Mostrando postagens com marcador equanimidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador equanimidade. Mostrar todas as postagens

(De)Hierarquização das Coisas

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Não faz sentido dizer que uma coisa é melhor que outra. Não faz sentido eu dizer que uma grande árvore é melhor do que uma simples violeta. Cada uma tem a sua característica própria, bem diferente, porém nem inferior nem superior.

Eu posso até achar um árvore frutífera cheia de folhas mais bonita que um cacto. Porém isso é só minha opinião. A árvore e o cacto são o que são. Cada um tem sua função e características próprias. A natureza própria de um cacto é ser um cacto, e não uma outra coisa que alguém possa querer.

Não há como dizer que um ovo é melhor ou mais importante que uma galinha, ou vice-e-versa. Cada um tem seu espaço e importância. Cada um tem o seu papel específico, cada um a seu tempo e de seu jeito, tendo sido originado com causas e condições específicas.

Mesmo duas coisas, aparentemente de mesma categoria, não merecem ser comparadas. Eu poderia comparar dois pares de sapatos, um par novo e um par velho, e achar o par novo melhor. Porém isso seria uma absoluta bobagem. O par novo de hoje será o par velho de amanhã. E o par velho é velho pois me serviu por muito tempo. Por que ele seria pior?

Todas as coisas tem seu devido lugar e importância. Nada é mais ou menos que a outra. Essas comparações são meramente opiniões e comparações arbitrárias, inventadas pelo meu ego. De fato até a divisão das coisas é arbitrária, gerando essas comparações artificiais. No fundo todas as coisas parecem ser igualmente importantes, por serem interdependentes, mas também diferentemente importantes, no sentido de serem incomparáveis em suas diferentes funções e causas e condições específicas.

(De)Hierarquização das Pessoas e Seres

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"Jesus Cristo ou Buddha, qual seria o maior, ou mais importante?". Na minha opinião, e pelo que sei do budismo, não há necessidade de se fazer nenhuma comparação desse tipo. Quem é maior ou menor, quem é mais importante ou menos importante, quem é superior ou inferior; essas são questões desnecessárias, não-importantes, e no fundo, sem sentido. Tem uma entrevista da Monja Coen Sensei em que ela conta sobre um sonho que teve sobre esse assunto.

Não há necessidade de nenhuma competição ou comparação. Isso não só entre Cristo e Buddha, mas entre qualquer pessoa. Ninguém deve se considerar superior, maior ou menor a ninguém. Quando quiseram apedrejar a mulher adúltera, Jesus Cristo disse: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”(João 8:7). Acusados pela própria consciência, ninguém se atreveu a continuar com a barbárie. Tampouco Jesus Cristo o fez, não por ser pecador, mas por não julgar e por perdoar, não se considerando superior aos outros, mas igual como Homem que também era.

Jesus Cristo também disse: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). Veja que Cristo não diz "Ama teu próximo mais que a ti mesmo" ou "Ama a teu próximo menos que a ti mesmo". Ele conclama que não nos consideremos mais ou menos que os outros. E assim Cristo também o fez: “O meu mandamento é este (disse Jesus): Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. (João 15:12)

Mais ainda que isso: Cristo diz “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam.” (Lc 6,27-28). Ou seja, não devemos nos considerar superiores a ninguém, ninguém mesmo. Ninguém deve ser deixado para trás. Já me vi inventando desculpas esfarrapadas para não levar esses ensinamentos em consideração. É verdade que é muito difícil de fazer isso. É muito mais fácil amar e gostar daqueles que nos amam. Mas como disse Santo Agostinho: "Se você acredita no que você gosta do evangelho, e rejeita o que você não gosta, não é no evangelho que você acredita, mas em você mesmo."

Ensinamentos análogos são encontrados no budismo, como no Karaniya Metta Sutta:

"Todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres sejam felizes no coração.

Que ninguém engane
ou despreze outrem, em nenhum lugar,
ou devido à raiva ou má vontade
deseje que alguém sofra.

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege o seu filho, o seu único filho,
da mesma forma, abraçando todos os seres,
cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda a volta,
desobstruído, livre da raiva e da má vontade."

Pensamentos

terça-feira, 16 de junho de 2009


Não construir nem destruir. Não agarrar nem rejeitar. Simplesmente deixar.

Anotação aleatória (XV)

domingo, 15 de março de 2009

Tivesse nenhum ego, elogios e críticas seriam iguais.

Preguiça

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As desculpas que crio para não praticar (principalmente Zazen) são inúmeras. A minha criativade para encontrar justificativas para não praticar é digna de investigação. Algumas de minhas desculpas, historicamente recorrentes: "Está muito frio; está muito quente; é muito tarde; é muito cedo; estou com muita fome; estou muito satisfeito." Também: "Estou doente, estou cansado; depois eu pratico; já pratiquei antes; praticar nem é tão importante assim; agora tenho que assistir televisão; agora tenho que fazer outra coisa; agora tenho que descansar."

A raiz de todas essas desculpa é uma só: minha própria preguiça. Não é a toa que a preguiça é considerada um dos principais obtáculos para a prática.

Como as justificativas para não praticar são variadas e criativas, a única alternativa é praticar não importa o que aconteça ou quais forem as circunstâncias. Se estiver um calor insuportável eu tenho que pensar: "está um calor insuportável, que momento ótimo praticar!". Ou melhor ainda, nem penso em nada e apenas pratico. Se estiver um frio insuportável eu tenho que pensar: "está um frio insuportável, que momento ótimo praticar!". Ou melhor ainda, nem penso em nada e apenas pratico. A prática contínua alimenta a disciplina e a disciplina alimenta a prática contínua.

Disse o Buddha:
"Quem diz está muito quente, muito frio, muito tarde,
e deixa as coisas por fazer,
as oportunidades para fazer o bem
passam desapercebidas por tais homens.

Porém aquele que vê no frio ou no calor
menos que um pedaço de capim,
e que faz o que deve ser feito,
não irá perder a felicidade."

Estresse no trabalho

quinta-feira, 27 de novembro de 2008



De vez em quando me estresso no trabalho. Às vezes tenho trabalho demais, acontece tudo ao mesmo tempo. Às vezes tem trabalho de menos. O projeto de dois meses não dá certo. As pessoas não resolvem os problemas. Tenho que corrigir os erros dos outros. Tenho que corrigir os meus erros. As pessoas criam dificuldades inexistentes. Nada funciona como eu gostaria que funcionasse.

Tudo contraria a minha vontade. O que eu quero. O meu eu.

Sempre alguma coisa vai contrariar minha vontade. Sempre algo vai dar errado. A probabilidade das coisas não acontecerem exatamente como eu quero é muito grande. Se eu não desse tanto valor para minha vontade, não criaria essa divisão: "o que eu quero" versus "o que acontece". As coisas acontecem, junto comigo, junto com o que eu faço. Se eu aceitasse simplesmente as coisas tal como elas são, não me estressaria. Ao invés de alguma coisa ter dado "errado", de ter contrariado a minha vontade, ela vai simplesmente ter acontecido. A única coisa que eu posso fazer, se quero transformar qualquer coisa, é lidar da melhor maneira possível com o que acontece, momento-a-momento.

O Leão e o Cordeiro

sábado, 22 de novembro de 2008

Um dos símbolos mais conhecidos do Cristianismo é o do Leão e o Cordeiro. Cristo é o Cordeiro, que toma sobre si mesmo os pecados do mundo. Ao mesmo tempo é o Leão, trazendo consigo a espada. Juntos, leão e cordeiro representam a paz de Cristo.


O símbolo do leão também é muito usado no Buddhismo. O próprio Buddha comparou seu ensinamento com o rugido do leão. O rugido do leão é talvez o mais poderoso da natureza, podendo ser ouvido a vários quilômetros de distância. Similarmente, a palavra do Buddha atravessa os séculos, beneficiando uma imensidão de seres.


Ao longo do Evangelho, Cristo é insultado repetidas vezes, porém em nenhum momento responde com ofensa ao seu acusador. Ele recebe todo tipo de ofensas, é torturado e crucificado. Recebe tudo sobre si, sem se defender, tão manso e frágil como um cordeiro. "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica." (Lucas 6:29)


No Akkosa Sutra do Tripitaka, Buddha é insultado ferozmente pelo brâmane Akkosaka Bharadvaja pois um membro da sua família deixou o lar para seguir a Sangha de Buddha. Buddha escuta todos os insultos, sem reclamar ou rebater, e depois lhe oferece um ensinamento do Dharma. O brâmane fica tão impressionado que também se torna um discípulo de Buddha.


O tradicional texto zen conhecido como Canto da Libertação – Shodoka diz:

“Se as pessoas ofenderem e difamarem você, deixe-os:

eles estão brincando com fogo, tentando queimar o céu.

Quando eu os ouço, suas palavras são gotas de néctar

que me mostram que esse momento está livre de conceituação.

Palavras ofensivas são bençãos disfarçadas,

e meus ofensores bons professores.

Esta mente tem espaço para difamação e ofensa

e é ela mesma compaixão e paciência sem originação.”


Mas qual será a espada de Jesus Cristo? Aonde está o Leão? “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mateus 10:34) Mas se Cristo veio para salvar, como não trouxe a paz, e sim a espada?


Tal como Cristo, Buddha também nos oferece uma espada – o seu ensinamento, o método de prática Buddhista. Não conquista a paz por nós, só nos empresta a espada. Cada um tem que conquistar sua própria paz, ninguém pode fazer isso por nós. Temos que lutar para ajudar aos outros e alcançar nossa própria paz.