Mostrando postagens com marcador upaya_paramita. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador upaya_paramita. Mostrar todas as postagens

A Pizza e o Zen

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Alguns dos maiores "segredos" do universo podem ser explicados com uma metáfora muito simples: uma pizza e um cortador.

A pizza inteira é o Mundo (o conjunto de todas as coisas, Tudo, todos os fenômenos, o Universo, ou como você quiser chamar). O cortador é a mente (e de fato o cortador não é separado da pizza, mas façamos uma licença poética, senão não haveria como pretender explicar qualquer coisa).

Usualmente o cortador faz aquilo que ele gosta de fazer: corta a pizza em pedaços (virtuais). A um dos pedaços (com o qual o cortador insiste em se identificar), ele chama de Eu. Assim ele começa dividindo a pizza entre o pedaço Eu (sujeito) e o outro pedaço (objeto). Porém ele não pára por aí: ele divide a pizza em uma miríade de outros pedaços, objetos, fenômenos e todas as dez mil coisas (alegoria chinesa para a infinita diversidade das coisas e fenômenos).

A metáfora é um pouco pobre pois de fato a pizza não é estática: ela é algo dinâmico, que muda o tempo todo (uma metamorfose ambulante, diria o Raul). Assim, para um certo desespero do cortador (a mente), as fatias também mudam o tempo todo, se transformam. Por exemplo, o que antes eram as fatias semente, gás carbônico, água, luz solar e nutrientes do solo, agora é uma fatia árvore. O que antes era uma fatia árvore, agora é uma fatia lenha. O que antes era uma fatia lenha, agora é a fatia carvão queimando na lareira, virando fatia gás carbônico, fatia vapor d'água e fatia luz novamente. E assim por diante.

Se a pizza é Um, as fatias são frações (como aprendemos no primário). Logo, as multiplicidades nada mais são do que frações do Um, ou Unicidade, cortadas pelo cortador (a mente). Toda multiplicidade começa com uma dualidade. Assim a maioria das coisas são dualidades de dualidades de dualidades... que para complicar um pouco mais, às vezes se sobrepõem umas às outras, em diversas camadas (como pizzas fatiadas em tamanhos diversos empilhadas umas sobre as outras).

Porém o cortador não precisa necessariamente continuar cortando tudo que vê pela frente, mantendo seus hábitos e pré-concepções. Através de um treinamento adequado, o cortador pode fazer algo diferente: Cortar em Um (mesmo nome do blog de meu amigo Seigaku - uma alusão à Manjusri, o boddhisatva da sabedoria, cuja espada corta em um). Cortar em Um é o próprio Zen (palavra japonesa), que vêm do chinês Chan, que por sua vez vem do sânscrito Dhyana, ou pali Jnana - que significa simplesmente meditação. Dhyana por sua vez nada mais é (também não escapa da Unicidade) que Prajna, ou Sabedoria (acho que essa é de Hui Neng).

Assim, "aprender o que é a Sabedoria" significa estar livre de pré-concepções: "estar livre de pré-concepções" é o que "estudar a Sabedoria" é - Dogen Zenji (Shobogenzo, capítulo 2 - Makahannya-haramitsu).


Estranhamente, ainda insisto em me ver e agir como uma fatia de pizza. Assim, lamento pela falta de informações adicionais.



P.S.: Desculpe pelo excesso de parênteses nos textos. É mania de programador.

P.S.S.: O "pára" do segundo parágrafo ficou com acento de propósito. Apesar de meu português ser ruim, me recuso a aceitar a reforma ortográfica, ainda mais ao ler livros antigos e constatar que o português era muito mais bonito antigamente, antes de várias reformas.

A Queda de Adão

domingo, 16 de agosto de 2009

(Atenção! O texto a seguir é potencialmente inapropriado, vide algumas ressalvas em Avisos.)


A Queda de Adão, ou A Queda do Homem, ou simplesmente 'a Queda' é talvez o símbolo e o ponto fundamental da Bíblia. Muitos levam a história de Adão e Eva ao pé da letra, outros a descartam como mitologia inventada arbitrariamente, ou pura historinha de criança. Eu já gosto de interpretá-la simbolicamente, o que é somente meu ponto de vista. De um certo modo, todos estão certos. De outro certo modo, todos estão errados.

Minha interpretação particular é de que a Queda do Homem simboliza simplesmente a separação do homem de Deus, ou separação de sua Natureza Original, ou em outras palavras, a dualidade inicial. Na Bíblia isso ocorre quando Adão e Eva comem da fruta da 'Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal'. Mais genericamente, poderia-se dizer que é a Árvore do Conhecimento de todas as dualidades e diferenciações: Bem e Mal, Sujeito e Objeto, Dentro e Fora, Eu e Não-Eu, Grande e Pequeno, Longe e Perto, etc. Poderia-se dizer que essas dualidades, ou separações, são a origem do sofrimento. (Desculpem-me pela fuga da interpretação tradicional de "pecado original", mas no momento estou querendo generalizar o máximo o possível.)

A Árvore é 'do Conhecimento' simplesmente porque essas diferenciações são meramente interpretativas/cogniscíveis, isto é, não são reais de um ponto de vista universal/absoluto, no máximo aparentemente reais de um ponto de vista particular/relativo, ou a partir de definições arbitrárias/axiomáticas.

Até onde sei, quase todas as religiões falam de algo parecido com a Queda de Adão de uma forma ou de outra.

No Taoísmo, eu diria que a Queda de Adão dá-se a partir da dualidade inicial, ou Yin e Yang. Antes da dualidade, há a Unicidade fundamental, ou Taiji. E antes da Unicidade, há o Nada fundamental ou Wuji.

No Budismo, a dualidade inicial é a Forma-Vazio. Mas diz o Sutra do Coração: forma é vazio, vazio é forma. A forma em si é vazio, o vazio em si é forma. Ou seja, ambos forma e vazio não possuem existência independente/inerente. Quando o Boddhisatva Avalokitesvara "viu" claramente que todos os agregados são vazios de existência independente/inerente, ele se libertou de todo o sofrimento.

O caso 23 da coleção de koans Mumonkan segue assim:

Eno, o Sexto Patriarca do C'han (Zen) Chinês, estava sendo perseguido pelo monge Emyo até Daiyurei. O patriarca, vendo que Emyo estava chegando, soltou o manto e a tigela em uma pedra, e disse a ele:
- Esse manto representa a fé. Por acaso ele deve ser disputado pela força? Você pode tomá-los agora.
Emyo foi até a tigela e o manto porém eles eram tão pesados quanto montanhas. Ele não conseguia movê-los. Hesitando e tremendo, ele perguntou ao Patriarca:
- Eu vim pelo ensinamento, não pelo manto. Por favor, me desperte!
O patriarca lhe perguntou:
- O que é primordialmente Emyo (isto é, sua Face Original), se você não pensar 'isto é o bem' nem pensar 'isto é o mal'?
Naquele momento, Emyo teve um grande despertar.


Meu comentário: O grande despertar de Emyo parece com a Queda de Adão, ao contrário.



P.S.:

Alguém pode dizer que eu estou forçando a barra, querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. E ele está certo, realmente eu estou forçando a barra, e estou querendo dizer que coisas totalmente diferentes são semelhantes. De qualquer forma é tudo uma questão de simbologia. Ou seja, tanto faz eu dizer que o gato está subindo na mesa, ou o cachorro descendo da mesa. Nesse caso, eu quero dizer que o cachorro é o gato e descer é subir. A mesa é mesa mesmo, para não complicar muito. Ou seja, o importante é estarmos falando da mesma coisa. Ou a mesma lua sendo apontada pelo dedo. Meditadores, programadores e linguistas talvez me entendam mais facilmente.

Koans e Frases de sabedoria

sábado, 15 de agosto de 2009

Alguns koans e "frases de sabedoria" no vídeo abaixo (em inglês). Mesmo para quem não saiba inglês, não há problema, pois a música e as imagens são tão excelentes quanto as frases!

Sobre o que é possível mudar (Nossas próprias ações)

sábado, 8 de agosto de 2009


Eu tive uma conversa interessante com colegas do trabalho recentemente. Elas estavam reclamando que as pessoas não agiam como elas gostariam que as outras agissem com elas (numa maneira que elas consideravam mais adequada e justa num determinado contexto). Eu disse a elas que, talvez, ao invés de querer que as pessoas agissem como gostaríamos que elas agissem, deveríamos nós mesmos agir como gostaríamos que elas agissem conosco.

A princípio elas não entenderam muito bem o que eu quis dizer, com razão, pois os dois pontos de vista são discursivamente semelhantes o suficiente para causar alguma confusão. Ambos os pontos de vista falam de "como 'gostaríamos' que as pessoas agissem". Mas do ponto de vista prático são totalmente diferentes. No primeiro ponto de vista, queremos que as pessoas ajam de determinada forma. No segundo ponto de vista, agimos (nós mesmos) daquela determinada forma. Eu me expliquei melhor com um exemplo, que foi mais facilmente entendido:

A maioria das pessoas gostam de receber um cumprimento de "bom dia!" ao chegar em algum lugar pela manhã. Logo, 'gostaríamos' que as pessoas nos desejassem sempre um "bom dia". No primeiro ponto de vista (da minhas colegas), queremos que as outras pessoas nos deem um "bom dia", e se não o recebemos, nos decepcionamos. No segundo ponto de vista (que propus), nós mesmos damos imediatamente o "bom dia" que 'gostaríamos' de receber, porém sem necessariamente esperar receber literalmente um "bom dia" em troca.

Ao compreender melhor o que eu quis dizer, elas imediatamente concordaram que há diferença entre esses pontos de vista. De fato não temos controle nenhum sobre as ações das outras pessoas. Temos controle (mesmo que limitado) apenas sobre nossas próprias ações. Logo, se quisermos que algo aconteça, nós mesmo temos que fazer algo naquele sentido.

Querer que outras pessoas literalmente ajam de determinada maneira, é um convite certo para muitas vezes nos decepcionarmos. Porém querer "teoricamente" que as pessoas ajam de determinada maneira pode ser um guia para direcionarmos as nossas próprias ações, e somente nossas próprias ações, já que as ações dos outros não podemos controlar.

(...)

Buddhadharma

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



"Minha doutrina é semelhante ao oceano.

O oceano é minha doutrina, ambos pouco a pouco vão se tornando cada vez mais profundos.

Ambos em todas as suas mudanças conservam a unidade. Ambos devolvem cadáveres à praia.

Assim como os rios, lançando-se no mar, perdem seu nome e, a partir de então, ficam fazendo parte do grande oceano, assim também os homens de toda casta, entrando para a comunidade, tornam-se irmãos e passam a ser contados como filhos do Buda.

O oceano é o reservatório de todos os cursos d’água e da chuva das nuvens e, no entanto, não transborda, nem seca, nunca. Assim, também minha doutrina é compreendida por milhões de pessoas, e no entanto não aumenta nem diminui.

Assim como o grande oceano está impregnado de um só sabor - o do sal -, assim também minha doutrina está impregnada de um só sabor, o da libertação.


O oceano e minha doutrina, ambos estão cheios de pedras preciosas, tesouros e pérolas, e ambos servem de morada a toda uma poderosa existência.


Minha doutrina é pura e não faz distinção alguma entre o nobre e o vulgar, o rico e o pobre.

Minha doutrina é semelhante à água que apaga toda nódoa.

Minha doutrina é semelhante ao fogo que tudo purifica.

Minha doutrina é semelhante ao céu, porque há nela lugar, muito lugar, para receber todos os homens, o nobre e o vulgar, o rico e o pobre, o poderoso e o humilde." Buddha Shakyamuni


Esse texto, me lembro bem, foi um dos primeiros textos que li sobre o buddhismo, há 6 ou 7 anos atrás. Certamente me causou uma grande impressão.

Mais tarde descobri que esse texto é uma adaptação livre de um sutra do Tripitaka, sendo portanto um ensinamento atribuído diretamente ao Buddha histórico. Chama-se Uposatha Sutra - A Observância.

Meios hábeis

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fazia tempo que eu queria traduzir esse pequeno texto... Aí vai:



(Traduzido do artigo "Monismo" da Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Monism)

No ensino Soto Zen, é dito que "Tudo é Um e Tudo é Diferente". Já que o não-dualismo não reconhece um dualismo entre a Unicidade e a Diferença, ou mesmo entre o dualismo e o não dualismo, é difícil de declarar o significado dessa doutrina [ou impossível se for levar a sério o Sutra do Diamante]. Toda a discussão desse ensinamento pelos mestres Soto Zen caem no conceito buddhista de "meios hábeis", ou seja, não literalmente correta, mas apropriada para levar os outros à Verdade. O mestre chinês Soto (Cao-Dong) Tozan (Tung-shan, Dongshan) escreveu os Versos dos Cinco Níveis (do Ideal e do Real), que também é parte importante de um conjunto de koans da escola Rinzai. Dongshan descreve o Quinto Nível em parte assim:

Unidade obtida:
Quem ousa igualá-lo
Quem cai nem em ser nem em não-ser!

O poema de Shih-t'ou Hsi-ch'ien, "A Harmonia da Diferença e da Uniformidade - Sandokai" é uma importante expressão dos primeiros dias do Zen Buddhismo e é cantado nos templos Soto até hoje. Outro poema de Tung-shan Liang-chieh sobre esse e outros temas relacionados, "A Canção da Consciência Jóia-Espelho", também é cantada diariamente nos templos Soto.

Outras expressões desse ensinamento incluem o koan:

Um discípulo perguntou, "Qual a diferença entre um homem iluminado e um homem não-iluminado?"

O Mestre respondeu, "O homem não-iluminado vê a diferença, mas o homem iluminado não vê."

e também o koan pessoal de Dogen Zenji,

"Por que o treinamento e a iluminação seriam diferentes, se a Verdade é universal?" (Fukanzazengi, Instruções para Meditação)

(Traduzido do artigo "Monismo" da Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Monism)

Altos e baixos

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009


Estou bem ciente que esse blog tem seus altos e baixos. Acho que isso é normal. O blog é um erro (mal)calculado. Às vezes termino de escrever um texto e penso "esse ficou bom!" Outras vezes penso "mas que porcaria ficou esse texto". Mesmo assim eu publico. Bom ou ruim, essas são apenas minhas opiniões. Mesmo que o texto tenha ficado ruim, talvez ele possa ser útil para alguém. Ou talvez seja completamente inútil. Mesmo um texto bom pode ser completamente inútil. Não tenho expectativas quanto a isso. Meio punhado de feno seria de uma sorte infinitamente excepcional.

Certamente os textos que tem maiores chances de ficarem bons são aqueles que vem do coração, da minha própria experiência limitada. Essa é a "melhor das hipóteses" do texto Avisos. Poucos textos do blog tem essa característica. Não é difícil saber quais eles são.

Se esse blog puder resultar em algo auspicioso, quase certamente será fazer alguém perdido resolver começar a fazer zazen ou procurar um centro Buddhista. Já com muita, muita sorte pode ser que o relato de meus próprios erros possa indicar para alguém como não ser um mau praticante como eu. Mas isso seria o mesmo que tirar leite de pedra. Ou o mesmo que uma flor saindo incólume do chorume.

A queda do vaso

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


Sexta-feira comprei uma plantinha com uma flor mais durável para colocar no altar do Buddha, de propósito, pois as flores rapidamente murchavam (embora durassem mais no altar do que em qualquer outro lugar). Sábado minha esposa tirou o vaso do altar para colocar a plantinha no sol.

O vento veio, a janela bateu, o vaso caiu e quebrou.

A vida rapidamente mostrou não há como lutar contra a impermanência. Eu queria uma flor para durar mais, e acabou durando menos que todas as outras. Talvez a flor no altar simbolize justamente a efemeridade de todas as coisas.


"Não deveríamos reclamar da impermanência, pois sem impermanência, nada é possível."
Thich Nhat Hanh