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Sobre a frase "nascimento é sofrimento"

terça-feira, 14 de junho de 2011


Nota: esse texto tem como base somente minha experiência pessoal recente e não serve como ensinamento de Dharma.  

Com o fim recente e precoce de meu casamento veio à minha mente, juntamente com a dor emocional, a frase "casamento é sofrimento". Essa constatação me parece mais uma variedade da primeira Nobre Verdade declarada por Buddha Shakyamuni:

" Esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento." -- SN LVI.11

Essa declaração de Shayamuni Buddha muitas vezes é usada para argüir que o Budismo é uma religião pessimista. Em parte devido à tradução mais usual da palavra “duhkha” - sofrimento. Muitos professores contestam essa tradução preferindo outras como insatisfação, desequilíbrio ou desarmonia. Mas é difícil separar o que normalmente entendemos como sofrimento de duhkha, ainda que duhkha tenha um significado mais amplo e sutil. Nesse texto vou continuar usando a palavra sofrimento pois é mais apropriada no sentido que eu quero expressar.

A parte que mais me impressiona na declaração de Buddha Shakyamuni é “nascimento é sofrimento” (da onde muitas vezes a primeira nobre verdade é até expressada como "a vida é sofrimento"). O simples fato de nascer seria sofrimento? Eu entendi um pouco mais dessa frase com a minha experiência de “casamento é sofrimento”.

O casamento pode ser visto como uma vida dentro da vida de uma pessoa. Ela também tem seu nascimento – a cerimônia de casamento. E também tem seu fim – às vezes coincide com a morte física da pessoa – “até que a morte os separe” – e às vezes termina com a separação, como no meu caso. Quando eu percebi que meu casamento havia terminado, senti como se uma parte de mim houvesse realmente morrido.

Tal como o nascimento, é impossível impedir que o casamento acabe – e todo mundo sabe que morte é sofrimento, e a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento. Portanto casar invariavelmente implica em pelo menos um grande sofrimento futuro: o fim do casamento. Portanto “casamento é sofrimento”, assim como “nascimento é sofrimento” – basta nascer para que a morte seja inevitável.

Isso significa que casamento e nascimento são somente sofrimento? Que não vale a pena nascer e casar? Claro que não, qualquer um sabe disso. Também há imensa felicidade no nascimento (na vida) e no casamento. Eu fui muito feliz durante o casamento. Porém essa felicidade é intimamente ligada a um sofrimento inevitável, não é independente do sofrimento.

Vazio

quarta-feira, 16 de junho de 2010

“Ananda, porque está vazio de um eu ou algo que pertença a um eu é que dizem, ‘O mundo está vazio.’ E o que é que está vazio de um eu ou algo que pertença a um eu? O olho, Ananda, está vazio de um eu ou algo que pertença a um eu, as formas ... a consciência no olho ... o contato no olho ... qualquer sensação que surja tendo o contato no olho como condição - experimentada como prazer, dor ou nem prazer, nem dor - está vazia de um eu ou algo que pertença a um eu. O ouvido está vazio de um eu ou algo que pertença a um eu ... A mente está vazia de um eu ou algo que pertença a um eu, os objetos mentais ... a consciência na mente ... o contato na mente ... qualquer sensação que surja tendo o contato na mente como condição - experimentada como prazer, dor ou nem prazer, nem dor - está vazia de um eu ou algo que pertença a um eu."

Buddha (Suñña Sutta)

Função

quarta-feira, 31 de março de 2010

forma - função - forma
...
vazio - função - vazio
...
função

Relíquias de Buda (II)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Esta é uma adaptação de uma história tibetana.

Havia uma velha senhora, muito devota a Buddha, que tinha um profundo desejo de obter uma relíquia de Buddha, um dente de Buddha. Havia na época um pujante comércio de relíquias de Buddha, algumas com certificados de autenticidade que datavam de séculos. O filho era um ocupado comerciante, que sempre prometia a sua mãe que conseguiria uma dessas relíquias em suas viagens aos grandes centros. Devido às suas ocupações acabava sempre se esquecendo. Um dia sua mãe lhe falou que acabaria morrendo se não ganhasse uma relíquia.

O filho foi de novo a uma grande cidade, mas depois de vários compromissos novamente se esqueceu. No caminho de volta, viu um cachorro morto na estrada e lembrou-se de sua velha mãe. Tomado de terror pela idéia que sua mãe morreria se não tivesse a tal relíquia, decidiu fazer uma loucura: pegou um dente do cachorro morto e enrolou-o cuidadosamente em uma rica seda dourada. Ao chegar em casa entregou-a a sua mãe, recomendando-lhe que a colocasse no altar e tratasse dela com todo o cuidado, pois era uma relíquia muito preciosa. A mãe foi tomada de indescritível alegria.

O filho foi novamente viajar por algumas semanas. Logo acometeu-lhe um terrível arrependimento pela mentira, e resolveu que contaria a sua mãe toda a verdade quando retornasse, mesmo que isso a fizesse sofrer. No caminho de volta para casa, reparou num movimento de peregrinação de pessoas fora do comum naquela direção. Ao aproximar-se de casa, uma multidão de pessoas aglomerava-se no entorno. Comentavam até sobre milagres que estavam acontecendo. Quanto mais se aproximava da casa, maior era o clima de veneração e paz.

Quando finalmente conseguiu entrar em casa, encontrou sua velha mãe, muito feliz. Perguntou-lhe o que estava ocorrendo e ela lhe respondeu: "O que você esperava de uma autêntica relíquia de Buddha?" Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, entrou na sala do altar e tomou um susto - o dente do cachorro brilhava!

Relatividade dos sentidos

quarta-feira, 17 de março de 2010


Para um besouro-esterqueiro, que se alimenta de fezes, uma bolinha de esterco deve ter gosto e cheiro maravilhosos!

Dependência Íntima

quarta-feira, 10 de março de 2010







Devadatta

terça-feira, 2 de março de 2010

,

Devadatta era primo de Buddha, e tornou-se um de seus discípulos, até ter se corrompido pelo próprio orgulho.

Devadatta é o grande "malvadão" das escrituras buddhistas. Cometeu três das mais graves ofensas possíveis no buddhismo: tentou matar o Buddha, causou um cisma na Sangha e incintou alguém a matar o próprio pai. Devido a essas e outras ofensas ele teria ido parar no pior dos infernos da cosmologia buddhista devido à lei da causa-e-efeito.

Interessante como a história de Devadatta foi preservada até hoje. Não foi escondida como algo incoveniente. Pelo contrário, serve de ensinamento. Isso faz dele uma espécie de "Buddha ao contrário", o que talvez seja tão efetivo em termos de exemplo quanto um "Buddha do lado certo".

Assim, Devadatta é, talvez da maneira inversa que teria se imaginado, um professor disfarçado, que ajuda inúmeros seres no Caminho. Um verdadeiro amigo.

Não é à toa que no Sutra de Lótus, Buddha Shakyamuni afirma que Devadatta será um Buddha no futuro. E que foi até seu professor em uma vida passada, tendo sido um bom amigo que o ajudou a encontrar o Caminho.

Olhando no espelho (Quem eu sou?)

domingo, 28 de fevereiro de 2010


Olhar no espelho é um tema interessante; irei escrever aqui só umas poucas coisas sobre esse assunto inesgotável.

Às vezes me olho no espelho, e vejo somente coisas bobas: estou descabelado, estou com uma espinha, estou abatido, estou com olheira, estou feio, estou bonito, sou feio, sou bonito.

Mas já me peguei algumas vezes olhando para o espelho e tendo uma experiência muito estranha, e às vezes até assustadora: que aquela pessoa diante de mim não era "eu" mesmo. O que isso significa?

Essa parece ser uma pergunta de máxima importância, e difícil de responder. Dela surgem ainda mais perguntas, todas parecidas: Se essa pessoa que aqui escreve não é verdadeiramente eu, então quem sou eu? Se essas mãos e esses dedos que tocam as teclas não são meus, então, de quem são? Se essa face que aparece no espelho não é minha verdadeira face, então onde ela está?

Outras pessoas já se fizeram essa pergunta, e chegaram a respostas interessantes. Além das tradicionais respostas contidas em koans, uma resposta literariamente interessante está no famoso livro Siddharta, de Hermann Hesse, que é certamente um dos melhores livros que eu já li.

Sem entregar nada do livro pra quem não tenha lido, uma resposta resumo: Nada em particular, tudo em geral.

Anotação aleatória (XLVII)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Quanto mais distante do Nirvana, mais sofrida é Samsara. Quanto mais próxima do Nirvana, mais verdadeiramente maravilhosa é Samsara.

Nuvens em movimento

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nada é independente

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada é independente.
Nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada é independente.

(Desculpe pelas repetições).

Nada é independente, ou "nada" é independente?

Anotação aleatória (XLV)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Se algum dia o sofrimento do mundo acabasse, o budismo provavelmente não teria mais sentido.

Difícil de explicar

domingo, 27 de dezembro de 2009





Anotação aleatória (XLII)

domingo, 15 de novembro de 2009

Se disséssemos que há diferença entre eu e você, estaríamos enganados. Se disséssemos que não há diferença entre eu e você, estaríamos perdendo algo. Um abraço seria apropriado.

Sobre acreditar na Mente

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

(Japonês: Shinjin-no-mei, Chinês Hsin Hsin Ming)
por Chien-chih Seng-ts'an (Kanchi Sosan), Terceiro Patriarca Zen [falecido em 606]

Baseado na tradução de D.T.Suzuki


O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Exceto que ele se recusa a tomar preferências;
Apenas quando livre de ódio e amor,
Ele se revela plenamente e sem disfarce;
Um décimo de polegada de diferença,
E o céu e a terra são separados;
Se voce quiser ver diante de seus próprios olhos,
Não tenha nenhum pensamento a favor disso ou contra aquilo.

Colocar aquilo que você gosta contra aquilo que você não gosta
Essa é a doença da mente:
Quando o significado profundo (do Caminho) não é compreendido
A paz da mente é perturbada sem necessidade

[O Caminho é] perfeito como um vasto espaço,
Sem nada querendo, nada supérfluo:
É verdadeiramente devido a escolher
Que o seu tal-como-é é perdido.

Não persiga as amarras externas,
Não permaneça no vazio interno;
Seja sereno na unidade das coisas,
E [o dualismo] desaparece por si mesmo.

Quando você luta para obter quietude segurando o movimento,
A quietude assim obtida está sempre em movimento;
Enquanto você perdurar em dualismo,
Como poderá realizar a unicidade?

E quando a unicidade não é profundamente compreendida,
Em duas maneiras o erro é sustentado:
A negação da realidade é a afirmação dela,
A afirmação da vacuidade é a negação dela.

Muitas palavras e intelectualização -
Quanto mais com elas, mais nos desviamos;
Livre-se então de muitas palavras e intelectualização,
E não haverá nenhum lugar onde não possamos passar livremente.

Quando retornamos à raiz, obtemos o significado;
Quando perseguimos objetos externos, perdemos a razão.
O momento em que estivermos iluminados internamente,
Vamos além do vazio de um mundo que nos confronta.

Transformações acontecendo em um mundo vazio que nos confronta
Parecem reais só por causa da Ignorância:
Não tente ir atrás da verdade,
Apenas pare de adorar opiniões.

Não permaneça com dualismo,
Cuidadosamente evite persegui-lo;
Tão logo que você tenha certo e errado,
A confusão segue, e a Mente é perdida.

O dois existe por causa do Um,
Porém não se agarre nem a esse Um;
Quando a mente não é perturbada,
As dez mil coisas não oferecem ofensa.

Nenhuma ofensa oferecida, e nenhuma dez mil coisas;
Nenhuma perturbação acontecendi, e nenhuma mente pronta para trabalhar:
O sujeito é aquietado quando o objeto cessa,
O objeto cessa quando o sujeito é aquietado.

O objeto é um objeto para o sujeito,
O sujeito é um sujeito para o objeto:
Saiba que a relatividade desses dois
Descansa no fim das contas em Vacuidade.

Em Vacuidade os dois não são distintos,
E cada um contém em si mesmo todas as dez mil coisas
Quando nenhuma discriminação é feita entre isso e aquilo
Como pode uma visão unilateral e preconceituosa surgir?

O Grande Caminho é calmo e de grande coração,
Para ele, nada é fácil, nada é difícil;
Opiniões simplórias são hesitantes,
Quanto mais apressadas mais demoram a ir.

O apego nunca é mantido sob rédeas curtas,
Certamente ele irá tomar o caminho errado;
Desista dele, e as coisas tomarão seu próprio caminho,
Enquanto a Essência nunca parte nem permanece.

Obedeça a natureza das coisas, e você estará em concordância com o Caminho,
Calmo e tranquilo e livre de perturbação;
Porém quando seus pensamentos estiverem amarrados, você se afasta da verdade,
Eles se tornam mais pesados e tolos e não são de forma alguma seguros.

Quando eles não são seguros, o espírito está perturbado.
Qual então é o uso de ser parcial e unilateral?
Se você quiser trilhar o caminho do Veículo Único,
Não tenha preconceitos contra os objetos dos seis sentidos.

Quando você não tem preconceitos contra os objetos dos seis sentidos,
Então você é um com a Iluminação;
Os sábios são não-ativos,
Enquanto os ignorantes criam amarras para si mesmos;
Enquanto no Dharma em si não há individualização,
Eles ignorantemente se apegam a objetos em particular.
É a sua própria mente que cria ilusões -
Não é essa a maior de todas as autocontradições?

O ignorante adora idéias de tranquilidade e estresse
O iluminado não tem preferências e não-preferências,
Todas as idéias de dualismo
São artificialmente criadas pelos próprios ignorantes.
Elas são como visões e flores no ar;
Porque deveríamos nos preocupar em agarrá-las?
Ganho e perda, certo e errado -
Acabe com eles de uma vez por todas!

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessam por eles mesmos,
Se a Mente mantém-se absoluta,
As dez mil coisas são de um só Tal-como-é.

Quando o profundo mistério de um só Tal-como-é é desvendado,
Subitamente esquecemos de todas as amarras externas;
Quando as dez mil coisas são vistas em sua unicidade,
Retornamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos.

Esqueça o porque das coisas,
e atingimos o estado além de analogia;
O movimento é paralisado e não há movimento,
A quietude é colocada em movimento e não há quietude
Quando o dualismo não mais tem vez
A própria Unicidade não permanece.

O fim último das coisas além do qual elas não podem mais ir
Não é limitado por regras e medidas:
Na Mente harmoniosa (com o Caminho) temos o princípio da identidade,
No qual encontramos todas as lutas aquietadas;
Dúvidas e hesitações são completamente eliminadas,
E a fé correta é aprumada;
Não há nada deixado para trás,
Não há nada retido,
Tudo é vazio, lúcido, e auto-iluminante;
Não há esforço, nenhum desperdício de energia
É aí que o pensamento nunca chega
É aí que a imaginação falha em medir.

Na esfera mais alta do verdadeiro Tal-como-é
Não há nem "si mesmo" nem "outro":
Quando a identificação direta é procurada,
Podemos apenas dizer, "Não dois".

Em sendo "não dois" tudo é o mesmo,
Tudo o que é é compreendido nele;
Os sábios nas dez direções
Todos entram nessa Razão Absoluta.

Essa Razão Absoluta é além do apressar [tempo] e estender [espaço],
Para ela um instante é dez mil anos;
A vejamos ou não
Ela se manifesta em todo o lugar em todas as dez direções.

Coisas infinitamente pequenas são tão grandes quanto grandes coisas possam ser,
Pois aqui nenhuma condição externa tem vez;
Coisas infinitamente grandes são tão pequenas quanto pequenas coisas possam ser;
Pois limites objetivos aqui não são considerados.

O que é é o mesmo que o que não é,
O que não é é o mesmo que o que é.
Quando esse estado de coisas não têm mais vez,
De fato, nenhum atraso ali.

Um é Tudo,
Tudo é Um -
Se apenas isso for percebido,
Nenhuma preocupação sobre não ser perfeito!

Quando a Mente e cada mente que acredita não estão divididas,
E não-divididas são cada mente que acredita e a Mente,
É aí que as palavras falham,
Pois isso não é do passado, do presente e do futuro.



Uma outra tradução (ótima) em: Zhong Dao.

O Grande Novelo sem Explicação

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Figura 1. Exemplo de forma (geométrica).

A Figura 1 mostra uma forma. Porém podemos chamar de formas não somente formas geométricas, como também quaisquer conceitos, tais como:

- Conceitos abstratos (justiça, amor);
- Sensações (frio, calor, cores, sons);;
- Percepções estéticas (belo, feio);
- Julgamentos (certo, errado);
- Opiniões (bom, ruim);
- Qualquer coisa que possa ser descrita ou nomeada. De fato, nomear ou descrever é uma maneira de 'criar' uma forma complexa.

A principal característica da forma é que ela não têm uma existência independente, própria, inerente. Mudando a área colorida da forma que foi dada como exemplo, vemos que ao definirmos a forma, definimos também a não-forma (Figura 2):

Figura 2. Exemplo de não-forma (geométrica).

Assim, dizemos que a forma não é independente, não tem existência independente/inerente, já que ela depende da não-forma. Similarmente, a não-forma não é independente da forma. Poderíamos inclusive inverter os nomes, e chamar a forma de não-forma e a não-forma de forma. Isso pode ser feito trocando a Figura 1 com a Figura 2.

Vejamos outro exemplo que não seja uma forma geométrica, digamos, uma cor. Ao definirmos o vermelho, definimos também o não-vermelho. O não-vermelho inclui todas as cores que não são o vermelho: preto, amarelo, azul, rosa, branco, verde, marrom, etc. Quando vemos a cor amarela, automaticamente sabemos: não é o vermelho. É não-vermelho. Assim o conceito de vermelho depende de todas as outras cores, e o conceito de todas as outras cores depende do vermelho.

Outra peculiaridade da forma é que ela é dependente de uma mente que 'enxergue', 'crie', nomeie a forma. Ou seja, a forma não é independente da mente. No entanto, a relação entre a mente e a forma é muito parecida com a da forma e a da não-forma. Ou seja, uma é dependente da outra - a mente é dependente da forma, e a forma é dependente da mente.

A característica ou atributo das formas é de não terem existência independente, inerente. Essa característica é chamada frequentemente de vazio, ou vacuidade (sunyata).

Porém, a relação entre a forma e o vazio é muito parecida com a relação entre a forma e a não-forma. Isto é, a forma não é independente do vazio, e o vazio não é independente da forma. Ou, forma é em si, vazio; e vazio é em si, forma. Forma é vazio e vazio é forma.

A partir desse momento fica muito difícil continuar tentando explicar qualquer coisa conceitualmente (é receita certa de falar uma tolice atrás da outra - mas continuemos mais um pouco). Dizer que a forma não é independente do vazio (e vice-e-versa) significa dizer algo como

"a independência não é independente da dependência",
ou
"a dependência é dependente da independência",
ou diretamente
"dependência é independência", "independência é dependência".

Por isso é dito que a compreensão clara, verdadeira e profunda da vacuidade não pode ser conceitual, mas deverá ser experimental. Isso por que é impossível ou inútil conceitualizar propriamente a vacuidade e as suas relações entre a forma, a não-forma, a mente e a não-mente - chamo isso de "o grande novelo sem explicação".



Segue, a quem possa interessar, o Caso 29 do Mumonkan - A bandeira de Eno:

O vento estava tremulando a bandeira do templo, e dois monges estavam discutindo sobre ela. Um dizia:
- A bandeira está movendo.
O outro dizia:
- O vento está movendo.
Eles não conseguiam chega a um acordo, não importando o quão duramente debatessem. O sexto patriarca, Eno, passou coincidentemente por ali e disse:
- Nem o vento, nem a bandeira. É a mente que está movendo!
Os monges ficaram abismados.


Comentário de Mumon:

Não é o vento que move, não é a bandeira que move, não é a mente que move. Como devemos entender o sexto patriarca? Se você obtiver uma compreensão íntima desse significado, você verá por que os dois monges, querendo comprar ferro, obtiveram ouro. O patriarca não conseguiu refrear sua compaixão pelos dois monges, então tivemos essa cena lamentável.

O vento move, a bandeira move e a mente move,
Todos igualmente culpados.
Só sabe que a boca abriu,
Não sabe que o discurso saiu errado.

A estranha linha entre o aprendizado e o ensino

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

(Do lado do aprendizado:)

Eu não posso aprender nada se eu pensar que já aprendi tudo.

Se alguém me diz uma coisa, mas eu já tenho opinião formada, não serei capaz de ouvir o que o outro está falando.

Eu não irei verdadeiramente entender se achar que já entendi tudo.

Assim, as pré-concepções dificultam o entendimento.

Mas o que o aluno deve aprender?


(Do lado do ensino:)

Por outro lado, dificilmente eu consigo ensinar algo a alguém. Isso porque qualquer coisa que eu queira transmitir, irá esbarrar nas pré-concepções da outra pessoa.

De fato a outra pessoa irá aprender por ela mesma, quando derrubar suas pré-concepções (ou deixá-las enfraquecerem naturalmente).

Não é possível empurrar goela abaixo um ensinamento qualquer. Simplesmente, alguns entenderão e outros não. Mesmo o melhor professor de todo o mundo não conseguiria ensinar qualquer coisa a alguém que não queira ouvir, ou tenha uma opinião fechada sobre um assunto.

Mas o que o professor deve ensinar?


(No limite:)

Porém, aprender é de certa forma criar concepções. Para aprender algo é preciso fechar as portas para alguns entendimentos.

Assim, parece que para poder integralmente e continuamente aprender, o aluno deve na verdade desaprender. Livre de pré-concepções, ele pode verdadeiramente compreender. Provavelmente o professor ficará muito satisfeito com esse desaprendizado do aluno.

Assim, de certa forma, nem o professor ensina, nem o aluno aprende.


(Peço desculpas ao eventual leitor pela confusão em excesso. Na verdade, eu não entendi muito bem o que eu escrevi!)

Poema da fuga sem significado

sábado, 19 de setembro de 2009

Eu posso tentar fugir, mas eles irão me alcançar
Não há onde me esconder.

Eu posso tentar me enganar,
Mas no fim eles abrirão meus olhos.

Eu posso ir até a montanha mais alta do planeta
Eles estarão lá.

Mesmo no fundo do oceano,
Não tenho como escapar.

Ainda que eu esteja completamente sozinho,
A presença deles será refulgente.

Quando eu finalmente cansar de minha fuga sem sentido,
Inevitavelmente irei conhecê-los.

Todos os boddhisatvas, mahasatvas
Não há nada que esteja além de seu alcance.

Seus votos são irrevogáveis.
Pode a ilusão ser superada com a ajuda de outra ilusão?

O Coração do Sutra Prajna Paramita - Versão muda (hanzi/kanji)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Canto (não-tradicional) do Coração do Sutra Prajna Paramita (em japonês)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009



Kanji zai bosatsu. Gyojin hannya haramita ji. Shoken go onkaku. Do i issaï ku yaku.

Sharishi. Shiki fu i kû. Kû fu i shiki. Shiki soku zékû. Kû soku zé shiki. Jusô gyo shiki. Yakubu nyozé.

Sharishi. Zécho hokû sô. Fushô fumetsu. Fuku fujô. Fuzô fugen. Zékokû chû. Mu shiki mu ju sô gyo shiki.

Mugen ni bi zesshin. Mu shiki shokô mi soku ho. Mugen kai nai shimu i shiki kai. Mu mu myô yaku mu mu myô jin. Naishi murô shiyaku murô shinjin. Muku shû metsu dô. Muchi yaku mu toku. I mushotoku ko.

Bodai sat ta. E hannya haramita ko. Shinmu kégému kégéko. Mu û ku fu. On ri issaï tendô musô. Kugyô néhan. Sanzé shobutsu. E hannya haramitako. Toku a nokuta rasan myaku san bodaï. Kochi Hannya haramita. Zédai jin shû. Zédai myô shû. Zému jô shû. Zému todo shû. Nojo issaï ku. Shin jitsu fu. Koko ketsu hannya haramita shû. Soku setsu shû watsu.

Gyatei, gyatei, hara gyatei, hara sô gyatei, Boji sowaka. Hannya shingyô