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O Giro da Roda do Dharma

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011


Em uma palestra do Monge Genshô no Rio de Janeiro, um dos presentes lhe fez uma pergunta mais ou menos assim:

"Não é contraditório que existam essas regras e hierarquia no Zen?"

Ele provavelmente fez essa pergunta em função da abordagem não-conceitual no Zen (como sugerido no título do livro de D.T. Suzuki, "A doutrina zen da não-mente"), e talvez influenciado por alguma escola não-buddhista que pregue a ausência de regras e hierarquia.

Monge Genshô lhe respondeu que não, pelo contrário, e que o treinamento Zen era principalmente um treinamento de "forma", ou de regras bem definidas. Ele inclusive contou que um de seus professores no templo de Yokoji baseava o treinamento principalmente nisso: forma, forma, forma até a exaustão. Também que a necessidade e o sentido dessas regras, muitas vezes incompreendidas a princípio, acabavam por revelarem-se pouco a pouco com a prática.

Não me lembro exatamente toda a explicação, mas provavelmente apontou até que, se não houvesse um método de treinamento (que por definição precisa de regras), provavelmente não sobraria muita coisa que pudesse ser chamada de Zen. O que remete ao dito "com esforço não se consegue nada, mas sem esforço aí mesmo é que não se vai a lugar algum", o que poderia ser adaptado para algo como "com treinamento não se consegue nada, mas sem treinamento não se vai a lugar algum".

Isso talvez cause confusão em algumas pessoas, é um tanto paradoxal, e confesso, provavelmente me falte clareza o suficiente para explicar a compatibilidade entre "a doutrina zen da não-mente" e as inúmeras regras de treinamento no Zen.

Mas um interessante "causo" do mundo da informática talvez ponha um pouco de luz à essa questão. Os personagens são Marvin Minsky, um dos pioneiros na área de inteligência artificial e redes neurais, pesquisador e professor do MIT, e seu então aluno, Gerald Sussman, atualmente também pesquisador e professor na mesma área.

"Então Sussman começou a trabalhar em um programa. Não muito tempo depois, um cara meio esquisito e careca apareceu. Sussman imaginou que o cara iria expulsá-lo da sala, mas ao invés disso o homem sentou-se, perguntando - Ei, o que você está fazendo? Sussman conversou sobre o programa com o homem, Marvin Minsky. Em certo ponto da discussão, Sussman disse a Minsky que ele estava usando uma certa técnica de randomização em seu programa porque ele não queria que a máquina tivesse noções pré-concebidas. Minsky lhe disse: - Bem, ela as tem [noções pré-concebidas], a diferença é que você não sabe quais elas são. Foi a coisa mais profunda que Gerry Sussman jamais havia ouvido. E Minsky continuou, dizendo a ele que o mundo é feito de certa forma, e que a coisa mais importante que podemos fazer com o mundo é evitar a aleatoriedade, e imaginar maneiras pelas quais as coisas possam ser planejadas. Sabedoria como aquela teve forte efeito no calouro de dezessete anos, e dali então Sussman estava capturado."

Marvin Minsky talvez seja um dos seres humanos vivos mais inteligentes, e fica claro na história acima que ele não estava falando somente de programas de computador, mas de mentes humanas também. O ponto que ele levanta é muitíssimo interessante.

Sabe-se que no Budismo, não somente o fim do sofrimento pessoal é importante - infinitamente mais importante é o fim do sofrimento de todos os seres. Ainda que uma pessoa tenha a imensurável boa sorte (ou melhor, as inúmeras condições apropriadas) de conseguir eliminar todo o sofrimento na primeira vez que sente em meditação, é necessário um esforço imensamente maior e mais elaborado para eliminar o sofrimento de todos os seres nas dez direções, de seus respectivos pontos de vista relativos. E é claro, para aqueles que como eu que não conseguiram tal façanha, é preciso um esforço e método continuados de prática, que por sua vez é proporcionado por um grande número de amigos que nos ajudam nessa empreitada.

Quem já participou de sesshins já pode ter percebido que trata-se de uma estratégia cuidadosamente planejada para criar o máximo de condições propícias para levar os participantes a uma experiência de esclarecimento, ou em outras palavras, ao início do fim do sofrimento. Essa estratégia é composta por um grande número de regras, cada uma com sua importância, que aos poucos vamos compreendendo. E é claro, a estratégia é executada por atores, que somos nós, os praticantes.

E quem foi o grande estrategista que ensinou o Caminho e criou as inúmeras regras monásticas e leigas iniciais que resultaram nas diversas escolas e métodos budistas que temos hoje? Ninguém menos que Shakyamuni Buddha. A esse grande e maravilhoso impulso chamamos de "O Giro da Roda do Dharma".


(Nesse texto, "Zen" refere-se às escolas Zen Budistas tradicionais, e provavelmente à maioria das escolas Budistas.)
Os Três Giros da Roda do Dharma: http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=42

O Caminho da Sabedoria (conclusão)

terça-feira, 31 de agosto de 2010


"O que este Caminho da Sabedoria é feito para conquistar? Há três classes de condições que impedem o indivíduo de avançar no caminho da Iluminação. Primeiro, há atrações surgidas dos sentidos, de condições externas e da mente discriminadora. Segundo, há as condições internas da mente, seus pensamentos, desejos e humor. As práticas preliminares são feitas para eliminar todas essas. A terceira classe de impedimentos são as urgências instintivas e fundamentais do indivíduo - a vontade de viver e de aproveitar, a vontade de adorar a própria personalidade, a vontade de propagação, que dão origem à ganância e luxúria, medo e raiva, soberba, orgulho e egoísmo. A prática da Perfeição da Sabedoria (Prajna Paramita) é feita para controlar e eliminar esses impedimentos instintivos. Por ela a mente gradualmente se torna mais clara, mais luminosa, mais pacífica. A compreensão se torna mais penetrante, a fé se aprofunda e se amplia, até que elas se fundem no inconcebível Samadhi da Natureza Pura da Mente. Na medida que o indivíduo continua na prática do Caminho da Sabedoria, ele se torna menos e menos suscetível à pensamentos de conforto e de desolação; a fé se torna mais confiante, mais pervasiva, beneficente e contente; e o medo e o retrogresso desaparecem. Mas não pense que a consumação pode ser obtida facilmente ou rapidamente; muitos renascimentos podem ser necessários, muitos ciclos universais podem ter que passar. Enquanto houver dúvida, descrédito, difamação, má-conduta, impedimentos kármicos, fraqueza de fé, orgulho, preguiça e agitação mental, enquanto mesmo sombras desses persistirem,  não pode haver a conquista do Samadhi dos Buddhas.  Mas aquele que conquista a radiância do mais alto Samadhi, será capaz de realizar, com todos os Buddhas, a perfeita unidade de todos os seres com o Dharmakaya da Natureza de Buddha. No puro Dharmakaya não há dualismo, nem sombra de diferenciação. Todos os seres sencientes, se apenas pudessem perceber isso, já estão no Nirvana. A Natureza pura da Mente é o Mais Alto Samadhi, é Anuttara-samyak-sambodhi, é Prajna Paramita, é a Mais Alta Sabedoria Perfeita."

Ashvaghosha - O Despertar da Fé Mahayana (in: The Perennial Philosophy, por Aldous Huxley)

O Caminho da Sabedoria

domingo, 29 de agosto de 2010


"Quando uma pessoa se levanta, fica de pé, caminha, faz algo, pára, ela deve constantemente concentrar a mente no próprio ato, não na sua relação com o ato, nem na sua natureza ou valor. Deve-se ter em mente [não-verbalmente]: há caminhar, há parar, há realizar; e não: eu estou caminhando, eu estou fazendo isso, é uma coisa boa, é uma coisa ruim, eu estou ganhando mérito, sou eu que estou percebendo quão maravilhoso isso é. Então surgem pensamentos agradáveis, sentimentos de elação ou de fracasso ou de infelicidade. Ao invés de tudo isso, deve-se simplesmente praticar a concentração da mente no próprio ato, entendê-lo como um meio hábil para o despertar da tranqüilidade da mente, realização, insight e Sabedoria; devendo-se seguir a prática da fé, diligência e contentamento. Após um longo período de prática, a amarração a velhos hábitos se enfraquece e desaparece, e no seu lugar aparecem confiança, satisfação, atenção plena e tranqüilidade."

Ashvaghosha - O Despertar da Fé Mahayana (in: The Perennial Philosophy, por Aldous Huxley)

Kannon de Mil Braços

terça-feira, 27 de abril de 2010


"Considere Kannon de mil braços, que tem mil braços saindo de um só corpo. Se a mente se fixar no braço que segura um arco, os demais novecentos e noventa e nove braços serão perfeitamente inúteis. É porque a mente não se detém em um determinado lugar que todos os braços são úteis. Quanto a Kannon, por que ela tem mil braços ligados a um só corpo? Essa figura foi criada com a intenção de revelar aos homens que, mesmo que um corpo tenha mil braços, cada um deles será útil se a sua sabedoria for libertada."
Takuan Sôhô (A mente liberta: escritos de um mestre Zen a um mestre da espada / The Unfettered Mind)

Tudo é ilusão; tudo é passageiro

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Eclesiastes 1 (Tudo é ilusão)

(1) O autor deste livro é Salomão, rei em Jerusalém, filho do rei David, conhecido como o pregador.

(2) Na minha opinião tudo é ilusão; tudo é passageiro.

(3) O que é que uma pessoa ganha com todo o duro trabalho que tem?

(4) As gerações vão passando, umas após outras, sem que haja alteração nisso.

(5) O Sol nasce, e põe-se, mas volta sempre ao lugar onde nasceu;

(6) o vento sopra ora do sul, ora do norte, duma banda doutra, circulando na atmosfera, mas para não chegar a sítio nenhum.

(7) Os rios correm para o mar, mas este nunca chega a ficar cheio, e essa água por fim retorna aos rios, para correr novamente para o mar.

[...]

(12-13) Eu, o pregador, fui rei de Israel, vivendo em Jerusalém; e apliquei-me a procurar entender tudo no universo.

(14) Descobri então que a sorte do ser humano, que Deus lhe destinou, não é nada boa. É tudo loucura, é tudo andar a correr atrás do vento.

(15) O que está mal não pode ser corrigido; e também não vale a pena reflectir sobre como as coisas poderiam ter sido doutra forma.

(16) Disse assim para comigo: Afinal, sou mais instruído do que qualquer dos reis que me precederam em Jerusalém. Tenho uma melhor bagagem de sabedoria e de conhecimentos.

(17) É porque me esforcei grandemente por ser sábio, e não ignorante; no entanto dou-me conta agora de que até isto foi também como correr atrás de nada.

(18) Porque quanto maior era a minha sabedoria, maiores eram as minhas preocupações; aumentar os conhecimentos apenas traz consigo aumento de aflições.

[...]

Eclesiastes 3 (Tudo tem um tempo próprio)

(1) Existe um tempo próprio para tudo, e há uma época para cada coisa debaixo do céu:

(2) um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou;

(3) um tempo para matar, um tempo para curar as feridas; um tempo para destruir e outro para reconstruir;

(4) um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para se lamentar e outro para dançar de alegria;

(5) um tempo para espalhar pedras, um tempo para as juntar; um tempo para abraçar, um tempo para afastar quem se chega a nós;

(6) um tempo para andar à procura e outro para perder; um tempo para armazenar e um para distribuir;

(7) um tempo para rasgar e outro para coser; um tempo para estar calado e outro tempo para falar;

(8) um tempo para amar, um tempo para odiar; um tempo para a guerra, e um tempo para a paz.

(9) O que é que uma pessoa realmente obtém com o seu esforço?

[...]

(19) Pois tanto estes como aqueles, ambos respiram o mesmo ar, ambos morrem. É assim que a humanidade não tem vantagens reais sobre os animais. Eis outra coisa absurda!

(20) Tudo vai ter ao mesmo lugar - todos são pó e ao pó voltarão.

(21) Quem pode provar que o fôlego do homem vai para cima e o dos animais fica no pó da terra?

(22) É dessa forma que eu constatei que não há nada melhor para o homem do que ser feliz no seu trabalho; é esse o seu quinhão na terra; ninguém o fará voltar à vida para ver o que acontecerá depois dele; por isso, que disfrute do presente!

O Coração do Sutra Prajna Paramita - Versão muda (hanzi/kanji)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em japonês)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009



Kanji zai bosatsu. Gyojin hannya haramita ji. Shoken go onkaku. Do i issaï ku yaku.

Sharishi. Shiki fu i kû. Kû fu i shiki. Shiki soku zékû. Kû soku zé shiki. Jusô gyo shiki. Yakubu nyozé.

Sharishi. Zécho hokû sô. Fushô fumetsu. Fuku fujô. Fuzô fugen. Zékokû chû. Mu shiki mu ju sô gyo shiki.

Mugen ni bi zesshin. Mu shiki shokô mi soku ho. Mugen kai nai shimu i shiki kai. Mu mu myô yaku mu mu myô jin. Naishi murô shiyaku murô shinjin. Muku shû metsu dô. Muchi yaku mu toku. I mushotoku ko.

Bodai sat ta. E hannya haramita ko. Shinmu kégému kégéko. Mu û ku fu. On ri issaï tendô musô. Kugyô néhan. Sanzé shobutsu. E hannya haramitako. Toku a nokuta rasan myaku san bodaï. Kochi Hannya haramita. Zédai jin shû. Zédai myô shû. Zému jô shû. Zému todo shû. Nojo issaï ku. Shin jitsu fu. Koko ketsu hannya haramita shû. Soku setsu shû watsu.

Gyatei, gyatei, hara gyatei, hara sô gyatei, Boji sowaka. Hannya shingyô

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em Sânscrito)

terça-feira, 8 de setembro de 2009



Aryavalokitesvara 'Bodhisatva. Gharnbhiram Prajna-Paramita Caryaym Caramano,

Vyavalokiti Smaa Panca-skanda Asatta Sca Svabhaba Sunyam Pasyati Smaa

Iha Sariputra, Rupam Sunyam Sunyata iva Rupam.

Rupa Na. Vrtta Sunyata, 'Sunyataya Na Vrtta Sa Rupam Yad Rupam-Sa-sunyata, Yad Sunyata Sa-rupam Evam Eva. Vedana, Samjna Sam-skara Vijnanam

Iha Sariputra Sarva Dharma Sunyata-Laksana Anutpanna Aniruddha, Amala A-vimala, Anuna A-paripurna

Tasmat Sariputra Sunyatayam Na Rupam, Na Vedana, Na Samjna, Na Samskara, Na Vihnanam. Na Caksu Srotra Ghrana Jihva Kaya Manasa, Na Rupam Sabda Gandha Rasa Sparstavya Dharma

Na Cakso-dhatu Yavat Na Manovijnam-dhatu Na Avidya, Na Avidya Kasayo. Yavat Na Jara-maranam, Na Jara Marana Ksayo. Na Dukha Samudaya, Nirodha, Marga

Na Jnana, Na Prapti, Na Abhi-samaya, Tasmat Na Prapti Tva Bodhisattvanam, Prajna-paramitam Asritya Viharatya Citta Avarana, Citta Avarana Na Shitva Na Trasto, Vi-paryasa Ati Kranta Nistha Nirvanam.

Try-adhva Vyavasthita sarva, Buddha Prajna-paramitam A-sritya Anuttara-samyak-sambodhim Abhi-sambuddha.

Tasmat Jnatavyam Prajna Paramita Maha-mantra, Maha-vidhya Mantra, Anuttara Mantra, Asama-samati Mantra. Sarva Dukha Pra-samana Satyam Amithyatva

Prajna-paramita Mukha Mantra Tadyatha,

Gate Gate Para-gate Para-samgate Bodhi Svaha

Koans e Frases de sabedoria

sábado, 15 de agosto de 2009

Alguns koans e "frases de sabedoria" no vídeo abaixo (em inglês). Mesmo para quem não saiba inglês, não há problema, pois a música e as imagens são tão excelentes quanto as frases!

A perspectiva de terceira pessoa (Parte II: Deus)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

"O temor do Senhor é o princípio da sabedoria"
(Provérbios de Salomão 9:10)

Durante o período em que fiquei sem a referência benéfica de orientação dos meus pais, passei por um jejum espiritual bastante temível em que eu tendi para idéias niilistas, duvidando da existência de um significado da vida como um todo. A religião cada vez mais deixava de me satisfazer intelectualmente (e nesse período minha mente foi dominada por uma espécie de extremismo de racionalismo); ao conhecer as idéias de diferentes religiões elas pareciam aparentemente contraditórias, e sendo aparentemente impossível discernir qual delas seria a verdadeira, se é que uma realmente era verdadeira.

Após muitos altos e baixos, uma sede espiritual extremamente intensa naquela época me fez voltar a acreditar em Deus, ou em alguma coisa que eu não sabia bem o que era ou como definir (um princípio transcendente superior), mas que eu sentia como sendo verdadeira e que dava sentido à vida. Não sendo isso atrelado à uma religião específica, e após ter conhecido alguns clássicos de religião comparada, passei a entender as religiões de uma maneira bem diferente e menos contraditória.

Deus passou a ser para mim uma referência externa confiável, um farol, a quem eu deveria obedecer e respeitar, além dos meus próprios desejos e vontade, sendo eu algo infinitamente pequeno em comparação a Deus, mas ainda assim relevante. Isso de certa forma era um conforto espiritual muito grande, sendo muito melhor do que o total egocentrismo pelo qual eu passei.

Mas quem ou o que é Deus? Essa é uma definição bastante complicada, à qual diferentes pessoas irão responder diferentes coisas.

A maioria dos professores buddhistas defendem a posição de que não existe um Deus criador e eterno, em consonância com o argumento de Nagarjuna.

Eu (não sou professor muito menos autoridade, e mesmo se fosse isso seria só minha opinião) pessoalmente acredito que a "existência" ou "não-existência" de Deus independe de argumentos, já que estes só se baseiam em definições nebulosas e arbitrárias, em palavras. "Deus" é só uma Palavra. Mas sinto que a crença em Deus, ou num princípio superior transcendente e absolutamente confiável é muito benéfica e confortante para um imenso número de pessoas, e na minha opinião incomparavelmente melhor que um niilismo ou um egocentrismo exarcebado.

Definições são somente definições, e não são as coisas tais como elas são. Mas se me perguntassem o que eu entendo por Deus eu diria isso: Deus, para mim, é Tudo, e sendo assim, também é Nada.

"Porque és pó, e ao pó tornarás" (Gênesis 3:19)

Diáspora Tibetana

domingo, 15 de março de 2009

Cada vez fica mais claro que será muito difícil, senão impossível, que a China ceda qualquer coisa na questão tibetana. Eu mesmo, com um certo ceticismo egoísta, sempre achei a causa perdida, e até achava o Dalai Lama meio inocente e não-esclarecido por achar que havia possibilidade de negociação por uma autonomia significativa junto ao belicoso governo comunista chinês. Depois passei a admirá-lo pelo seu esforço por uma causa quase impossível, certamente com grande compaixão pelo imenso sofrimento dos tibetanos. Agora eu considero que, mesmo que não consiga nada, todos os dias S.S. vence a China, do ponto de vista ético, moral, da generosidade, da sabedoria e até histórico (a posteridade dirá).

Agora, a preservação da tradição tibetana, cada vez mais difícil em sua terra natal - que vem sendo sistematicamente colonizada por chineses, trazendo juntamente, à força, sua (neo-pseudo)cultura - depende em grande parte dos refugiados no exterior. Mais de 1000 refugiados conseguem escapar todos os anos chegando a Dharamsala, na Índia (onde está sediado o Governo Tibetano no exilio), após atravessar com imensa dificuldade as grandiosas montanhas do Himalaia, via Nepal, por poucas e perigosas passagens. Mais de 100 000 tibetanos vivem hoje no exílio. Mas talvez os que mais sofram sejam os tibetanos que continuam no Tibet, prisioneiros em sua própria terra.

Preservar integralmente uma cultura fora de sua terra é um feito dificílimo, do qual só se conhece um exemplo notável na história da humanidade: o dos judeus. No vídeo a seguir (em inglês), Dalai Lama fala da semelhança entre os tibetanos e os judeus, compartilhando do imenso sofrimento que este sofreram ao serem afastados de sua terra natal, das perseguições sistemáticas ao longo dos séculos, culminando na grande tragédia do Holocausto, à semelhança do sofrimento e da tragédia tibetana (estimam-se mais de 1,3 milhão de mortos em decorrência da invasão e repressão chinesa). Mesmo assim, num resultado altamente improvável, eu diria milagroso, os judeus conseguiram preservar sua cultura após quase 2000 anos afastados de sua terra natal. Visivelmente emocionado, Dalai Lama até brinca, pedindo que os líderes judeus com quem se encontrou lhe ensinassem alguma "técnica secreta" que eles guardassem.



Ficam aqui os votos para que a tradição tibetana possa ter longa vida, em sua terra natal ou longe dela, trazendo com ela, apesar da tragédia, benefícios para inúmeros seres.


Nota: O budismo tibetano também é praticado, em meio a culturas diferentes, em outros países, além dos países onde se encontram refugiados e adeptos. Notavelmente: Butão, Mongólia, Rússia e Nepal (que recentemente mudou de governo após anos de guerra civil provocada pelo partido comunista, de influência maoísta, partido este que inspirou um partido de igual caráter e intenções contra o pacífico Reino do Butão).

Citação Buddhista

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

"A maior conquista é a ausência de egoísmo.
O maior valor é o autocontrole.
A maior qualidade é procurar servir aos outros.
O maior preceito é a atenção contínua.
O maior remédio é o vazio de tudo.
A maior ação é não conformar-se com os hábitos.
A maior mágica é transformar as paixões.
A maior generosidade é o não-apego.
A maior bondade é uma mente pacífica.
A maior paciência é a humildade.
O maior esforço é não preocupado com os resultados.
A maior meditação é uma mente que deixa passar.
A maior sabedoria é ver além das aparências."
Atisha