Mostrando postagens com marcador duhkha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador duhkha. Mostrar todas as postagens

Zazen para todos

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Cena do filme "Zen": A vida de Dogen

O sofrimento é causado pela ignorância.
Ignorância é a ilusão do "eu".
A ilusão do eu é alimentada pelo desejo de que as coisas sejam diferentes do que são nesse exato momento.

A raiva ocorre quando algo não é como eu quero.
A cobiça ocorre quando eu quero algo que não tenho.

"Isso eu quero", "isso eu não quero", essas são as origens do sofrimento.

Zazen é a imediata cessação do sofrimento e das causas do sofrimento.
"Deixe vir, deixe ir", essa é a regra do Zazen. Deixar ser tal como é.

Buddha é aquele que é tal como é. Zazen é a prática de Buddha.
Sentando sem nada querer e sem nada buscar, experimenta-se pela primeira vez o gosto da liberdade.

Cada coisa tem seu lugar no contexto de todas as coisas. 
Querer algo diferente daquilo que é nesse exato momento é criar a ilusão do eu, desequilibrar o que estava equilibrado, a origem do sofrimento.
Ser tal como é nesse exato momento é estar no lugar correto no contexto de todas as coisas. É unir-se com todas as coisas.

Tempestade

terça-feira, 5 de julho de 2011


 Após o grande temporal,
A água sossega no oceano.
Foi uma tempestade feia,
Mas era apenas água afinal.

After the great storm,
Water settles in the ocean.
The hurricane was ugly,
But it was only water after all.

Sobre a frase "nascimento é sofrimento"

terça-feira, 14 de junho de 2011


Nota: esse texto tem como base somente minha experiência pessoal recente e não serve como ensinamento de Dharma.  

Com o fim recente e precoce de meu casamento veio à minha mente, juntamente com a dor emocional, a frase "casamento é sofrimento". Essa constatação me parece mais uma variedade da primeira Nobre Verdade declarada por Buddha Shakyamuni:

" Esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento." -- SN LVI.11

Essa declaração de Shayamuni Buddha muitas vezes é usada para argüir que o Budismo é uma religião pessimista. Em parte devido à tradução mais usual da palavra “duhkha” - sofrimento. Muitos professores contestam essa tradução preferindo outras como insatisfação, desequilíbrio ou desarmonia. Mas é difícil separar o que normalmente entendemos como sofrimento de duhkha, ainda que duhkha tenha um significado mais amplo e sutil. Nesse texto vou continuar usando a palavra sofrimento pois é mais apropriada no sentido que eu quero expressar.

A parte que mais me impressiona na declaração de Buddha Shakyamuni é “nascimento é sofrimento” (da onde muitas vezes a primeira nobre verdade é até expressada como "a vida é sofrimento"). O simples fato de nascer seria sofrimento? Eu entendi um pouco mais dessa frase com a minha experiência de “casamento é sofrimento”.

O casamento pode ser visto como uma vida dentro da vida de uma pessoa. Ela também tem seu nascimento – a cerimônia de casamento. E também tem seu fim – às vezes coincide com a morte física da pessoa – “até que a morte os separe” – e às vezes termina com a separação, como no meu caso. Quando eu percebi que meu casamento havia terminado, senti como se uma parte de mim houvesse realmente morrido.

Tal como o nascimento, é impossível impedir que o casamento acabe – e todo mundo sabe que morte é sofrimento, e a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento. Portanto casar invariavelmente implica em pelo menos um grande sofrimento futuro: o fim do casamento. Portanto “casamento é sofrimento”, assim como “nascimento é sofrimento” – basta nascer para que a morte seja inevitável.

Isso significa que casamento e nascimento são somente sofrimento? Que não vale a pena nascer e casar? Claro que não, qualquer um sabe disso. Também há imensa felicidade no nascimento (na vida) e no casamento. Eu fui muito feliz durante o casamento. Porém essa felicidade é intimamente ligada a um sofrimento inevitável, não é independente do sofrimento.

Perguntas verdadeiramente importantes

domingo, 8 de agosto de 2010


Talvez uma das perguntas mais importantes seja: "Como ajudar a superar a aflição e sofrimento, em mim e nos outros?" Foi uma pergunta mais ou menos assim que marcou o início da busca espiritual de Buddha Shakyamuni.

Outra maneira de fazer a mesma pergunta é "O que fazer para que no mundo haja paz e harmonia, para mim e para os outros?" A prática budista é praticar para que no mundo haja paz e harmonia. Foi mais ou menos dessa forma que Saikawa Roshi explicou a prática budista para a audiência após a cerimônia de ordenação monástica dia 25/07/2010 em Florianópolis, tal como eu me lembro.

Uma outra maneira de fazer essa pergunta, de maneira ainda mais abrangente, é "Qual é o Caminho? Qual é a Prática?" Foi a pergunta que Dogen Zenji teria feito quando percebeu a sabedoria de um tenzo (cozinheiro chefe) enquanto procurava por um mestre verdadeiro na China, tal como relatado no filme Zen - A vida de Dogen Zenji. O tenzo lhe respondeu algo como: "Continue perguntando, penetre nessa questão, e você encontrará o que procura." [Esse caso é relatado por Dogen no Tenzo kyokun]

A principal causa de sofrimento no mundo é nossa falsa noção de separação, o conceito de "Eu Sou", que é fortemente enraizado em nosso íntimo. Uma maneira de enfraquecer essa noção é perguntando sinceramente e profundamente "Quem sou eu?" É difícil encontrar quem sou eu de verdade. É mais fácil perceber o que eu não sou, embora na maior parte do tempo eu aja como se fosse essas coisas: eu não sou meu corpo, eu não sou minhas sensações, eu não sou minhas posses, eu não sou minha profissão, eu não sou esta ou aquela idéia, esse ou aquele pensamento. Todas essas coisas não sou eu. Quem sou eu?

Uma outra maneira de enfraquecer essa falsa noção de separação é praticando zazen-shikantaza. Por que não praticar?

Infalivelmente falível

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Hoje descobri que falhei em algo em que não esperava falhar. Pior, achei até que não falharia mesmo sem ter me esforçado para não falhar. Apesar de saber, racionalmente, que eu poderia falhar, a verdade é que quando ficou evidente que falhei, me senti muito decepcionado. Isso também foi uma falha, pois achava que não me sentiria decepcionado se falhasse. E isso também é uma falha, achar que eu poderia ser infalível, inclusive na aceitação da falha. Tudo originado no orgulho.

O Simbolismo da Cruz

sábado, 3 de abril de 2010


Nesse momento para mim o principal significado da Cruz é o do perdão. Na cruz o Senhor Jesus Cristo falou:

"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Lucas 23:34

Os atos ruins, que causam sofrimento, surgem da Ignorância. Por isso todos os erros são perdoáveis. Até o pior criminoso não faria o que fez se realmente compreendesse o que estava fazendo.

O perdão é um ato que tem a capacidade de transformar algo ruim em algo bom.

Uma ofensa não precisa ser seguida de outra ofensa. O perdão pode transformar uma ofensa em uma palavra doce.

O ódio não precisa ser seguido de ódio. O perdão pode transformar ódio em amor. O perdão e o amor se confundem.

O ato de perdoar parece não precisar de nenhuma pré-condição para poder acontecer. É uma característica inata nossa, é uma capacidade humana. Somos verdadeiramente capazes de perdoar, seja qual for a situação.

O Perdão verdadeiro é um ato puro que ignora quaisquer compensações passadas ou futuras. É por isso que Ele ressoa eternamente.

Esse para mim é o grande simbolismo da Cruz.


Vide também: Quebrando seqüências de atos ruins

Nevermind

quarta-feira, 24 de março de 2010

Todos buscam pelo fim da sede. Nadamos e nadamos em busca do fim da sede. Por sorte há aqueles que nadam conosco só para nos dizer: água por todo lado!

Monges do Deserto

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Os Monges do Deserto do Egito seguiam um caminho de três passos para o misticismo. O primeiro passo era chamado de "Purgatio", no qual o jovem monge lutava através de ações e práticas ascéticas para ganhar controle "da carne" - especificamente gula, luxúria e desejo de posses. Durante esse período, o jovem monge deveria aprender que qualquer força que ele tivesse para resistir a esses desejos (graça) vinha diretamente do Espírito Santo. No fim do "Purgatio", ou em grego "Catharsis", um período que frequentemente durava muitos anos, o monge havia aprendido a acreditar pacificamente no Senhor para todas as suas necessidades. Enquanto o monge atravessava essa etapa de purgação, ele se identificava com a tentação de Cristo no deserto (Mateus 4:1-11, Marcos 1:12-13, Lucas 4:1-13).

Nesse ponto o "Illuminatio" ou em Grego "theoria" começava. Durante esse período o monge aprendia os caminhos para a santidade revelada no Evangelho. Durante o "Illuminatio" muitos monges aceitavam visitantes e estudantes, e cuidavam dos pobres o tanto o quanto seus parcos recursos permitiam. Eles se identificavam fortemente com Cristo quando Ele ensinava o Sermão da Montanha, registrado em Mateus capítulos 5, 6 e 7. O monge continuava sua vida de humildade no Espírito de Deus; sua aceitação estóica do sofrimento frequentemente fazia dele o único homem capaz de tomar responsabilidades heróicas ou difíceis para a comunidade Cristã local. Muitos monges morriam sem nunca ter passado além dessa etapa.

O estágio final era o "Unitio", ou em grego, "theosis", um período no qual a alma do monge e o Espírito de Deus se ligavam em uma união frequentemente descrita como o casamento da Canção de Salomão (também chamada de "Canção das Canções" ou "Cântico do Cânticos"). Monges mais velhos frequentemente debandavam para o deserto profundo ou para florestas remotas para encontrar a solidão e a paz que esse nível de consciência mística demandava. Nesse estágio, o monge se identificava com o Cristo transfigurado, que após a ressurreição permanecia frequentemente oculto de seus discípulos. Ascetas que atingiam esse nível de iluminação ascética são chamados de Schema.

de http://en.wikipedia.org/wiki/John_Cassian

Zazen e o Nobre Caminho Óctuplo (3)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Nota de observação: O texto a seguir, bem como demais textos desse blog, corresponde somente ao entendimento atual do autor. Esse entendimento não é definitivo e absoluto, sendo pelo contrário, relativo, e podendo ser alterado com o tempo. Dessa forma, qualquer coisa aqui escrita não deve ser tomada como certa ou como verdade por ninguém.



Durante o zazen, permanecemos sentados sem causar sofrimento a nós mesmos e aos outros. Assim realiza-se o modo de vida correto do Nobre Caminho Óctuplo, pelo abandono do modo de vida incorreto.

"Bhikkhus, um discípulo leigo não deve se dedicar a cinco tipos de negócios. Quais cinco? Negociar com armas, seres humanos, carne, embriagantes e venenos."
AN V.177

"E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto."
SN XLV.8

"E o que significa manter um modo de vida equilibrado? É o caso em que um leigo, conhecendo a sua receita e despesa, mantém um modo de vida equilibrado, nem perdulário nem mesquinho, [pensando], 'Dessa forma a minha receita irá exceder minha despesa e a minha despesa não irá exceder a minha receita'. Tal como um pesador ou seu aprendiz, ao segurar a balança, sabe, 'Ela se inclinou para baixo este tanto ou se inclinou para cima este tanto', da mesma forma, o leigo, conhecendo a sua receita e despesa, mantém um modo de vida equilibrado, nem perdulário nem mesquinho, [pensando], ‘Dessa forma a minha receita irá exceder minha despesa e a minha despesa não irá exceder a minha receita'.
AN VIII.54

Meditação sobre um campo florido

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nada importante, infinitamente importante.

Mesmo depois que eu morrer, nada irá mudar.
O sol continuará nascendo, as primaveras virão.
As flores brotarão, os pássaros voarão no céu.
Os filhos de meus amigos brincarão nos gramados.

Certamente, daqui a mil anos, ninguém sentirá a minha falta.
Não sou nada importante.

Quando eu morrer, nada irá mudar. É verdade, pessoas próximas deverão sentir muito a minha falta. Nos separar daqueles que amamos é sofrimento, inevitável. Será muito triste, certamente muito triste.

Pensando bem, acho que eu sentiria falta até mesmo de sentir uma dorzinha no joelho. Até mesmo dos meus espirros.

Pensando melhor, quem haverá para sentir falta dessas coisas?

Só agora sinto falta por antecipação. Depois, não haverá ninguém para sentir falta disso.

É uma pena. É verdadeiramente muito triste. Mas acho que se pudesse, até mesmo da tristeza eu sentiria falta.

Dizer adeus a tudo, parece que será muito difícil. No entanto, também parece que tudo estará no seu devido lugar.

Talvez daqui a mil anos, alguém venha a ler esse exto. Talvez entenda o que eu quero dizer com ele. Talvez não. Mesmo se eu estivesse diante dele, será que ainda assim nos entenderíamos?

Biologicamente vivo ou morto, será que há mesmo muita diferença quando eu falo com alguém?

Quando eu falo com alguém, será que a pessoa me ouve mesmo? Quando alguém fala comigo, será que eu ouço a pessoa mesmo?

Às vezes sim, às vezes não. Às vezes parece que eu só falo comigo mesmo.

Mesmo sem que eu perceba, certamente há mil vozes de mil anos atrás escondidas nesse silêncio de agora.

Será que daqui a mil anos, alguém conseguirá nos ouvir no silêncio de um campo florido?

Mula madhyamaka karika (Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio) - Capítulo 25

domingo, 4 de outubro de 2009

A quem possa interessar. Uma tradução de tradução pessoal do capítulo 25 do Mulamadhyamakakarika, um pouco truncada, com alguns comentários meus, para estudo pessoal.

Traduzido de http://www.stephenbatchelor.org/verses2.htm


Capítulo 25. Investigação do Nirvana

1. Se tudo fosse vazio, então não haveria originação e cessação. Do abandono de que e da cessação de que alguém poderia referenciar o Nirvana?

[Comentário meu: Nirvana é definido como a cessação de duhkha. Se não houvesse duhkha, tampouco poderia haver Nirvana. O mesmo se aplica a Nirvana e Samsara.]

2. Se tudo não fosse vazio, não haveria originação e cessação. Do abandono de que e da cessação de que alguém poderia referenciar o Nirvana?
[Comentário meu: vazio = sem existência independente/inerente.]

3. Nenhum abandono, nenhum alcançar, nenhuma aniquilação, nenhuma permanência, nenhuma cessação, nenhum nascimento: assim é dito do nirvana.

4. Nirvana não é uma coisa. Se fosse, teria características de envelhecimento e morte. Não existe nenhuma coisa que seja sem envelhecimento e morte.

5. Se Nirvana fosse uma coisa, Nirvana seria um fenômeno condicionado. Não existe nenhuma coisa em nenhum lugar que não seja um fenômeno condicionado.

6. Se Nirvana fosse uma coisa, como poderia o Nirvana não ser dependente? Não existe absolutamente nenhuma coisa que não seja dependente.

7. Se Nirvana não fosse uma coisa, como poderia possivelmente ser uma não-coisa? Para aquele que o Nirvana não é uma coisa, para ele o Nirvana tampouco é não-coisa.

[Comentário meu: Estou traduzindo thing como coisa e nothing como não-coisa, ao invés de nada. Se Nirvana não for definido como uma coisa, tampouco pode ser definido como uma não-coisa, pois coisa e não-coisa são definidos simultâneamente, e um depende do outro. Estou tentando evitar ao máximo possível a palavra nada pois ela confunde muito a lógica - que de qualquer modo logo vai ficar confusa.]

8. Se Nirvana não fosse não-coisa, como poderia o Nirvana ser possivelmente não-dependente? Não existe nenhuma não-coisa que seja não-dependente.

[Comentário meu: De novo traduzindo nothing como não-coisa, ao invés de nada. Isso para tentar deixar um pouco mais claro no verso que não-coisa não pode independente/não-dependente (se coisa é dependente, não-coisa também é, pois uma é definida a partir da outra.)]

9. Quaisquer coisas que venham ou vão são dependentes ou causadas. Não ser dependente e não ser causado é ensinado como sendo o Nirvana.
[Comentário: Nirvana = Incondicionado.]

10. O professor ensinou [que o Nirvana é] abandonar a originação e a cessação. Assim, é correto dizer que o Nirvana não é uma coisa ou uma não-coisa.

11. Se Nirvana fosse ambas coisa e não-coisa, consequentemente seria uma coisa e não-coisa. Isso é incorreto.

12. Se Nirvana fosse ambas coisa e não-coisa, Nirvana não seria não-dependente, pois dependeria dessas duas.

13. Como poderia o Nirvana ser ambos uma coisa e uma não-coisa? Nirvana é incondicionado; coisas e não-coisas são condicionadas.

14. Como poderia o Nirvana existir como ambas coisa e não-coisa? Essas duas não existem como uma. Elas são como claro e escuro.

15. A apresentação de nem coisa nem não-coisa como sendo o nirvana seria estável apenas se coisa e não-coisa fossem estáveis.
[Comentário meu: Nem coisa nem não-coisa são definidas a partir de coisa e não-coisa, portanto também são dependentes de coisa e não-coisa, e portanto, não-estáveis.]

16. Se Nirvana é nem uma coisa nem não-coisa, por quem "nem coisa nem não-coisa" seria percebida?

17. Depois que o Abençoado entra no Nirvana, alguém não pode percebê-lo como "existindo" ou como "não existindo" ou como "ambos existindo e não existindo" ou "nem existindo nem não existindo".
[Comentário meu: Abençoado = Buddha, Nirvana = Parinirvana, ou seja, após a morte do Buddha. São as quatro negações além do pensamento conceitual, ou que simplesmente não se aplicam ao pensamento conceitual.]

18. Mesmo enquanto o Abençoado está vivo, alguém não pode percebê-lo como "existindo" ou como "não existindo" ou como "ambos existindo e não existindo" ou "nem existindo nem não existindo".

19. Samsara não é minimamente distinto de Nirvana. Nirvana não é minimamente distinto de Samsara.

20. Qualquer que seja o fim do Nirvana, é o fim de Samsara. Não há nem mesmo uma mínima muito sutil distinção entre Nirvana e Samsara.

21. Visões sobre morte, fim, e permanência são contingentes a partir do Nirvana e fins posteriores e fins anteriores.
[Meu comentário: Não entendi.]

22. Sendo todas as coisas vazias, o que tem fim? O que não tem fim? O que é simultaneamente com fim e sem fim? O que nem tem fim nem não tem fim?

23. Há isso? Há aquilo? Há permanência? Há simultaneamente permanência e impermanência? Há nem permanência nem impermanência?

24. Pacificar totalmente todos os referenciais e pacificar totalmente todas as fixações é paz. O Buddha em nenhum lugar ensinou nenhum dharma a ninguém.
[Comentário meu: Uma possível apresentação 'positiva'- Como o Buddha poderia ensinar alguém, se ele não é separado de ninguém? Como o Buddha poderia estar em algum lugar específico, se ele está em todo lugar? Como poderia ensinar algum dharma, se não há nada que não seja dharma?]

Mais alguns medos

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Se eu tenho medo de perder, é porque ainda não aprendi a doar.

Se eu tenho medo de errar, é porque ainda não larguei o orgulho de querer ser perfeito.

Se eu temo adoecer, é porque não aceito a impermanência inevitável da saúde.

Se eu temo envelhecer, é porque não aprendi a ser como uma criança todos os dias.

Se eu tenho medo de morrer, é porque ainda não aprendi a viver.

Juntando partes (ou: Costurando retalhos)

terça-feira, 3 de março de 2009

"Às vezes sua alegria é a origem de seu sorriso, mas às vezes o seu sorriso pode ser a origem de sua alegria."
Thich Nhat Hahn

Não é raro que eu entre em um estabelecimento comercial ou público em que as pessoas pareçam não ter nenhuma vontade de me atender. Elas agem com aparente má-vontade, mal-humoradas, às vezes até grosseiramente. Isso é particularmente comum no Rio de Janeiro, mais do que em outras cidades que eu conheço.

Usualmente, ao menos comigo é assim, as pessoas externalizam o que estão sentindo por dentro. Se eu estou me sentindo amargurado, ajo amarguradamente. Logo, essas pessoas, como eu mesmo às vezes, agindo com aparente infelicidade, provavelmente estão se sentindo infelizes por dentro. Isso é digno de compaixão da minha parte, não de raiva ou rejeição.

Essas pessoas provavelmente estão insatisfeitas com o seu trabalho ou com sua vida. Se sentem insatisfeitas por dentro. Assim, agem de maneira insatisfeita. Se agissem com felicidade, provavelmente se sentiriam internamente felizes. Muitas vezes uma situação extrema pode motivar a insatisfação, como um chefe hostil ou um salário insuficiente. Outras vezes, ao menos me parece, a própria pessoa inventa desculpas para estar continuamente insatisfeita. Isso eu deduzo de algumas ocasiões em que eu mesmo, estando me sentindo extremamente insatisfeito, ao examinar melhor a situação concluí que não havia absolutamente motivo algum para estar insatisfeito, aquela insatisfação era totalmente artificial. Parece ser uma certa dormência, na qual a pessoa se afunda e tem extrema dificuldade de sair.

Quando eu ajo com felicidade para com as outras pessoas, eu me sinto internamente feliz. Quando eu trato mal as outras pessoas, eu me sinto internamente triste.

Se uma pessoa me tratar mal, e eu respondê-la da mesma maneira, ambas vamos ficar tristes. Se uma pessoa me tratar mal, e eu respondê-la com ternura e bondade, há uma chance de ambas ficarmos felizes.

Se eu estou me sentindo triste, e continuar agindo com tristeza, vou continuar me sentindo triste. Porém se eu estou me sentindo triste, mas procurar agir com alegria, talvez logo passe a me sentir contente.

Assim, a maneira como eu ajo é refletida internamente. Porém, a maneira como eu me sinto internamente também reflete no modo como eu ajo. Como passar a agir de maneira diferente de como eu estou me sentindo internamente? A resposta parece estar nesse exato momento: