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Qual é o Buddha?

sábado, 7 de novembro de 2009


Se os dois bonecos acima fossem duas pessoas sentadas em meditação, e eu soubesse (de uma maneira qualquer) que ao menos um deles é um Buddha perfeitamente consumado, como eu saberia qual é o Buddha?

Digamos que eu não conheça nenhum dos dois. Ambos estão sentados perfeitamente imóveis, na mesma posição. Não conheço seus pensamentos. Não posso atrapalhar a meditação deles.

Qual dos dois é o Buddha?

Os dois estão exatamente na mesma posição. Os dois estão fazendo exatamente a mesma coisa (apenas sentados, em meditação). Não há absolutamente nada que distingua um do outro naquele momento.

O que resta? Na mente deles, pode haver alguma diferença... Mas qual diferença? Um pode pensar que é um Buddha, outro pode pensar que não é um Buddha (o que não garante nada, pois ambos podem até estar enganados), ou podem até não pensar nada - de qualquer forma eu não sei, e se soubesse, poderia estar até enganado. Será que importa mesmo o que eles estejam pensando ou não estejam pensando?

Não me resta nenhuma alternativa senão aceitar, que naquele momento, para mim, ambos são igualmente e verdadeiramente Buddha.

Sobre acreditar na Mente

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]

Baseado na tradução de D.T.Suzuki


O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.

Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade

[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.

Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.

Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?

E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.

Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.

Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.

Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.

Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.

O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.

Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.

O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.

Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?

O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.

O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.

Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.

Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.

Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?

O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.

Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.

Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.

O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.

Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".

Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.

Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.

Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.

O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.

Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!

Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.



Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.

Algumas notas sobre minha prática pessoal

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Esse texto está em ordem crescente, mas repetidamente me vejo logo no começo novamente. Na verdade, passo muito mais tempo no começo do que no "final".
{Shikantaza-Começo}
No começo, eu não tenho nem idéia que minha ações possam trazer sofrimento para mim e para os outros. Ajo em total ignorância, sem distinguir o certo e o errado, de modo confuso.
{Shikantaza-Ignorância}
Depois, até consigo ver o que seria o certo (ou menos errado), mas não consigo agir da maneira correta. Então fico inventando desculpas para explicar meus próprios erros e tento arranjar culpados quando só eu mesmo sou o culpado.
{Shikantaza-Ego}
De repente, eu até começo a conseguir fazer algumas coisas corretamente, mas fico com orgulho disso, e passo a julgar os outros que não fazem as coisas "corretamente" como eu.
{Shikantaza-Virtude}
Então, eu começo a ver que essas pessoas na verdade não sabem exatamente o que elas estão fazendo (exatamente como eu no começo), passando então a entender porque elas fazem coisas "erradas", não mais me julgando melhor que elas. Esse entendimento pode ser uma parte do que se chama de "compaixão".
{Shikantaza-Compaixão}
Finalmente, eu não vejo muitas coisas certas e erradas, nem em mim nem nos outros. Porém não é como no começo. Não é algo confuso, e sim algo claro. Tudo parece estar onde deveria estar.
{Shikantaza}
Depois... - eu não sei. Será que é só isso?
{Shikantaza?}
Hora de começar tudo de novo.
{Shikantaza}

O mercador de Tabriz

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O mercador de tapete. Autor: Addison Thomas Millar

Um mercador de Tabriz vendia magníficos tapetes persas por 14 peças de ouro, obtendo um lucro de 4 peças de ouro em cada peça. Certo dia um comprador aproximou-se de sua tenda no mercado lhe oferecendo um negócio:

- As'salaam Aleikum, akh. Vejo que o senhor vende esses fomidáveis tapetes por 14 peças de ouro. No entanto, há um novo comerciante na parte baixa do mercado que vende tapetes de qualidade equivalente por somente 13 peças de ouro, uma verdadeira barganha. O senhor não me venderia um de seus tapetes por 12 peças de ouro?

Assim acabaram fechando negócio por 12 peças de ouro.

Caso 1:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Maldito dia. Esse comprador acaba de me fazer perder 2 peças de ouro.

Caso 2:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Que dia maravilhoso! Esse comprador acaba de me fazer lucrar 2 peças de ouro!

Caso 3:

Após o comprador ter ido embora com o tapete, o mercador comenta com seu assistente:
- Ouvi falar que poderemos ter ótimas tâmaras na próxima estação de colheita. Insha'Allah!

Caso 4:

Conte o seu caso!

A Queda de Adão

domingo, 16 de agosto de 2009

(Atenção! O texto a seguir é potencialmente inapropriado, vide algumas ressalvas em Avisos.)


A Queda de Adão, ou A Queda do Homem, ou simplesmente 'a Queda' é talvez o símbolo e o ponto fundamental da Bíblia. Muitos levam a história de Adão e Eva ao pé da letra, outros a descartam como mitologia inventada arbitrariamente, ou pura historinha de criança. Eu já gosto de interpretá-la simbolicamente, o que é somente meu ponto de vista. De um certo modo, todos estão certos. De outro certo modo, todos estão errados.

Minha interpretação particular é de que a Queda do Homem simboliza simplesmente a separação do homem de Deus, ou separação de sua Natureza Original, ou em outras palavras, a dualidade inicial. Na Bíblia isso ocorre quando Adão e Eva comem da fruta da 'Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal'. Mais genericamente, poderia-se dizer que é a Árvore do Conhecimento de todas as dualidades e diferenciações: Bem e Mal, Sujeito e Objeto, Dentro e Fora, Eu e Não-Eu, Grande e Pequeno, Longe e Perto, etc. Poderia-se dizer que essas dualidades, ou separações, são a origem do sofrimento. (Desculpem-me pela fuga da interpretação tradicional de "pecado original", mas no momento estou querendo generalizar o máximo o possível.)

A Árvore é 'do Conhecimento' simplesmente porque essas diferenciações são meramente interpretativas/cogniscíveis, isto é, não são reais de um ponto de vista universal/absoluto, no máximo aparentemente reais de um ponto de vista particular/relativo, ou a partir de definições arbitrárias/axiomáticas.

Até onde sei, quase todas as religiões falam de algo parecido com a Queda de Adão de uma forma ou de outra.

No Taoísmo, eu diria que a Queda de Adão dá-se a partir da dualidade inicial, ou Yin e Yang. Antes da dualidade, há a Unicidade fundamental, ou Taiji. E antes da Unicidade, há o Nada fundamental ou Wuji.

No Budismo, a dualidade inicial é a Forma-Vazio. Mas diz o Sutra do Coração: forma é vazio, vazio é forma. A forma em si é vazio, o vazio em si é forma. Ou seja, ambos forma e vazio não possuem existência independente/inerente. Quando o Boddhisatva Avalokitesvara "viu" claramente que todos os agregados são vazios de existência independente/inerente, ele se libertou de todo o sofrimento.

O caso 23 da coleção de koans Mumonkan segue assim:

Eno, o Sexto Patriarca do C'han (Zen) Chinês, estava sendo perseguido pelo monge Emyo até Daiyurei. O patriarca, vendo que Emyo estava chegando, soltou o manto e a tigela em uma pedra, e disse a ele:
- Esse manto representa a fé. Por acaso ele deve ser disputado pela força? Você pode tomá-los agora.
Emyo foi até a tigela e o manto porém eles eram tão pesados quanto montanhas. Ele não conseguia movê-los. Hesitando e tremendo, ele perguntou ao Patriarca:
- Eu vim pelo ensinamento, não pelo manto. Por favor, me desperte!
O patriarca lhe perguntou:
- O que é primordialmente Emyo (isto é, sua Face Original), se você não pensar 'isto é o bem' nem pensar 'isto é o mal'?
Naquele momento, Emyo teve um grande despertar.


Meu comentário: O grande despertar de Emyo parece com a Queda de Adão, ao contrário.



P.S.:

Alguém pode dizer que eu estou forçando a barra, querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. E ele está certo, realmente eu estou forçando a barra, e estou querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. De qualquer forma é tudo uma questão de simbologia. Ou seja, tanto faz eu dizer que o gato está subindo na mesa, ou o cachorro descendo da mesa. Nesse caso, eu quero dizer que o cachorro é o gato e descer é subir. A mesa é mesa mesmo, para não complicar muito. Ou seja, o importante é estarmos falando da mesma coisa. Ou a mesma lua sendo apontada pelo dedo. Meditadores, programadores e linguistas talvez me entendam mais facilmente.

Sobre o que é possível mudar (Nossas próprias ações)

sábado, 8 de agosto de 2009


Eu tive uma conversa interessante com colegas do trabalho recentemente. Elas estavam reclamando que as pessoas não agiam como elas gostariam que as outras agissem com elas (numa maneira que elas consideravam mais adequada e justa num determinado contexto). Eu disse a elas que, talvez, ao invés de querer que as pessoas agissem como gostaríamos que elas agissem, deveríamos nós mesmos agir como gostaríamos que elas agissem conosco.

A princípio elas não entenderam muito bem o que eu quis dizer, com razão, pois os dois pontos de vista são discursivamente semelhantes o suficiente para causar alguma confusão. Ambos os pontos de vista falam de "como 'gostaríamos' que as pessoas agissem". Mas do ponto de vista prático são totalmente diferentes. No primeiro ponto de vista, queremos que as pessoas ajam de determinada forma. No segundo ponto de vista, agimos (nós mesmos) daquela determinada forma. Eu me expliquei melhor com um exemplo, que foi mais facilmente entendido:

A maioria das pessoas gostam de receber um cumprimento de "bom dia!" ao chegar em algum lugar pela manhã. Logo, 'gostaríamos' que as pessoas nos desejassem sempre um "bom dia". No primeiro ponto de vista (da minhas colegas), queremos que as outras pessoas nos deem um "bom dia", e se não o recebemos, nos decepcionamos. No segundo ponto de vista (que propus), nós mesmos damos imediatamente o "bom dia" que 'gostaríamos' de receber, porém sem necessariamente esperar receber literalmente um "bom dia" em troca.

Ao compreender melhor o que eu quis dizer, elas imediatamente concordaram que há diferença entre esses pontos de vista. De fato não temos controle nenhum sobre as ações das outras pessoas. Temos controle (mesmo que limitado) apenas sobre nossas próprias ações. Logo, se quisermos que algo aconteça, nós mesmo temos que fazer algo naquele sentido.

Querer que outras pessoas literalmente ajam de determinada maneira, é um convite certo para muitas vezes nos decepcionarmos. Porém querer "teoricamente" que as pessoas ajam de determinada maneira pode ser um guia para direcionarmos as nossas próprias ações, e somente nossas próprias ações, já que as ações dos outros não podemos controlar.

(...)

(De)Hierarquização das Coisas

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Não faz sentido dizer que uma coisa é melhor que outra. Não faz sentido eu dizer que uma grande árvore é melhor do que uma simples violeta. Cada uma tem a sua característica própria, bem diferente, porém nem inferior nem superior.

Eu posso até achar um árvore frutífera cheia de folhas mais bonita que um cacto. Porém isso é só minha opinião. A árvore e o cacto são o que são. Cada um tem sua função e características próprias. A natureza própria de um cacto é ser um cacto, e não uma outra coisa que alguém possa querer.

Não há como dizer que um ovo é melhor ou mais importante que uma galinha, ou vice-e-versa. Cada um tem seu espaço e importância. Cada um tem o seu papel específico, cada um a seu tempo e de seu jeito, tendo sido originado com causas e condições específicas.

Mesmo duas coisas, aparentemente de mesma categoria, não merecem ser comparadas. Eu poderia comparar dois pares de sapatos, um par novo e um par velho, e achar o par novo melhor. Porém isso seria uma absoluta bobagem. O par novo de hoje será o par velho de amanhã. E o par velho é velho pois me serviu por muito tempo. Por que ele seria pior?

Todas as coisas tem seu devido lugar e importância. Nada é mais ou menos que a outra. Essas comparações são meramente opiniões e comparações arbitrárias, inventadas pelo meu ego. De fato até a divisão das coisas é arbitrária, gerando essas comparações artificiais. No fundo todas as coisas parecem ser igualmente importantes, por serem interdependentes, mas também diferentemente importantes, no sentido de serem incomparáveis em suas diferentes funções e causas e condições específicas.

(De)Hierarquização das Pessoas e Seres

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"Jesus Cristo ou Buddha, qual seria o maior, ou mais importante?". Na minha opinião, e pelo que sei do budismo, não há necessidade de se fazer nenhuma comparação desse tipo. Quem é maior ou menor, quem é mais importante ou menos importante, quem é superior ou inferior; essas são questões desnecessárias, não-importantes, e no fundo, sem sentido. Tem uma entrevista da Monja Coen Sensei em que ela conta sobre um sonho que teve sobre esse assunto.

Não há necessidade de nenhuma competição ou comparação. Isso não só entre Cristo e Buddha, mas entre qualquer pessoa. Ninguém deve se considerar superior, maior ou menor a ninguém. Quando quiseram apedrejar a mulher adúltera, Jesus Cristo disse: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”(João 8:7). Acusados pela própria consciência, ninguém se atreveu a continuar com a barbárie. Tampouco Jesus Cristo o fez, não por ser pecador, mas por não julgar e por perdoar, não se considerando superior aos outros, mas igual como Homem que também era.

Jesus Cristo também disse: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). Veja que Cristo não diz "Ama teu próximo mais que a ti mesmo" ou "Ama a teu próximo menos que a ti mesmo". Ele conclama que não nos consideremos mais ou menos que os outros. E assim Cristo também o fez: “O meu mandamento é este (disse Jesus): Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. (João 15:12)

Mais ainda que isso: Cristo diz “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam.” (Lc 6,27-28). Ou seja, não devemos nos considerar superiores a ninguém, ninguém mesmo. Ninguém deve ser deixado para trás. Já me vi inventando desculpas esfarrapadas para não levar esses ensinamentos em consideração. É verdade que é muito difícil de fazer isso. É muito mais fácil amar e gostar daqueles que nos amam. Mas como disse Santo Agostinho: "Se você acredita no que você gosta do evangelho, e rejeita o que você não gosta, não é no evangelho que você acredita, mas em você mesmo."

Ensinamentos análogos são encontrados no budismo, como no Karaniya Metta Sutta:

"Todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres sejam felizes no coração.

Que ninguém engane
ou despreze outrem, em nenhum lugar,
ou devido à raiva ou má vontade
deseje que alguém sofra.

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege o seu filho, o seu único filho,
da mesma forma, abraçando todos os seres,
cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda a volta,
desobstruído, livre da raiva e da má vontade."