles que vem do coração, da minha própria experiência limitada. Essa é a "melhor das hipóteses" do texto Avisos. Poucos textos do blog tem essa característica. Não é difícil saber quais eles são.

Se esse blog puder resultar em algo auspicioso, quase certamente será fazer alguém perdido resolver começar a fazer zazen ou procurar um centro Buddhista. Já com muita, muita sorte pode ser que o relato de meus próprios erros possa indicar para alguém como não ser um mau praticante como eu. Mas isso seria o mesmo que tirar leite de pedra. Ou o mesmo que uma flor saindo incólume do chorume.

Chuva

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


Está chovendo muito hoje.

Muitas pessoas da cidade não gostam da chuva. Outras gostam da chuva. Mas a chuva não se importa com o que as pessoas pensam ou não pensam dela. A chuva apenas chove.

Para a chuva, não há certo e errado. Algumas pessoas podem até achar que a chuva choveu na hora certa ou choveu na hora errada. Mas a chuva não sabe nada disso: a chuva somente chove.

Às vezes, a chuva causa enorme destruição. Outras vezes, a falta de chuva causa seca e fome na terra. Mas a chuva não faz essas coisas baseada em julgamentos. A chuva apenas chove.

Às vezes chove, às vezes não chove. Se não fosse assim, a chuva não poderia trazer benefícios. Se não chovesse, as plantas não teriam água. Se chovesse o tempo todo, as plantas não teriam sol. Mas a chuva não pensa em benefícios ou não-benefícios: ela só chove.

A chuva não ouve opiniões. Ou melhor, até pode ouvir pacientemente a opinião de quem queira falar com ela (como numa dança da chuva), mas certamente não vai agir baseada nessas opiniões. A chuva chove livremente.

Quando chove, as pessoas da cidade tem pressa em ir para casa ou para o trabalho. Se não tivessem tanta pressa, seriam mais gentis e cuidadosas no trânsito. Como não são, muitas batidas ocorrem. Então acusam: a chuva causa congestionamentos. Mas a chuva não se importa com as acusações. A chuva só chove.

A chuva não chove em busca de recompensas. Ela não almeja glória alguma. Ela não tem medo de acabar. Ela não teme mudanças. A chuva é livre para chover.

Alguém pode dizer que a chuva é fria e indiferente. Eu já acho que a chuva não pode ser indiferente, ela só poderia ser indiferente se ela se visse como algo separado das outras coisas. Mas a chuva não se vê como algo separado das outras coisas, da mesma maneira que um feto no interior da barriga da mãe: ele pode até não saber que ela existe, por não se ver como algo separado dela, mas certamente ele não é indiferente a ela - ele é totalmente interdependente com ela.

A chuva não existe como uma coisa só: a chuva não é uma gota, mas milhões de gotas, caindo assincronamente. Ao mesmo tempo, a chuva é uma coisa só: não é chamada "milhões de gotas", e sim "chuva". A chuva não é chuva se não existir os espaços entre as gotas, o espaço também compõe a chuva. A chuva não é separada de sua função: a chuva é também o próprio chover.

A chuva não é possível se não for por uma nuvem, ela depende da nuvem para surgir. A nuvem por sua vez depende do mar, do lago e do sol para evaporar. Porém quando ela chove, ela não é nuvem, nem lago, nem sol, é somente chuva. A chuva também não é completa se ela não cair em algum lugar, seja na terra, no mar ou na palma de uma mão. A chuva é interligada com tudo.

Por fim, a chuva não é chuva se não tiver alguém para chamá-la de chuva.

Conspiração Universal

domingo, 11 de janeiro de 2009



O Universo inteiro conspira a meu favor para que eu esteja aqui e agora.

O meu pai poderia ter se apaixonado por outra mulher. Minha mãe poderia ter se casado com outro homem. Uma guerra poderia ter acontecido, dificultando tudo. Poderia faltar comida e água, impedindo minha sobrevivência. Não fosse a ambição e destemor dos portugueses certamente eu não estaria aqui hoje. Sou um mestiço. Meu pai tem origem alemã e italiana, minha mãe tem origem portuguesa, italiana e até negra. Certamente tenho algo de mouro ou árabe também. Não fossem as condições difíceis na Europa certamente os imigrantes não teriam vindo. Mesmo se não fosse a cobiça e malvadeza dos comerciantes de escravos eu não poderia estar aqui.

Por que um meteoro não cai na minha cabeça? Por que Colombo descobriu a América? Por que meu avô casou com minha avó? Por que um dinossauro não comeu aquela família de mamíferos com aspecto de roedor?

Por que o Sol nasce, brilha e se põe todos os dias? O Sol certamente gosta muito de mim, permitindo que eu sobreviva. Ao mesmo tempo, o Sol nem sabe da minha existência. Ele trabalha continuamente para o benefício de milhares de seres, sem pedir nada em troca. Tal como o Sol, milhares de pessoas tiveram que cumprir o seu dever para que eu pudesse estar aqui. Ao mesmo tempo, elas provavelmente nem sabem que eu existo. Mas alguém planta a comida que eu como, mesmo que eu não a conheça e ela não me conheça. Ela faz isso sem esperar nada em troca de mim.

Que eu possa sentar em zazen é verdadeiramente um milagre. O Universo inteiro tem que permitir que eu sente em zazen. Se um gigante me pisotear, acabou o zazen. Se a minha esposa berrar que a casa está pegando fogo, acabou o zazen. É verdadeiramente um milagre, algo digno de gratidão. Bodhidharma teve que ir a pé da Índia até a China para que eu pudesse estar sentado em zazen. Eu não poderia estar escrevendo sobre Bodhidharma aqui hoje se ele não tivesse feito essa longa caminhada, mas quase certamente ele não sabia que eu iria escrever sobre ele. Ele fez isso por mim, mas ele não fez isso por mim. Dezenas de mestres e discípulos tiveram que preservar o ensino do Dharma até hoje para que eu pudesse praticá-lo. Eles cumpriram seu dever sem pedir nada em troca.

Certamente eu não fiz nada para merecer tudo isso. O que eu posso fazer para retribuir tantas benesses do Universo todo?

Minha esposa está pedindo que eu vá tomar banho logo. Melhor obedecer.

No fio da navalha

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


Em 1974 o equilibrista francês Philippe Petit realizou uma perigosa travessura com um o auxílio de um grupo de cúmplices: atravessou, sem autorização, as recém construídas Torres Gêmeas do World Trade Center equilibrando-se em um fino cabo de aço. Quando policiais o convenceram a sair do fio, após 45 minutos e oito travessias, foi imediatamente preso.

Questionado por jornalistas o motivo de sua empreitada, respondeu apenas, para decepção dos repórteres: "Não teve um porquê."

Pouco depois foi liberado da prisão em um acordo com a prefeitura de Nova Iorque, pelo qual fez apresentações de equilibrismo em escolas. Recentemente foi lançado um documentário contando a história da aventura: Man on wire.

No Shobogenzo Zuimonki [Capítulo 2 Caso 3], Dôgen Zenji conta um caso igualmente interessante:
Noutro dia, os discípulos do Mestre Eisai comentaram com ele: "Cremos estar a localização deste monastério perto demais do Rio Kano, se houver uma inundação isto atingirá nosso monastério também."

Sobre isto, o Mestre teve algo a comentar: "Porque se preocupar com futuras calamidades? Por exemplo, do monastério de Jetavana na Índia sobram tão somente os alicerces. Contudo, nem por tal razão qualquer mérito de sua construção foi perdido. Que enorme não será o mérito de aqui praticarmos, seja ao menos um, ou meio ano!"

Desta conversa é possível chegar à conclusão que, sendo seguramente levantar um monastério o empreendimento mais importante de nossa vida, devemos nos preocupar com calamidades futuras. Porém, mesmo sabendo disto, o Mestre estava ciente do verdadeiro sentido de se erigir um monastério. Avaliemos então as palavras de Mestre Eisai."

Generosidade sem condições (atualizado)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Entende-se como generosidade não só doações materiais, mas todo tipo de doação, seja a de trabalho voluntário até o próprio ensino do Dharma, considerada por Buddha como a forma de generosidade com maior alcance benéfico para os seres.

A generosidade realizada para obtenção de benefício próprio é considerada incompleta, não só no Buddhismo como também em outras tradições religiosas.

Jesus Cristo (Mateus 6, 1:4) adverte quanto a ser generoso para ser reconhecido por outras pessoas:
"Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto"

O texto zen Shodoka - O Canto da Libertação adverte ainda quanto a ser generoso em busca de recompensa divina ou espiritual:
"A caridade feita condicionada a recompensas celestiais
é como atirar flechas no céu.
Quando sua força é gasta, a flecha cai
assim como os seres ascendem e decaem."


O Bhagavad Gita (Capítulo 5 verso 12), a exemplo de diversos ensinamentos Buddhistas, adverte contra qualquer ação feita em busca de recompensas:
"Renunciando ao fruto de suas ações, o karma Yogi atinge um estado sublime de paz mental. Mas aquele que trabalha com o intuito de aproveitar os frutos de suas ações, assim apegado, fica preso no emaranhado da vida profana."
[Observação: no Buddhismo, entende-se como karma somente a ação em si, e não o resultado da ação - chamado de vipaka]
Cristo (Lucas 6:35) também fala sobre fazer o bem sem esperar nada em troca:
"Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus."

O Buddha no Sutra do Diamante afirma a mesma idéia:
"Subhuti, Bodhisattvas que alcançam méritos não devem ser algemados com desejos por recompensas."

É claro que é melhor que eu tente ser generoso, mesmo ainda apegado a alguma idéia de recompensa, do que não ser generoso de forma alguma. Mas é preciso que eu esteja atento para minimizar a possibilidade dessa generosidade se tornar um motivo de orgulho para o ego, fortalencendo-o.

Bons amigos

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O que é um bom amigo? Será a definição de bom amigo aquele sempre pronto para me acompanhar em festas, jogos, qualquer diversão ou lazer? Aquele que sempre concorda com tudo que eu falo e penso? Ou aquele que gosta de tudo que eu gosto e não gosta de tudo que eu não gosto? Uma das definições mais antigas de um falso amigo é a do amigo de Jó: Na alegria ele aparece, na tristeza ele some.

Eu acho que a definição de um bom amigo é aquele que é um bom amigo, independente do que aconteça. É um bom amigo, simplesmente por ser. Lhe ajuda, não esperando absolutamente nada em troca. Ele lhe oferece ajuda nos momentos difíceis, é o mesmo na alegria e na tristeza, dá bons conselhos, é compassivo. Ele lhe acolhe nos momentos difíceis, o refreia de fazer coisas erradas (que possam causar seu próprio mal ou de outros), lhe encoraja a fazer o bem.

O engraçado é que muitas pessoas não buscam a amizade de verdadeiros bons amigos, e até se afastam deles - muitas vezes, por motivos bobos. Um bom e verdadeiro amigo pode não gostar muito de festas, pode nos dar conselhos dos quais não gostemos muito (por contrariar nossa vontade), pode não gostar do mesmo tipo de música, pode não corresponder às nossas expectativas sociais.

Agora, como posso eu mesmo ser um bom amigo? - Agindo da mesma forma, ou seja, sem condições, sem esperar nada em troca, sem ser interesseiro. Posso até mesmo retribuir a um bom amigo, sendo um bom amigo dele, não por ele esperar algo de mim, ou por eu esperar algo dele - simplesmente por ser um bom amigo.

Na verdade um excelente amigo, uma pessoa verdadeiramente admirável, é um bom amigo de qualquer pessoa, de todas as pessoas, sem distinção. É amigo até mesmo de seu inimigo. Ele não espera nada em troca para ser um bom amigo, absolutamente nada em troca, nem mesmo reconhecimento, nem ganho espiritual - age verdadeiramente incondicionalmente, a todo momento, em todos os lugares.

Ananda disse ao Buddha:
“Venerável senhor, isto é metade da vida espiritual, ter pessoas admiráveis como bons amigos.”
Respondeu-lhe o Buddha:
“Não diga isso, Ananda. Não diga isso, Ananda. Isso é toda a vida espiritual, Ananda, isto é, ter pessoas admiráveis como bons amigos."